Cristovão Tezza chega às livrarias em dose tripla

De uma vez, chegam às livrarias o novo e vertiginoso romance, 'A tirania do amor', a reedição dos 30 anos de 'Trapo' e lançamento de 'Literatura à margem', reunião de conferências do escritor

por Carlos Marcelo 27/07/2018 09:54
Quinho
(foto: Quinho)
Cristovão Tezza é mestre. Foi professor por 20 anos da Universidade Federal do Paraná. Largou a vida acadêmica em 2010, três anos depois do lançamento do best-seller O filho eterno, para se dedicar exclusivamente à literatura. Os alunos perderam o convívio em sala de aula. Os leitores ganharam novos romances, com vozes narrativas distintas e multifacetadas. E os frequentadores de feiras e festas literárias ganharam mais oportunidades de escutar um dos grandes escritores brasileiros.

Catarinense radicado em Curitiba, Tezza ambienta num dia paulistano o novo romance, A tirania do amor. Esse dia não está sendo fácil para o economista Otávio Espinhosa, o protagonista. Acusado de tratar as pessoas apenas como “sombras que aquecem”, Espinhosa tem embates conjugais, familiares, profissionais, coletivos – muitos simultâneos, ou sem distinção entre o presente e o passado. O mais recorrente é com o filho, militante de esquerda, definido pelo pai como “um chavão”. “Adolescentes são idiotas duradouros”, sentencia o funcionário da consultora Price & Savings, que tem vontade de dizer ao filho para dar um tempo no ativismo e valorizar o tempo, “a única coisa realmente sólida que você tem”. Mas não o faz. As frustrações e ressentimentos de Espinhosa com a família e com o país (“o Brasil capenga e de merda de sempre em que tudo se mistura com tudo”) impulsionam a febril narrativa de Tezza, marcada por frases longas e ritmo vertiginoso, capazes de transformar a descrição de um encontro sexual num confronto de voracidades e expectativas.

“A umidade do sexo; a importância absoluta das mãos; o transporte da textura, e os olhos fechados; os lábios, e o beijo, e outro, e mais um, e outro ainda; o tenso desfazer das roupas, enquanto se equilibram apenas pelo olhar, ele vagamente assombrado pelo medo do fracasso, ela tranquila, de olhos abertos, avançando incertos passo a passo, a corda esticada sobre o desconhecido; a penetração e o espírito do esquecimento; o descontrole medido, o fantasma da violência, a percepção da ansiedade, a repetição controlada; o egoísmo brutal, partilhado; a sombra da melancolia; o transe (…).”

Esse trecho de A tirania do amor representa de forma exemplar a atual fase de Tezza, definida pelo próprio autor em conferência na Academia Brasileira de Letras em 2014. “Quando a linguagem parece escrever sozinha, pelo faro, enquanto o mais importante é justamente o olhar adulto e agudo sobre o passado.” “História de escritor” é uma das sete conferências incluídas no livro de ensaios Literatura à margem. Proferidas entre 2008 e 2017, as conferências contêm reflexões de Tezza sobre o seu ofício e pistas sobre a formação do escritor, como as leituras de infância – Monteiro Lobato, Júlio Verne, Conan Doyle, unidos pelo autor na “pressuposição da razão iluminista como o mais alto valor humano de reconhecimento do mundo”.

Ao lado, Cristovão Tezza responde às perguntas elaboradas a partir de citações de A tirania do amor e de Literatura à margem. Também comenta o relançamento de Trapo, romance que completa 30 anos de publicação e “incorpora vozes alheias, diferentes olhares sobre o mundo”, assinala a crítica e ensaísta Beth Brait no prefácio da nova edição.

Como acontece com todos os meus romances, A tirania do amor também nasceu de uma ideia central avulsa, em torno da qual, por uma sucessão de acasos – ou pela intuição da escrita – vão se acrescentando e modificando detalhes até que o texto se transforme em outra coisa já muito distante do ponto de partida. A ideia central era escrever a história de um homem que, sob pseudônimo, escreve um livro de autoajuda, A matemática da vida abre um curso de orientação existencial e, como num filme B, apaixona-se por uma estudante. Bem, o livro tomou uma direção completamente diferente à medida que o texto avançou. A profissão do personagem, economista (eu queria algo longe do que tradicionalmente se entende por ciências humanas), foi crucial para os desdobramentos. Súbito, já na primeira página, tenho um analista econômico de uma grande financeira atravessando a Avenida Paulista em direção ao trabalho, em estado de crise profissional e pessoal. E ele decide “abdicar da vida sexual”, como resposta a uma traição conjugal. Tudo isso surgiu no momento em que comecei o livro. A narrativa “presentificou-se” de uma forma brutal: tudo se passa em um único dia, e isso também surgiu por acaso. Bem, como costuma acontecer, depois de 10 ou 20 páginas escritas, o autor já é escravo do que escreveu – o próprio texto passa a ser a gaiola em que nos metemos, e começa a nos dirigir. O romance inteiro se passa na cabeça de Otávio Espinhosa, o personagem. Eu tinha de dar uma ilusão de ordem ao caos que são nossos pensamentos diários. Em momentos me sentia um malabarista numa esquina, lidando com uma dezena de peças da memória ao mesmo tempo, na luta por não deixá-las cair.

“Estou imerso na vulgaridade”, constata o personagem Otávio Espinhosa. O Brasil também?
Para uma cabeça como a de Otávio Espinhosa, considerando sua formação cultural, sua profissão e as transformações rápidas e violentas por que passou sua geração, o mundo inteiro está imerso na “vulgaridade”. A cultura da exposição pessoal permanente, que marca o nosso tempo, leva à nostalgia de uma suposta elegância aristocrática, com fronteiras hierárquicas bem marcadas. Em outro plano, o ideal da democracia política passou ao culto da democracia cultural e a um anti-intelectualismo militante, ostensivo e agressivo. Meu personagem – que, de fato, não tem nada de aristocrático – reflete esta percepção.

“Sem inteligência emocional você não chega a lugar nenhum.” Essa máxima também se aplica aos escritores? Onde é possível chegar escrevendo?
É preciso não confundir o que pensa e diz Otávio Espinhosa, um personagem de ficção, com o que pensa o autor do livro. Pela minha experiência e meu contato com escritores ao longo da vida, eu diria que ninguém tem menos inteligência emocional do que um escritor. Na sua origem, escritores são em geral seres ressentidos, inseguros, vaidosos e emocionalmente fraturados. Aliás, é por isso que escrevem. Mas é bom lembrar que o ato de escrever, de alguma forma misteriosa, nos educa. Sentimos tantas limitações ao tentar passar a chamada “vida real” para o papel, que nosso nariz se desempina no processo. Escrever é, antes de tudo, um impulso ético, um processo de sair de si mesmo.

Em determinada passagem, há a referência à “primeira grande abdicação da vida”. Quais as abdicações necessárias para ser escritor no Brasil?
Não seria tão pessimista a ponto de ver as coisas deste ângulo, já começando pela abdicação. Penso que se trata do contrário: escrever é dar força ao desejo. Ao longo da vida, pela escrita, vamos testando os limites deste desejo. Estou falando dos impulsos primários da escrita. Na vida prática, o primeiro problema do escritor é achar um modo de sobrevivência que lhe permita escrever sem sugar sua alma. Não é fácil.

“Veja esse povo de colarinho branco na cadeia do Brasil de hoje. Todos assumidamente infelizes e miseráveis, varrendo a cela.” Como os fatos políticos e econômicos da atualidade influenciaram A tirania do amor?
No momento em que criei a hipótese de uma existência (que é o que a ficção faz), a vida de um importante economista de uma grande financeira em crise durante um dia qualquer de 2017, a política e a economia entraram brutalmente no livro, dando-lhe a consistência do mundo real. A crise do personagem é estritamente pessoal (a perspectiva de acabar o casamento e perder o emprego, tudo ao mesmo tempo), mas o pano de fundo é inescapável. Os diretores da financeira foram presos, e a mulher de quem ele vai se separar é advogada de delatores; além disso, o filho é um ativista da esquerda que considera o pai um desprezível homem do “sistema”. Tudo que Otávio Espinhosa tem para lidar com os fatos é a sua incrível inteligência matemática, mas talvez ela não seja suficiente.

“Aparentemente, uma comunhão tranquila com a natureza, integrar-se à suavidade do vento, mas, na verdade, seria uma vida puramente mental, sem a corrosão atravancada e espinhenta dos fatos e das pessoas reais.” Há nesse trecho a citação de um título de um romance anterior, A suavidade do vento. Como A tirania do amor se articula com seus outros romances?
Não sei dizer exatamente. Do ponto de vista temático, não há surpresa – desde Trapo, de 1988, a vida urbana, a cidade e seus habitantes, em particular a classe média brasileira mais ou menos letrada, vêm sendo o material do meu texto. A suavidade do vento é uma metáfora contrastiva, desde o livro que leva esse nome: a ideia de uma vida utópica, supostamente natural, que haveria de nos redimir a todos, e que de certa forma deu vida à geração dos anos 1960 e 1970, que me marcou. Quanto à linguagem, esta sim, foi avançando livro a livro quase que de uma forma autônoma, no sentido de que meu estilo não mudou a partir de um projeto. Simplesmente foi acontecendo. O momento de virada talvez tenha sido O fotógrafo (2004). Em seguida, O filho eterno. Dali em diante, comecei uma viagem estilística em direção ao tempo presente (Um erro emocional, O professor, A tradutora).

“Não quero ter uma missão racial na vida”, desabafa um dos personagens, depois de questionar: “A pele decide por mim? Que porra é um brasileiro? E o que ele tem de ser?”. Como uma questão tão atual foi parar em seu romance?
O tema racial é inescapável no Brasil, mesmo trabalhando-se ficcionalmente com a típica elite econômica, urbana, branca etc. Como pano de fundo, somos o país mais miscigenado do mundo. O espectro das cores está em toda parte, o tempo todo. Se isso não garantiu nenhuma democracia racial, muito longe disso, criou formas culturais de ver o outro e a si mesmo que são únicas e que penso que não foram ainda perfeitamente compreendidas. O tema do negro aparece em dois momentos, ao acaso, do dia de Otávio Espinhosa: o colega economista negro que se tornará professor universitário, para quem a negritude é uma referência fundamental na sua vida; e a jovem filha de pai negro e mãe branca que “não quer ter missão racial”. Não é o tema do livro, mas a questão está ali – como está para qualquer brasileiro, a todo momento.

O protagonista do livro se refere ao filho como “um chavão” e é atacado durante uma “enumeração de almanaque, uma besteirada sem fim”, na qual são incluídas críticas ao governo “golpista”, à imprensa “imperalista”, à Justiça “racista e seletiva de merda que só quer criminalizar a esquerda progressista”. Como você define politicamente Otávio? Acredita que existe a possibilidade de se tomar a ideologia e os posicionamentos políticos do personagem como pertencentes ao autor?
Bem, já disseram que a figura do filho é uma caricatura da esquerda ativista brasileira, o que o próprio pai não nega: é um instante de crise, o filho está saindo da adolescência (quem tem filho sabe o que é isso), e ele reage emocionalmente. Para a consistência narrativa, é preciso ver o mundo pelos olhos de Espinhosa; é claro que ele é um homem de princípios econômicos liberais, um economista de “direita”, se é que isso ainda faz sentido. Na visão dele, o Estado brasileiro é um dinossauro, e o país funciona como uma sociedade feroz de corporações. Sobre a posição do autor, ela não é relevante na avaliação literária. Autor e narrador não se confundem. Pouco importa o que pensa o autor; o que faz a literatura é a consistência narrativa.

Por que decidiu reunir sete conferências no livro Literatura à margem? O que há em comum entre elas?
Bem, este é exatamente o caso em que o autor importa: quando ele fala sobre literatura. Por acaso, sou da família dos escritores que também pensam a literatura academicamente, até pela minha formação. Afinal, fui professor na universidade por mais de 20 anos, e depois que me demiti, passei a participar mais de eventos literários e a dar palestras na área. Já publiquei uma autobiografia literária, O espírito da prosa, e a recepção me surpreendeu. Há alguns anos, publiquei digitalmente algumas conferências na plataforma Kindle, da Amazon, e percebi que havia uma boa procura. Daí, veio a ideia de publicá-las em papel, e nasceu a edição da Dublinense. A reflexão sobre os processos literários, e sua relação com a vida, é o ponto em comum das conferências. Gosto de falar sobre literatura, e esta é uma área que, por surpreendente que pareça, desperta grande interesse na nova geração de leitores.

Por que “problemas pessoais não fazem literatura”, como você defende em uma de suas conferências reproduzidas em Literatura à margem?
Escrever é um processo de sair de si mesmo, mesmo quando escrevemos sobre a própria vida. Se o problema permanece unicamente “pessoal”, não é literatura. É preciso encontrar a ponte que nos leva aos outros.

“A felicidade não produz literatura”, você também proclama. Escritores, então, são infelizes?
Bem, essa é daquelas brincadeiras que sempre têm um fundo de verdade. De fato, acredito que é a infelicidade que nos leva a escrever. Em várias conferências converso sobre esta ideia. Mas sempre há uma porta de saída: afinal, também creio firmemente que, no final do percurso, a literatura traz felicidade.

No Brasil do século 21, a literatura está à margem da vida cotidiana?
Sim, a literatura se transformou quase que num nicho de mercado. Se este não é um fenômeno unicamente brasileiro, aqui parece mais grave porque temos carências terríveis na educação do ensino médio, o período em que, de fato, os leitores se formam para a vida inteira. Nos anos 1990, eu tinha um olhar bastante otimista com o advento da internet e seu potencial. Afinal, ao contrário do que ocorre com a televisão, a internet nos obriga a ler e a escrever a todo instante. Mas não havia pensado na fragmentação e na desconcentração do texto digital. Literatura exige um tempo mínimo de concentração e de silêncio – o que anda em falta total no mundo contemporâneo.

Trapo ganha edição comemorativa de 30 anos de publicação. Em determinada passagem, há uma crítica ao personagem que nomeia o romance pela falta de “disciplina e objetivo literário”. Trinta anos depois, o autor conseguiu o que o personagem Trapo não teve: ter disciplina para escrever e um objetivo literário a ser alcançado? O que esse livro representa na sua obra?

Trapo foi o romance que me lançou nacionalmente, e também um momento de maturidade literária, que me deu um rumo. O personagem Trapo é um fruto tardio dos anos 1960 e 1970, o poeta suicida. A observação sobre sua “falta de disciplina” vem do personagem Manuel, o seu contraponto existencial, o velho conservador. Bem, escrevi este romance exatamente no momento em que, na vida real, deixava de ser um poeta alternativo e perdido e começava a pensar seriamente em terminar o curso de letras e me tornar professor. Uma leitura psicanalítica talvez dissesse que explicitei no romance a divisão que ocorria na minha própria cabeça. O lado conservador – ou, para ser mais piedoso comigo mesmo – a disciplina literária venceu a parada.

A TIRANIA DO AMOR
De Cristovão Tezza
Todavia Livros
173 páginas
R$ 30,90

 
 
TRAPO
De Cristovão Tezza
Record
304 páginas
R$ 54,90
 

 
 
LITERATURA À MARGEM
De Cristovão Tezza
Dublinense
160 páginas
R$ 39,90 
 
TRECHOS

  “Um volks cheio de pirados quase capota na esquina, e entre o canto dos pneus e o ronco do motor ouço risadas altas, a alegria de simulacro das noites muito tristes, a corrida sem chegada de todos os loucos do mundo – oh irmãos da burguesia, carinhosos filhos da droga e da burrice, herdeiros às avessas desta obra monumental! Fazei vosso trabalho, estou convosco! Desmontai a pirâmide com vossos cascos insconscientes, sede a contrapartida destes rumos programados, filhotes de papai, galinhas de mamãe, destroçai sem saber o Grande Oco e defrontai-vos, de cabeças, testas ensanguentadas, com a falta de saídas!”
Trapo (1988)


 “Para a literatura de ficção contemporânea, esse olhar do indivíduo passou a ser o centro absoluto do mundo. Parece que todos os fios que o ligam ao mundo exterior e que o deixam em pé estão mais ou menos rotos, com lacunas tremendas. Pior, parece que esse indivíduo solitário não dispõe mais de ninguém para recompor esses fios que se perderam, se é que existiram um dia. O olhar dele se dirige às outras pessoas, nas quais ele se espelha e se reconhece como alguém da tribo; nesse olhar alheio ele também acaba por reconhecer a si mesmo; o indivíduo vai assim compondo o quebra-cabeça de si mesmo com peças suas e peças alheias, 
mas, parece, é incapaz de encontrar alguém que de fato o defina. Ou, se isso for pretensão demais, alguém que recomponha esses fios faltantes que o relacionam com o mundo chamado real!.”
Literatura à margem (2018)


  “– E então? O homem cai ou não cai? – perguntou o menino assim que passaram pela catraca, olhos na capa da revista que ele trazia à mão. Era aquele tom curiosamente neutro dos operadores de mercado, apenas um jogo de probabilidades, o sonho do vazio ideológico, como uma vez lhe disse Josuel, o único negro com quem ele trabalhou no Brasil, tataraneto de africanos escravizados de Benin, dizia ele com um sorriso, um estudante brilhante que acabou por enveredar para as ciências humanas e dali para a atividade acadêmica, defensor das cotas raciais, Às quais, aliás, você não recorreu, o chefe lhe disse quase num tom de acusação, numa discussão bem-humorada, o humor inseguro funcionando como amortecimento do tema, sempre discretamente indócil na roda de brancos.”
A tirania do amor (2018)

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