Conheça 'Palavbras Andantes', revista de poesia ibero-americana que será lançada na Flip

Publicação reúne uma rede de poetas de 15 países e aposta em um intercâmbio permanente entre a produção em espanhol e português

por Pablo Pires Fernandes 20/07/2018 10:55
Walter Craveiro/Divulgação
Flip 2018 acontece entre 25 e 29 de julho. (foto: Walter Craveiro/Divulgação)
A poesia é uma arte potente de reflexão e produção metafísica e é também uma plataforma política”, “uma política cultural autônoma e descentralizada, voltada para o fortalecimento do diálogo entre os países latino-americanos”. As afirmações, complementares, são de Érica Casado e Sérgio Cohn, os dois principais editores da revista Palavbras Andantes. A publicação dedicada à poesia ibero-americana terá sua primeira edição lançada na Festa Literária de Paraty (Flip). A materialização física da revista, que vem a público na próxima segunda-feira (23), no entanto, esconde um projeto longa e cuidadosamente gestado, com amplitude e ambição bem mais complexas e amplas do que as 232 páginas impressas na edição bilíngue.

A ideia central é a criação de uma rede descentralizada de poetas, tradutores e editores, com foco em poesia contemporânea – o parâmetro é de autores que estrearam em livros nos últimos 25 anos. Com periodicidade quadrimestral, cada número vai apresentar uma antologia de cerca de 18 poetas, além de dois homenageados, de um dos 12 países que integram a rede até o momento. Sérgio Cohn explica que a iniciativa busca “estimular uma troca permanente” para fortalecer o diálogo entre os países latino-americanos. “Temos pensado há muito tempo em políticas culturais voltadas para o produto, mas cada vez fica mais claro que é mais importante incentivar os processos continuados e crescentes”, afirma Cohn, também poeta e editor da Azougue e da portuguesa Oca.
 
O primeiro número da Palavbras Andantes é dedicado ao Brasil e, para este ano, estão previstas antologias de Venezuela, Argentina e Colômbia, para 2019, de Portugal, Peru, Chile e México. Cada edição terá parte dos exemplares distribuída em cada país por meio da rede local de cada editor, reforçando a capilaridade e a possibilidade de alcançar um maior número de leitores. Jerónio Pizarro, professor da Universidad de los Andes, de Bogotá, integra o conselho da Palavbras Andantes na Colômbia e aponta a necessidade de pontes entre a escrita contemporânea de muitos países. Não só desconhecemos a tradição e autores importantes dos países em que a revista espera estar, mas desconhecemos ainda mais o que está sendo escrito neste momento”, afirma.

Para concretizar o intercâmbio entre produtores e consumidores de poesia e efetivar a proposta de uma rede, a tecnologia será fundamental. Palavbras Andantes terá também uma plataforma digital que servirá de referência permanente para a difusão e a reflexão sobre a produção de poesia em língua espanhola e portuguesa. Radicada em Bogotá, a brasileira Érica Casado é escritora e editora da Editacuja. Ela ressalta que “sempre foi difícil fazer circular e vender poesia” e, por isso, desde o início, o projeto foi concebido como uma plataforma composta pelas antologias impressas, mas “integradas a outros espaços de ampliação de conteúdo e formação de comunidade, em que a gente conta com tecnologias e ferramentas atuais para conhecer melhor os tradutores, os processos criativos e gerar novos conteúdos e formas de circulação entre editores”.

O poeta e editor chileno Héctor Hernandez Montecinos realizou, entre 2004 e 2014, o festival de poesia latino-americana Poquita Fé, em Santiago, e agora está entusiasmado com Palavbras Andantes. “Festivais, publicações, editoras autogeridas, sites na internet e o uso massivo das redes sociais são parte de uma extensão em que a poesia não é apenas literatura, mas também uma forma de habitar a linguagem, os corpos e os espaços”, defende, acrescentando que a poesia latino-americana é a tentativa de apresentar respostas, constituindo “um não lugar onde tudo tem seu lugar”. Érica aponta no mesmo sentido que diz que se trata de “um mapa contemporâneo, diverso e desprovido de censura, um mapa dos temas de las inquietudes ibero-americanas, do trato com a língua, as liberdades formais e conceituais que nos cercam”.

A poeta, tradutora e editora argentina Teresa Arijón acredita que o fato de todos os editores serem poetas acrescenta um caráter audaz e poderoso à proposta, “porque este projeto nômade, de textos que circulam e transbordam como rios, requer a paixão da poesia e também seu pragmatismo para se concretizar”. Teresa edita a coleção Nomadismos, que publica autores brasileiros e de outros países latino-americanos na Argentina, e esteve desde o início envolvida na proposta.

CONEXÕES Sérgio Cohn conta que o projeto de uma revista de poesia ibero-americana surgiu em 2008, em uma viagem ao México, quando conheceu outros projetos semelhantes. “Descobri a revista El Corno Emplumado, que era editada nos anos 1960-1970 pelo poeta Sérgio Mondragón e tinha uma rede de editores-distribuidores em vários países da América Latina e afins. A rede era impressionante: Haroldo de Campos era o editor no Brasil, Nicanor Parra no Chile, Lawrence Ferlinghetti nos EUA. Fiquei pensando como é possível que, naquela época, com todas as limitações de comunicação e alguns países em regimes totalitários, houvesse uma revista continental de poesia, e hoje não. Então comecei a trabalhar neste projeto.” Segundo Sérgio Cohn, a entrada de Érica Casado no projeto foi decisiva para que a publicação tomasse corpo a saísse do papel.

O diálogo e os primeiros esboços começaram com Teresa e o poeta Pedro Rocha, que conta que se entusiasmou com o convite para participar. “Estávamos ainda no início da elaboração, não tínhamos ainda um nome que representasse essa rede. Numa conversa com a poeta Amora Pêra, tivemos a ideia de pedir ao poeta uruguaio Eduardo Galeano que nos emprestasse o título de um de seus livros, Palavras andantes, adicionando ao V o B, tornando o temo ‘palavra’ ou ‘palabra’ em ‘palavbra’, amalgamando as quase diferenças idiomáticas e equivalências sonoras nesse neologismo que inaugurasse esse território de intercâmbio poético”, lembra Pedro, afirmando que Galeano lhe respondeu dizendo-se honrado com a homenagem. De lá pra cá, a rede de contatos e intercâmbio foi crescendo. Ao contatar o chileno Héctor Hernández Montecinos para ser coeditor da revista, foi convidado para participar do festival Poquita Fé, em Santiago. “Duas semanas depois, organizamos uma noite de leituras em Montevidéu, já com o nome Palavbras Andantes. Foi o primeiro gesto que nesse momento ganha corpo e caminho.”

Teresa aposta que Palavbras Andantes é um sonho que se torna realidade. É um caminho que nos levará a nos conhecer e nos reconhecer através da poesia que se escreve agora mesmo nos nossos países ibero-americanos”, diz a argentina, acrescentando que é uma “poesia riquíssima, caudalosa, vibrante e ainda secreta”. Luis Delgado Arria, poeta e coeditor para a Venezuela, também destaca o momento atual da produção da região, que traz uma imensa diversidade. “Tenho a impressão de que a América Latina tem a vanguarda mundial na literatura e, particularmente, na poesia.” No Peru, os poetas Andrea Cabel e Bruno Polack Cavassa são os coeditores e fazem eco à possibilidade de “potencializar e dar visibilidade” aos autores dos países envolvidos. “São muitas as novas vozes que esperam um espaço com ressonâncias latino-americanas como este”, defendem.

 
POESIAS: 

 
DAIANA HENDERSON (ARGENTINA)

Bicicleta

Cada um dos caminhos é um túnel
cercado de árvores de distintas espécies.
Vai saber onde eles nos levam?
Cravo o calcanhar no cascalho e pergunto
“onde fica a entardecer?”
Precisamos virar à direita,
ir até onde tudo termina,
com esforço.
Precisamos pegar o sol,
precisamos alcançá-lo.
Está nublado mas podemos
ainda vê-lo triturar os últimos
papéis de alumínio da estrada
paralela ao horizonte,
atrás da plantação que agora é verde-louro,
mas que em certa época do ano, dizem,
chegam adolescentes de 15 para tirar fotografias
em meio ao campo dourado de trigos.
Que não entre a realidade pelos meus olhos,
queria que o mundo fosse apenas isto.
Bastaria.
Não haveria maior necessidade, exceto
de abrigar-se quando escurece,
e compartilhar.
De volta, vou esquivando com a bicicleta
poços de água sedimentada.
Creio que estou distante das obrigações, por aqui.
Mas retorno carregando a maior das responsabilidades: escrever
o mais belo poema.


Bicicleta

Cada uno de los caminos es un túnel
vallado por árboles de distinta especie.
Andá a saber dónde nos llevan.
Clava el talón en el ripio y dice
“¿a dónde queda el atardecer?”.
Hay que agarrar por la derecha.
Llegamos a donde se termina todo,
con esfuerzo.
Debemos atrapar el sol,
hay que alcanzarlo.
Está nublado pero podemos
percibirlo triturar los últimos
papeles aluminio de la ruta
paralela al horizonte,
atrás de la plantación que ahora es verde loro,
pero en una época del año, me dicen,
vienen las niñas de 15 a fotografiarse
al campo dorado de trigos.
No me entra la realidad en los ojos
y quisiera que el mundo sea sólo esto.
Bastaría.
No habría mayor necesidad, excepto
abrigarse cuando oscurece,
compartirlo.
De vuelta, voy esquivando con la bicicleta
pozos de agua sedimentada.
Me creo lejos de las obligaciones, acá.
Pero vuelvo cargando la mayor
de las responsabilidades: escribir
el poema más hermoso

TILSA OTTA (PERU)

a maioria dos loucos dança como idiotas
não sei por que a maioria dos loucos não têm ritmo
nós somos loucos com ritmo
é por isso que ninguém vai nos prender
os loucos do ritmo...
... isso me soa como:
é possível que já tenha existido alguém como nós?
sim, a mim também me soa:
quem teriam sido?
certeza que nós
soamos como nós mesmos
porque somos os loucos
os loucos do ritmo.

la mayoría de locos baila como idiotas
no sé porqué la mayoría de locos no tiene ritmo
nosotros somos locos con ritmo
por eso nadie nos encerrará
los locos del ritmo…
… eso me suena
¿es posible que haya habido gente como nosotros?
sí, a mí también me suena
¿quiénes habrán sido?
seguro nosotros
nos sonamos nosotros mismos
porque somos los locos
los locos del ritmo

O amor é um cego que guio
Fala comigo todo o tempo
Mas não entendo
Eu sou só um cão
Mas ele só está perdido.

El amor es un ciego que guío
Me habla todo el tiempo
Pero no lo entiendo
Yo sólo soy un perro
Pero el sólo está perdido

ANDREA CABEL (PERU)

[currahee]

éramos uma guerra de espelhos,
doze milhas de largura por doze de comprimento.
a simetria dos mortos de repente despertos
acendendo as luzes no abandono da noite
buscando os poços dos avós,
a boneca que era filha.
os olhos vendo desde a cama
as rachaduras nas paredes.
o paraíso.
uma ilha de terra roxa aberta ao meio que vê a água salgada
um conjunto de esqueletos em frente à paisagem da praça,
um centro forte de luz
de animais verdes e amarelos embebendo as meia-luas.
a navegação dos peixes,
o suspiro das aranhas junto à flor que olha o teto
ninguém sente falta do meio dia, a altura dos rostos.
não há distância dos ossos,
ninguém suspende a queda,
e o mundo é esta tarde em luta,
que apenas se mede do coração,
o cansaço que traz a sede,
a implosão de colheres que veem tudo desde aqui de cima.


[currahee]

éramos una guerra de espejos,
doce millas de ancho por doce de largo.
la simetría de dos muertos encendidos de golpe
prendiendo las luces en el abandono de la noche,
buscando los pozos de los abuelos,
la muñeca que era la hija.
los ojos que siguen mirando desde la cama,
las grietas de todas las paredes.
el paraíso,
una isla de tierra roja abierta en dos que mira al agua salada.
un conjunto de esqueletos frente al paisaje de la plaza,
un centro duro de luz
de animales verdes y amarillos empozando las medias lunas,
la navegación de los peces,
el soplo de las arañas junto a la flor que mira al techo.
nadie extraña el mediodía, la altura de los rostros.
no hay distancia desde los huesos,
nadie suspende la caída
y el mundo es esta tarde que combate,
que solo mide desde este corazón,
el cansancio que trae la sed,
la implosión de las cucharas que lo ven todo desde aquí arriba.

STEFHANY R. WAGNER (COLÔMBIA)

Teu corpo sabe a pólvora e manicômio
eu mergulhei minha boca nele
medi polegada a polegada teu rosto
cotidiano (deixado de molho para o desjejum)
Bebi dos teus dentes amarelados
e agora que tua pele é um carro que segue para todo lado
Te perguntas se o mundo ainda é redondo.
És belo porque permanece imóvel na beira da chuva
com um olhar de animal sem atributos;
teus ossos são uma fita magnética
e teu umbigo é tão lindo que dá vontade de chorar
ou de apagar um cigarro nele.

Tu cuerpo sabe a pólvora y a manicomio
He metido mi boca en tu cuerpo,
He medido pulgada por pulgada tu rostro
Cotidiano (dejado en remojo para el desayuno)
he bebido de tus dientes amarillos
y ahora que tu piel es un vagón que va a todas partes
te preguntas si el mundo sigue siendo redondo.
Eres bello porque te quedas inmóvil al borde de la lluvia
con una mirada de animal sin atributos;
tus huesos son una cinta magnética,
y tu ombligo es tan hermoso que dan ganas de llorar
o de apagar un cigarrillo en él.
 
Plataforma remodela cadeia editorial
 
Cruzar fronteiras e promover trocas poéticas, aproximar afinidades e possibilitar se reconhecer nas diferenças é a alma da revista Palavbras Andantes. Diante da facilidade de comunicação oferecida pelas novas tecnologias, os editores conceberam uma proposta ousada, incorporando os recursos disponíveis na rede, e adotaram uma plataforma de trabalho inovadora.

A publicação regular de uma revista, seja em papel ou digital, é apenas uma pequena parte da proposta da Palavbras Andantes. Para os idealizadores, trata-se de constituir uma rede de intercâmbio para fortalecer a literatura e a poesia ibero-americana, a partir da criação de uma plataforma capaz de mapear, viabilizar e oferecer obras e, portanto, ideias e formas de saber e se poetar.

“Buscamos uma solução que nos ajudasse a revolucionar este processo de produção cultural que hoje é centralizado e cheio de fricções. E chegamos, primeiro, à ideia de ‘comunidade’ literária no seu mais amplo sentido e a materializamos usando uma tecnologia já existente no mercado”, afirma a coeditora da Palavbras Andantes Érica Casado.

Brasileira que vive em Bogotá (Colômbia), Érica explica que esse novo espaço virtual chamado Nação Digital Palavbras Andantes é como “uma nação sem fronteiras, descentralizada e autônoma, que usa a tecnologia blockchain”, a mesma usada pelas moedas virtuais bitcoin ou etherium. O recurso implica processo criptografado que registra todo tipo de transação realizada na plataforma Bitnation.

A Bitnation é um aplicativo que pode ser usado em computadores, smartphones e tablets, e permite a criação de comunidades por temas-interesses. Mais do que isso, tais redes possibilitam que seus próprios integrantes criem suas próprias regras de funcionamento, com autonomia e jurisdição específicas para determinadas finalidades.

No caso da literatura – mais especificamente, a poesia –, os idealizadores pretendem usar esse recurso para formar uma rede de intercâmbio entre poetas, tradutores, editores e outros profissionais do livro autogerida. Para Érica, a plataforma permite construir uma alternativa horizontal “para a gestão de direitos autorais, financiamento de projetos e distribuição direta entre pares, empoderando artistas e criadores com ferramentas potentes, desde a gestão cultural até a distribuição e o desenvolvimento do mercado”.

A proposta da Palavbras Andantes não implica a abolição do sistema de mercado, mas, sim, constituição de uma nova forma de relação comercial, mais horizontalizada e sem as amarras impostas por editoras e distribuidores. E, claro, toca profundamente na questão dos direitos autorais, que, para os editores da publicação, são instituídos de maneira verticalizada e sob a influência de grandes editoras, muitas vezes multinacionais. “Embora o processo gráfico tenha se modernizado com as novas tecnologias e hoje seja possível fazer ‘baixas tiragens’, as formas de distribuir ainda evoluíram pouco e as grandes editoras e livrarias ficam com as grandes fatias do preço do livro”, aponta Érica, destacando o pequeno espaço (e volume) dedicado à publicação de poesia no Brasil e em outros países.

A plataforma Bitnation foi escolhida por ser aberta, segura e, exatamente, operar de maneira descentralizada. Formada por escritores, tradutores e editores, essa comunidade estabelece as próprias regras – uma jurisdição própria, firmada coletivamente, que opera além de quaisquer fronteiras. E essa comunidade é capaz de reger e administrar, autonomamente, as relações “comerciais” e constituir um tipo de mercado mais colaborativo. Érica afirma que a constituição dessa comunidade descentralizada vai “estimular novas trocas, novas parcerias, desde a leitura a partir do engajamento até o intercâmbio de serviços e obras”.

Como um sistema de pontuação de milhas das companhias aéreas, ou de Mellius em determinadas empresas do comércio, cada integrante constitui “pontos virtuais” denominados “tokens”. A partir do acúmulo de “tokens”, um editor no Uruguai, por exemplo, pode realizar uma transação e comprar direitos de publicação de um poeta no México, contratar um tradutor argentino e obter direitos de publicar um livro físico em Belo Horizonte. A ideia é romper as fronteiras geográficas, culturais e econômicas, fortalecendo uma rede de criadores ao redor da poesia ibero-americana.

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