O papel do estilo de vida no desenvolvimento do câncer

Pelo menos 42% dos cânceres recém-diagnosticados nos Estados Unidos são potencialmente evitáveis, porque são atribuídos a fatores de estilo de vida

Gwen/Pixabay
(foto: Gwen/Pixabay)

Quem me acompanha mais de perto sabe que sou um grande defensor da adoção de hábitos de vida para prevenção do câncer. Apesar de ser uma doença multifatorial, manter um estilo de vida saudável, excluindo várias práticas pró-carcinogênese, será um diferencial contra a doença, mesmo para as pessoas que tenham alguma predisposição.

Os colegas oncologistas doutor Poorvi Desai e doutor Amy Comander, do Cancer Center, nos Estados Unidos, seguem a mesma linha de pensamento. Em um interessante artigo publicado na Asco Daily News, eles reúnem dados demonstrando como estilo de vida contribui para o desenvolvimento do câncer, destacando a importância de os oncologistas incluírem essas recomendações como parte da abordagem terapêutica. No entanto, falta de treinamento do médico sobre esses tópicos, falta de tempo e de encaminhamentos apropriados, ainda são barreiras que podem dificultar tal abordagem.

É interessante observar o paradoxo vivido na área oncológica, especialmente em países com mais recursos, a exemplo dos Estados Unidos: se por um lado há avanços no tratamento e detecção precoce do câncer, bem como aumento das taxas de sobrevivência, por outro, os fatores de risco para o desenvolvimento do câncer estão se tornando mais prevalentes.

De acordo com a American Cancer Society (ACS), atualmente, 41% dos homens e 39% das mulheres desenvolverão câncer durante a vida. Excluindo o câncer de pele não melanoma, pelo menos 42% dos cânceres recém-diagnosticados naquele país são atribuíveis a fatores de estilo de vida e, por isso, são potencialmente evitáveis.

Especificamente, 19% dos cânceres recém-diagnosticados podem ser devido ao tabagismo e 18% a uma combinação de excesso de peso corporal, consumo excessivo de álcool, má nutrição e falta de atividade física. O uso do tabaco foi associado a pelo menos 12 tipos de câncer diferentes, e o uso do álcool a pelo menos seis.

O Relatório Anual de 2020 para a Nação sobre o Status do Câncer afirma que o excesso de peso corporal (índice de massa corporal ou IMC > 25 kg/m2) está associado a pelo menos 13 tipos diferentes de câncer, incluindo câncer de cólon, reto e pós-menopausa. A obesidade (IMC > 30 kg/m2) também está correlacionada com menor sobrevida entre pacientes com câncer de mama, próstata e colorretal.

Barreiras à promoção da saúde no tratamento do câncer


Em uma pesquisa com 971 oncologistas, em 2019, o Subcomitê de Obesidade e Equilíbrio Energético do Comitê de Prevenção do Câncer da ASCO identificou que a maior parte dos entrevistados acredita que as evidências ligam os resultados da obesidade ao câncer, e que essa relação deve ser considerada nas abordagens terapêuticas.

No entanto, os encaminhamentos para outras áreas e programas para apoiar os fatores de estilo de vida ocorreram com menos frequência. É necessário que os especialistas da oncologia busquem complementar o próprio conhecimento nessas áreas correlacionadas para que possam orientar os pacientes.

Recursos para intervenções de estilo de vida


Além da ASCO, várias outras organizações definem diretrizes para abordar intervenções no estilo de vida e mitigar essas barreiras. Em 2020, a ACS publicou orientações para dieta e atividade física com foco na redução do risco de câncer, sendo elas:

- Alcançar e manter um peso corporal saudável ao longo da vida;

- Ser fisicamente ativo;

- Seguir um padrão de alimentação saudável;

- Evitar o álcool.

O Instituto Americano de Pesquisa do Câncer (AICR) também especifica dez recomendações para a redução do risco de câncer e para a sobrevivência ao câncer:

- Mantenha o peso dentro do Índice de Massa Corporal considerado saudável;

- Faça atividade física;

- Consuma diariamente frutas, legumes, verduras e grãos integrais;

- Limite o consumo de fast food e alimentos ricos em gordura, amidos e açúcares;

- Limite o consumo de carnes vermelhas ou processadas;

- Limite o consumo de bebidas açucaradas;

- Evite a bebida alcóolica;

- Cuidado com o uso de suplementos de vitaminas e minerais;

- Se possível, mulheres mães devem fazer o aleitamento materno, o que pode reduzir os níveis de alguns hormônios e proteger contra o câncer de mama;

- Alimentação saudável após tratamento.

Em geral, em termos de recomendações dietéticas, as diretrizes enfatizam a importância de um padrão alimentar não processado, à base de plantas. Os oncologistas devem colaborar com outras áreas da saúde para garantir que os pacientes mantenham um IMC normal, ao mesmo tempo que avaliam a saúde metabólica e a composição corporal, independentemente do IMC. As deficiências de vitaminas devem ser rastreadas em intervalos de rotina e os pacientes devem ser regularmente questionados sobre o uso de suplementos.

Em relação aos sobreviventes de câncer, deve-se considerar as consequências psicossociais do tratamento, incluindo angústia, depressão e ansiedade, medo de recorrência, preocupações com o retorno ao trabalho e problemas financeiros. Distúrbios do sono e insônia também devem ser observados como indicativo da necessidade de atuação de um psicólogo ou terapeuta.

O foco no estilo de vida deve ser enfatizado para a redução do risco de câncer em qualquer estágio do tratamento do câncer, incluindo durante o tratamento ativo e depois. E por ser o profissional referência para o paciente, o oncologista tem papel fundamental na orientação de um novo estilo de vida. O nosso trabalho é multidisciplinar e integrativo.

*André Murad é oncologista, pós-doutor em genética, professor da UFMG e pesquisador. É diretor-executivo na clínica integrada Personal Oncologia de Precisão e Personalizada e diretor Científico no Grupo Brasileiro de Oncologia de Precisão: GBOP. Exerce a especialidade há 30 anos, e é um estudioso do câncer, de suas causas (carcinogênese), dos fatores genéticos ligados à sua incidência e das medidas para preveni-lo e diagnosticá-lo precocemente.

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