Resposta imunológica de pacientes com câncer às vacinas de COVID-19

Pesquisadores observaram que, embora a resposta às vacinas de mRNA seja positiva em 94% dos pacientes, foi baixa em pessoas de alto risco com câncer

Klaus Hausmann/Pixabay
(foto: Klaus Hausmann/Pixabay)

A vacinação contra a COVID-19 avança em todo o mundo e, embora de forma lenta, faz crescer a esperança de vencermos essa doença sem precedentes. Em paralelo, avançam também os estudos para detalhar o funcionamento das vacinas nos diferentes tipos de pessoas, a exemplo dos pacientes oncológicos, que recebem atenção especial devido à condição de imunossupressão causada pelo próprio câncer e também por alguns tratamentos.

Uma pesquisa realizada por pesquisadores da University of Texas Health Science Center, em San Antonio (EUA), reuniu dados demonstrando que a maioria dos pacientes com câncer tem uma boa resposta imunológica às vacinas de mRNA, como as da Pfizer e Moderna.

Os pesquisadores avaliaram 131 pacientes. Metade era mais velha e metade mais jovem, com uma média de idade geral de 63 anos. A maioria (106) tinha tumores sólidos. Oitenta por cento dos pacientes eram brancos; 18% eram pacientes hispânicos; e 2% eram pacientes negros.

A principal descoberta foi de que 94% dos participantes desenvolveram anticorpos para o novo coronavírus três a quatro semanas após a segunda dose de uma vacina de mRNA.

Por outro lado, os pacientes com câncer no sangue, como mieloma e linfoma de Hodgkin, se mostraram menos propensos a responder à vacinação do que aqueles com tumores sólidos. De acordo com os pesquisadores, não foram encontrados anticorpos contra o vírus nesses pacientes, o que abriu o questionamento sobre a necessidade de fornecer uma terceira dose da vacina, após a finalização do tratamento contra o câncer, em certos pacientes de alto risco.

Entre esses pacientes de alto risco, foi verificado que aqueles que receberam o medicamento Rituximab seis meses após a vacinação não desenvolveram anticorpos. Esse medicamento é um anticorpo monoclonal usado para tratar câncer no sangue e doenças autoimunes. Por sua vez, os pacientes em quimioterapia desenvolveram resposta de anticorpos, mas foi mais fraca do que na população em geral.

A pesquisa também encontrou diferenças significativas na resposta imunológica dos pacientes com câncer na imunização com duas doses em comparação com uma, demonstrando que a vacinação completa com duas doses é fundamental para uma resposta robusta de anticorpos.

O estudo não examinou variantes do coronavírus, incluindo a variante Delta, altamente contagiosa, e não analisou como as células T e B de combate à infecção em pacientes com câncer responderam à vacinação. Além disso, os pesquisadores também observaram a necessidade de, no futuro, observar diferenças entre pacientes negros, asiáticos e hispânicos.

De toda forma, as descobertas sugerem que os pacientes de alto risco devem tomar precauções contra a infecção, mesmo após a vacinação. Aliás, no Brasil e em outras regiões em que a vacinação avança lentamente, esse cuidado deve ser tomado por toda a população, principalmente, com o crescimento de casos com a variante Delta.

*André Murad é oncologista, pós-doutor em genética, professor da UFMG e pesquisador. É diretor-executivo na clínica integrada Personal Oncologia de Precisão e Personalizada e diretor Científico no Grupo Brasileiro de Oncologia de Precisão: GBOP. Exerce a especialidade há 30 anos, e é um estudioso do câncer, de suas causas (carcinogênese), dos fatores genéticos ligados à sua incidência e das medidas para preveni-lo e diagnosticá-lo precocemente.


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