Marco Valério Marcial tem parte da obra traduzida

Cultuado desde a Antiguidade, poeta foi traduzido por Rodrigo Garcia Lopes em Epigramas, gênero que o romano elevou ao patamar de grande arte

por Pablo Pires Fernandes 27/07/2018 10:54
Wikicommons
Afresco romano encontrado em Pompeia retrata Sátiro (ou Fauno) e Mênade (ou Bacante), ninfa que participava dos cultos a Baco (foto: Wikicommons)
Falar sobre sexo não é novidade alguma. Há quase 2 mil anos, o poeta e escritor Marco Valério Marcial utilizava abertamente as palavras latinas mentula, fututam, cunno, dare, culus e muitas outras desse calão em seus epigramas. As práticas e o comportamento sexual dos romanos do século 1º, que deixariam corada a maioria da sociedade do século 21, são tema fundamental nos escritos de Marcial.

Embora esse aspecto possa justificar parte do fascínio despertado por sua obra ao longo dos séculos, sua literatura e persona são mais complexas e merecem olhar mais atento. Com esse objetivo, Rodrigo Garcia Lopes se propôs traduzir parte do legado de Marcial, maior referência de um gênero literário considerado (até hoje) menor: o epigrama. “Comecei a traduzi-lo em 1990, no Arizona (EUA). No começo, foi mais para me divertir nos intervalos da tese que fazia, sem maiores pretensões”, conta o paranaense. Parte do trabalho foi publicada em revistas e sites, mas o projeto cresceu e resultou no belo volume Epigramas, publicado pela Ateliê Editorial.

São 219 epigramas escolhidos entre os 1.561 escritos e publicados por Marcial em 15 livros. “Lembro-me de ter dado risada sozinho ao traduzi-lo ou de simplesmente ficar pasmo, chocado, até emocionado, sensações conflitantes num mesmo leitor que, certamente, ele apreciaria”, conta.

A tarefa é, obviamente, mais árdua pelos séculos de distância entre autor e tradutor, mas a perenidade dos versos de Marcial fez com que os mais distintos autores se debruçassem sobre seus epigramas. No Brasil, a tradução dos epigramas de Marcial mereceu, nos últimos 15 anos, o empenho de latinistas importantes e de poetas e críticos. As versões diferem bastante, dada a estrutura semântica latina e as opções de “transcriação” poética de cada tradutor. Nesta publicação, Rodrigo Garcia Lopez traduz Marcial buscando a atualidade da linguagem e dos temas. Além do elucidativo posfácio, o autor tem o grande mérito de apresentar notas explicativas, que contextualizam fatos históricos e linguísticos na edição bilíngue.

Nascido na atual Espanha (então parte do Império Romano), Marcial recebeu educação privilegiada e, à procura de fama e fortuna, dirigiu-se a Roma, chegando à metrópole de mais de 1 milhão de habitantes em 64 d.C. Tinha cerca de 24 anos. Por meio de amizades, obteve acesso à restrita elite da capital e se dedicou a criar versos, o que lhe permitia circular na “sociedade”, ganhar dinheiro para viver dignamente e alçar considerável fama. Conseguiu, já que chegou a ser designado a criar poemas para a inauguração do Coliseu.

No livro, Rodrigo explica que Marcial, mesmo sem ser o criador do epigrama, foi o autor que alçou o gênero a uma sofisticação singular, capaz de fundamentar tanto o nome do poeta como essa forma literária, reinventando-o e o modernizando. Além da habilidade no uso dos procedimentos da lírica latina (dísticos elegíacos, hexâmetros, pentâmetros, hendecassílabos, escazontes, paronomásia, écfrase, antítese, anáfora, antítese etc.), Marcial encontrou estilo próprio. Em termos formais, a conclusão arrebatadora e surpreendente ao final de seus epigramas foi inovadora e explica por que, ao longo de 2 mil anos, tantos se dedicam ao desafio de traduzi-lo e perpetuá-lo.

O duplo sentido das palavras, as alegorias filosóficas, a capacidade de aliar, com agudeza ímpar, humor e ideias, de usar o sarcasmo para tratar de temas cotidianos ou de denunciar com franqueza a hipocrisia da sociedade são elementos que mantêm a obra de Marcial extremamente atual. Em entrevista ao Pensar, Rodrigo comenta mais sobre a fascinante obra de Marcial.

Quais os desafios de traduzir as obras de Marcial?
Procurei fazer uma seleção representativa que contemplasse a variedade de temas e técnicas de sua obra. É possível que, em futuras edições, eu inclua mais, pois traduzir Marcial vicia. Na minha seleção, quis variar também na extensão dos poemas – sim, há epigramas longos, o que pode parecer uma contradição num gênero marcado de síntese e concisão. Meu objetivo foi repoetizar os epigramas em português brasileiro, com o desafio de manter o frescor, o caráter imediato, a concisão do latim de Marcial e, claro, seu humor e malandragem. Seu desafio foi se dedicar exclusivamente a um gênero que ninguém levava muito a sério, considerado menor, marginal, e transformá-lo em grande arte. Hoje, quando se fala em epigrama, pensa-se em Marcial.

Os textos são repletos de autorreferências, a si próprio e aos próprios escritos. Esse recurso era comum?
Isso me pareceu uma coisa ousada e inventiva, umas das coisas que mais me chamaram a atenção na poesia dele, embora ele se esforce em separar sua pessoa física com sua persona poética, quando afirma que suas páginas eram lascivas, mas a sua vida, honesta. Sem dúvida, ele deve ter sido uma figura e tanto. Outra coisa interessante é que Marcial já fazia poemas metalinguísticos, que tematizam o epigrama que está escrevendo ou publicando. Outros se dirigem ao leitor, ao próprio livro, ou abordam sua brevidade, “inutilidade” e inferioridade em relação a outros considerados mais nobres. Suspeito que há um exagero quando ele se gaba de ser uma celebridade, um poeta conhecido e reconhecido ainda em vida, lido em toda Roma e no mundo todo. Talvez fosse parte do gerenciamento de imagem dele.

Marcial é considerado pioneiro ao denunciar o plágio. Como é esta questão?
Um alvo especial das invectivas de Marcial são os “criminosos literários”, seja na forma de maus poetas e plagiadores, invejosos e ladrões de seus versos, ou críticos. Ele foi o primeiro a usar a palavra plagiário, que tem uma origem curiosa, típica de sua sociedade escravagista. Deriva de plagium, que era o ato de raptar escravos alheios (ou o de raptar um escravo livre para torná-lo cativo novamente). Ao criar a metáfora “poemas são escravos de seu autor”, ele aplica o termo para designar aquele que rouba obras literárias, ideias, livros, textos.

Como o autor articula questões tão cotidianas com temas mais filosóficos?
Roma é a verdadeira musa de sua poesia, e a capital do império surge em toda sua exuberância de detalhes e contrastes, opulência e miséria. Era uma cidade caótica, de extrema desigualdade social. Há também epigramas importantes de teor filosófico, que tematizam sobre a fugacidade da vida, a importância de se desfrutar o aqui e agora, outros de ideais epicuristas, a defesa de uma vida mais simples, em contato com a natureza, livre da aglomeração, dos ruídos e obrigações da cidade grande.

Marcial mistura personagens inventados com os reais. Como se dá essa mistura entre personagens inventados e reais, a ficção e a realidade nos textos dele?
Há muitos epigramas em que ele interpela amigos, elogia patronos e até patronas, além do próprio imperador. Nas suas invectivas e ataques, no entanto, não usa nomes de pessoas reais. Com isso, acabou criando uma galeria de nomes fictícios, caricaturas de tipos sociais. Sua sátira social, como o poeta defendeu, quer “poupar indivíduos, mas não os vícios”.

A ironia é um dos elementos centrais nos versos do autor, mas o tom chega a ser “venenoso” em muitos momentos. Quais as variações do sarcasmo de Marcial?
Creio que ele foi pioneiro em vislumbrar a importância do humor como uma poderosa arma poética e de crítica social. Ele é o mestre da punch-line, o remate, a estocada ou picada final, uma das marcas registradas de seu epigrama “romano” (sua origem é grega). Como os modernos comediantes de stand-up, às vezes Marcial deixa para nos surpreender na última palavra, no último instante do epigrama. Ele pode ser demolidor, sacana, ferino, impiedoso, vingativo, cínico, escatológico, obsceno, especialmente com golpistas, caçadores de herança, ladrões e corruptos, ricos e novos-ricos exibicionistas, patronos e anfitriões avarentos, profissionais imperitos (advogados, médicos, barbeiros, oradores, poetas etc.). Sua verve não poupava (quase) ninguém.

TRECHOS

2 – XIII
Juiz e advogado adoram uma propina.
Não duvide, Sexto: pague sua dívida.

4 – L
Você é um velho, é o que Taís repete.
Ninguém é velho pra receber boquete.

5 – LXXXI
Pobre hoje, Emiliano, amanhã também.
A riqueza só é dada a quem já tem.

10 – XLIII
Enterrou no campo, Fíleros, suas 
sete mulheres.
Isso é o que chamo de terra produtiva.

11 – XCII
Quem diz que você é uma pessoa corrupta,
mente. Zolio, você é a corrupção em pessoa.

11 – CVIII
Está satisfeito com o livro longo que leu,
Leitor, mas me pede mais uns, de saideira.
E a grana pro agiota, o leitinho das crianças?
Pague, leitor, não se faça de surdo. Valeu.

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