Prêmio Pernambuco de Literatura escolhe trabalhos que inovam a linguagem

Cinco autores foram escolhidos com novidades entre o realismo, o diálogo com a tradição e o hibridismo

por Tadeu Sarmento* 13/07/2018 08:59

Em sua quinta edição, o Prêmio Pernambuco de Literatura se consolida como principal propulsor da produção literária pernambucana. Além de um incentivo financeiro escalonado por autor, o prêmio contempla a publicação das obras vencedoras pela Cepe Editora, privilegiando residentes de todas as regiões de Pernambuco, no intuito de dar visibilidade aos autores premiados e aumentar o acesso à leitura. Acertadamente, o prêmio prevê distribuição gratuita dos livros vencedores nas escolas públicas do estado e preço acessível aos demais leitores.

Foram cinco os livros premiados na edição de 2017, todos lançados em abril, em edições primorosas: Chã, de Enoo Miranda; Nada consta, de Fred Caju; O velocista, de Walter Cavalcanti; Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira; e Das tripas coração, de Ezter Liu, respectivamente: dois livros de poesia, um romance, e dois livros de contos. Vamos a eles.

Chã De Enoo Miranda 60 páginas R$ 20

Os poemas de Chã dialogam com a tradição, sobretudo, com certa tradição modernista que imprimiu, na forma literária escrita, as representações da oralidade. Só que a poesia, assim como a vida registrada com fluência nos poemas, não é algo necessariamente suficiente para Miranda, daí o poeta completar sua visão de mundo com um singular lastro de denúncia social: “minha casa é de pólvora / para o caso de inundar”; ou: “teu senhor / te deu troco / em bala”. O livro é dividido em quatro “quadras”, e é na terceira que essa interlocução com o legado modernista atinge seu ponto máximo, como nos versos de Outdoor: “anuncie / aqui/ &/ leia/ antes que queime”. Em seus poemas, Enoo Miranda trabalha a partir do conflito entre individualidade e coletividade, e entre militância política e crise existencial, conseguindo atingir certo ponto de equilíbrio entre eles.

Nada consta De Fred Caju 82 páginas R$ 20

Já em Nada consta, Fred Caju flerta com a poesia marginal e elege a coloquialidade e o caráter lúdico da escrita como modos de se debruçar sobre o próprio exercício poético. Seus poemas – à primeira vista desleixados e despretensiosos – têm, quase todos, traços provocativos e/ou humorísticos, e se concentram menos na reflexão e mais em uma espécie de translado confessional de experiências: “o poema escrito / é só a ponta do iceberg / do que sinto”. A aparente desordem festiva com que seus poemas são apresentados configura, na verdade, um gesto de combate contra o formalismo estanque, ainda que essa batalha já tenha sido travada, de forma vitoriosa, por duas ou três gerações anteriores à do poeta.

O romance O velocista, de Walter Cavalcanti, é o curioso relato de um astronauta à deriva – tanto no espaço quanto em suas lembranças desconexas. O livro peca um pouco pelo excesso de experimentação formal e, a certa altura, torna-se cansativo, parecendo ter, como esquema programático, a abolição dos gêneros e da linearidade – em favor da colagem aleatória de impressões. Suas escolhas formais remetem a elementos da estética de vanguarda (pelo menos, eram vanguarda em 1922) como o hibridismo de gêneros, e, embora apresentados sem qualquer pretensão, são, em certo sentido, gratuitos. Ao abrir mão da subordinação e de elos entre ideias, o texto aparenta falta de coesão e deixa o leitor patinando e a ver navios. Quanto mais se avança na leitura, mais a história de O velocista não ocorre, antes, parece se contradizer em um sem número de impressões, algumas bem pueris. Essa falta de unidade pode frustrar um leitor pouco acostumado a ter que atravessar barreiras formais para atingir o secreto universo narrativo de um texto que quer se fechar em si mesmo, quando deveria querer se comunicar.

O velocista De Walter Cavalcanti Costa 214 páginas R$ 20
Nem tudo cabe na paisagem Amâncio Siqueira 128 páginas R$ 20

Quanto aos contos de Nem tudo cabe na paisagem, de Amâncio Siqueira, estes têm uma linha comum no registro da realidade e na observação de um cotidiano tão simples quanto verossímil, por vezes, aliando uma eficiência em contar histórias à mais completa imersão no mundo factual. É curioso notar a maneira como o escritor, pouco a pouco, indica um desdobramento trágico ou cômico bem ali, em um espaço em que a vida corriqueira dá a impressão de se desenvolver com naturalidade. São contos curtos e bem executados e, em alguns deles (como “Traição” ou “Pecado”), Siqueira demonstra perícia em criar diálogos que fluem tão naturais que a impressão que dá é que o leitor escuta essa conversa na mesa ao lado (o ápice dessa técnica é o conto “Audiência”). A escrita de Siqueira é fluida e elegante, e suas histórias se desenrolam sem grandes percalços.

VENCEDOR TEM MULHERES EM DESTAQUE

Agora, o grande livro vencedor. Escolhido pelos jurados como o melhor entre os cincos, Das tripas coração, de Ezter Liu, de fato, faz jus ao pódio. Todas as protagonistas dos 18 contos do livro são mulheres, o que, à primeira vista, cede uma unidade temática ao livro. Ezter conta que quis mesmo construí-lo sobre essa unidade de temas, para que seus contos esparsos ganhassem um corpo mais compacto. São contos hiper-realistas, no sentido de criarem a impressão de uma realidade ampliada e intensificada pelo impacto que a linguagem concentra nas cenas narrativas.

Das tripas coração De Ezter Liu 92 páginas R$ 20
Claro que, além da unidade temática, a opção pelas protagonistas é também política, e indica uma tomada do protagonismo da mulher na literatura. Ezter, para quem assumir esse protagonismo em qualquer campo é uma urgência, é a primeira mulher a ganhar o prêmio principal na história do concurso. A autora garante que procurou deixar os temas femininos flutuarem nas entrelinhas dos contos, na tentativa de sugeri-los, mais do que dizê-los: “Não quis escrever um manifesto. Sei da luta, estou na luta, mas eu uso as armas que possuo”. Seus contos cumprem a função de denunciar as mais diversas amarras sociais impostas às mulheres, sem descuidar um centímetro que seja da preocupação estética.

Outra característica marcante do livro é sua linguagem cortante e direta. A substituição das vírgulas pelo ponto final deixa o texto mais reto, granítico, sem curvas musicais. No plano do discurso, tal recurso exige a subtração da conotação para atingir a materialidade quase rude e áspera da língua. Segundo a autora, essa escolha foi intencional, como um recurso para deixar todos os contos modulados no mesmo tom: “Mas tem uma questão, não é simples substituição, o processo de escrever sem pausa passa por enxugar muito o texto, porque a vírgula é um processo quase automático, como trocar de marcha num carro. A gente digita a vírgula e nem sente que digitou. A vírgula dá uma cadência, né? Um respiro. Então, sem vírgulas fica mesmo mais áspero, mais duro. E tem um detalhe que eu só saquei depois: na época, eu estava com crises fortes de ansiedade, sentindo muita falta de ar, meu fôlego estava curto mesmo, por isso agora eu assumo que escrevi com o fôlego que tinha”.

E é nessa velocidade aguda e ansiosa que as narrativas de Das tripas coração são contadas, proporcionalmente, à urgência que mobiliza as personagens. De corte cinematográfico, a linguagem parece produzir um contraste entre agressividade e reflexão quando, na verdade, constitui-se em um único golpe no qual ambas são desferidas sobre o mesmo ponto.

Nas suas primeiras cinco edições, o Prêmio Pernambuco distinguiu cinco romances, nove livros de contos e 10 livros de poemas. Em algumas de suas edições (como o caso da última, que selecionou O velocista), o júri dá a impressão de ser maleável no tocante à barreira entre os gêneros, sugerindo uma tendência a cogitar obras híbridas, que rebentam as fronteiras formais, desconsideram as normas estabelecidas, e se apresentam como produtos de uma combinação, ou fusão, de elementos diferentes. Essa abertura é importante. Sem ela, os contos de Ezter Liu (que a certa altura ganham contornos de poemas) talvez não fossem escolhidos, e a revelação de uma obra à altura não viria à tona.

No que se refere à quinta edição, é possível mesmo traçar uma régua que interprete a escolha do júri. De um lado, dois bons livros de poemas (dos quais Chã se destaca), com um percurso claro de aliar forma e conteúdo, na tentativa de violar o espaço entre tradição e modernidade, vida e arte, indivíduo e coletivo. No meio, um romance que, embora peque pelo exagero de uma vanguarda já envelhecida, apresenta um caminho a ser trilhado a partir da sua boa recepção em um prêmio de relevância. Na outra ponta, dois livros de contos de viés realista, cuja força humana dos personagens convence e causa empatia, com destaque para Ezter Liu, que conseguiu um resultado final mais coeso, além de uma sofisticação maior de linguagem.


 

*Tadeu Sarmento é escritor, autor de Associação Robert Walser para sósias anônimos, um dos vencedores do 2º Prêmio Pernambuco de Literatura (2014).

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