Câncer de mama: importância do diagnóstico de síndromes hereditárias

A genética é considerada uma herança de características, como a cor dos olhos ou a altura, mas há outras coisas que você pode herdar que não são visíveis

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(foto: Brano/Unsplash)

Todos nós temos a base da genética e da herança. Você vê isso nas pessoas ao seu redor - talvez você tenha herdado a altura do seu pai ou o cabelo da sua mãe. Mas há outras coisas que você pode herdar que não são visíveis na superfície e, ainda assim, podem ter um grande impacto em sua vida.

Em maio de 2013, as manchetes chegaram aos meios de comunicação sobre a atriz Angelina Jolie, mas essas histórias não se detinham mais em seu novo filme ou trabalho de direção. Em vez disso, elas se concentraram em uma cirurgia recente que ela havia feito em uma tentativa de ajudar a prevenir o desenvolvimento de câncer em seu corpo em uma idade precoce.

A decisão de Angelina Jolie foi fazer uma mastectomia bilateral preventiva, uma cirurgia, a qual remove todo o tecido das mamas bilateralmente, com reconstrução mamária opcional. A escolha se deu pelo fato de, na época, com 37 anos de idade, ter sido identificada como portadora de uma alteração genética (mutação) no gene BRCA1, devido ao falecimento de sua mãe de câncer aos 56 anos.

O que é BRCA?


O termo 'BRCA1/2' vem dos genes de 'câncer de mama 1 ou 2'. Todo mundo tem esses genes e, quando saudáveis, eles agem principalmente como supressores de tumor, o que significa que ajudam na prevenção do desenvolvimento de cânceres em determinados tecidos do nosso corpo.

Às vezes, esses genes podem estar com defeito ou se tornar "alterados" - e, neste estado, os genes BRCA1/2 não funcionam mais adequadamente na correção de defeitos ou quebras na dupla fita do DNA de nosso genoma. Nesse caso, essa alteração nos genes BRCA1/2 leva a riscos muito maiores de desenvolver certos tipos de câncer ao longo da vida, e esses riscos aumentam com a idade.

Como essa alteração no BRCA1/2 é genética, se um dos pais tiver uma alteração no BRCA1/2, há 50% de chance de que o filho também herde o gene alterado e tenha o mesmo risco aumentado ao longo da vida de desenvolver câncer.

Hoje sabemos que mutações de outro gene, o PALB2, também levam a um risco aumentado de câncer de mama, similar ao do BRCA (pois são genes reconhecidos como de "alta penetrância").

Já outros genes da mesma família do BRCA e PALB2, que são igualmente denominados de "genes de recombinação homóloga", como o ATM, o RAD51, o FANC, o BRIP e o CHEK2, são classificados como de penetrância intermediária a baixa, ou seja, com menos poder de gerar o fenótipo (a resultante da mutação em nosso corpo) de câncer, embora os portadores dessas mutações também tenham maior risco de câncer do que a população em geral.

Aumento do risco de câncer


A porcentagem exata de aumento do risco de câncer difere entre os sexos, assim como os tipos de câncer afetados. Para mulheres, alguém com alteração no BRCA1 tem 60% a 90% de chance de desenvolver câncer de mama ao longo da vida, e aqueles com alteração no BRCA2 têm 45% a 85% de chance.

Para o câncer de ovário, as mulheres com alteração do BRCA1 têm um risco de 40% a 60% ao longo da vida, e para o BRCA2, esse risco é de 10% a 30%. Em homens com alteração no BRCA1, eles têm 0,1 - 1% de chance de desenvolver câncer de mama ao longo da vida e cerca de 10% de risco de desenvolver câncer de próstata - riscos considerados semelhantes à população masculina em geral. Aqueles com uma alteração BRCA2 têm um risco aumentado de 5% a 10% de desenvolver câncer de mama e 20% a 25% de câncer de próstata durante a vida.

Redução de risco

Assim como acontece com Angelina Jolie, as mulheres podem optar, além do rastreamento mais precoce e frequente através de exames de imagem, por cirurgias preventivas para se reduzir o risco de câncer, removendo partes do corpo que apresentam alto risco de desenvolver câncer.

Esse processo geralmente envolve a remoção dos ovários e das trompas de falópio para reduzir o risco de câncer de ovário, a chamada salpingooferectomia, e uma mastectomia bilateral para se reduzir o risco de desenvolver câncer de mama.

Outra medida para o correto controle do risco de câncer é comparecer a consultas regulares de exames, como mamografias, ressonâncias magnéticas ou ultrassonografias para exames de mama. Atualmente, não há medidas de rastreamento adequadas para se monitorar o câncer de ovário.

Como se suspeita de uma Síndrome Hereditária de Predisposição ao Câncer

Se houver muitos casos de câncer em sua família, você pode se perguntar se é apropriado fazer um teste genético. Para fazer isso, é muito importante a consulta com o especialista, que é o médico geneticista ou oncogeneticista.

O próximo passo é a elaboração de uma árvore genealógica (heredograma) para a tomada de decisão da realização de um teste genético (chamado de germinativo, pois todas as células do corpo apresentam a mesma mutação) para a identificação dessas mutações e em quais genes o sequenciamento deverá ser realizado. Esse exame é feito em uma amostra de sangue ou saliva.

A indicação ou não de um sequenciamento germinativo deve sempre ser feita pelo especialista. Entretanto, existem dicas importantes que direcionam a indicação desses testes: se você ou um membro da família teve câncer de mama diagnosticado antes dos 45; qualquer incidência de câncer de mama masculino; ou que um lado da família tem múltiplos casos de câncer de mama/ovário/próstata, especialmente se eles ocorreram em uma idade mais jovem (abaixo dos 55 anos).

A família


Identificar uma alteração BRCA1/2 tem consequências de longo alcance para o indivíduo que está sendo testado e para sua família. Descobrir uma alteração no BRCA1/2 pode causar uma variedade de respostas psicológicas e alguns acham isso particularmente poderoso, pois permite que tomem decisões informadas sobre sua saúde.

Em alguns casos, pode levar a sofrimento psicológico, pois a notícia da alteração do gene é compartilhada entre os membros da família. Às vezes, as pessoas podem sentir angústia em torno do medo delas ou de um membro da família desenvolver câncer, ou, no caso de mulheres, por ter que decidir como tentar reduzir o risco. Daí a importância de que todo esse processo seja conduzido por um especialista.

Conversar com as crianças sobre o risco presente na família pode ser particularmente difícil. Cabe a cada família como conduzir esta discussão, alguns optam por iniciar a conversa desde cedo, outros podem esperar até uma idade que considerem adequada.

Em geral, é recomendável que os pais adaptem todas as informações que desejam compartilhar com os filhos de acordo com a idade.
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