Estreia nos cinemas, 'Mudbound' traça um desenho vigoroso do conflito racial nos EUA

Filme de Dee Rees tem quatro indicações ao Oscar e a ausência sentida da disputa de melhor filme

por Silvana Arantes 15/02/2018 09:02

Diamond Films/Divulgação
Jamie (Garrett Hedlund) e Ronsel (Jason Mitchell) se conhecem no Mississippi depois de lutar na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, e tornam-se amigos. (foto: Diamond Films/Divulgação)

Ronsel (Jason Mitchell) é o filho mais velho dos Jackson, uma família de lavradores que tenta conquistar seu próprio pedaço de terra em Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi, longa de Dee Rees que estreia nesta quinta (15) no Brasil. No início da Segunda Guerra Mundial, Ronsel troca a labuta na lavoura na região do delta do Mississippi pelo campo de batalha europeu. Ele se torna combatente da divisão de tanques blindados sob o comando do general George Patton, que os EUA enviaram ao conflito no Velho Continente.

Com a rendição de Hitler, Ronsel volta para casa e encontra o mesmo ambiente segregacionista que havia deixado para trás. Embora circule pelas ruas com o uniforme que o identifica como um militar que foi à guerra em nome de seu país, ele deve ocupar os assentos reservados às pessoas “de cor” nos ônibus e usar a porta dos fundos dos estabelecimentos comerciais – a da frente é exclusividade dos brancos.

Ocorre que a experiência da guerra promoveu uma mudança em Ronsel. “Eu me acostumei a não fugir da luta”, ele diz, ao explicar ao seu pai, Hap Jackson (Rob Morgan), por que confrontou o racismo de homens brancos que o destrataram numa loja, enquanto fazia compras. “Mas eles ganham sempre” é uma verdade com a qual o patriarca convive desde cedo. Como arrendatário de terras, Hap vê o patrão mudar as regras do contrato aleatoriamente. Exemplo: para dar mais agilidade ao trabalho na terra, o empregado é obrigado a “alugar” uma mula do patrão e pagar o “aluguel” com metade de sua produção.

Os atuais patrões dos Jackson são recém-chegados à fazenda. A compra das terras foi a grande aposta feita por Henry McAllan (Jason Clarke) para garantir a prosperidade da família – mulher, duas filhas pequenas e o pai viúvo, um protointegrante da Ku Klux Klan.

O inconformismo de Ronsel encontra um paralelo na transformação que Jamie McAllan (Garrett Hedlund), o irmão de Henry, também experimentou durante a guerra, como piloto de caças. Numa situação extrema em meio a um combate, Jamie prometeu que “faria o bem, se vivesse”. E fazer o bem não inclui a prática do racismo e da violência. Ronsel e Jamie tornam-se amigos, e aqui começa a verdadeira guerra descrita em Mudbound.

Reflexão sobre as raízes do conflito racial nos Estados Unidos, o filme concentra nessas duas famílias (os Jackson e os McAllan) e especialmente na amizade de Ronsel e Jamie toda a carga de drama que o tema principal envolve e acrescenta elementos como  religiosidade, desejo sexual reprimido, machismo e opressão. Com tais ingredientes, não chega a ser surpresa que o longa inclua cenas de tortura e mutilação e assassinato – inclusive entre membros de uma mesma família.

No entanto, a diretora Dee Rees, que assina também a adaptação do roteiro – indicado ao Oscar –, dosa a carga de drama de tal forma que ele esteja sempre presente, mas sem se tornar excessivo. O principal recurso que ela adota para suavizar a dramaticidade é a narração em off, em tom recordatório, alternando-se entre diversos personagens. Há um certo alívio para o espectador em ouvir uma história contada no passado; já que ele tem a sensação de que os personagens não estão mais na dolorosa situação presente na tela.
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Carey Mulligan é Laura McAllan, que narra parte da história das famílias Jackson e McAllan em 'Mudbound'. (foto: Diamond Films/Divulgação)

Esse alívio proporcionado pela ilusão temporal não é uma escolha dramatúrgica aleatória quando o tema em questão é o racismo e suas consequências. O fato de o presente ser distinto do passado não anula a experiência acumulada, nem varre do panorama as marcas que ela deixou, seja na forma de avanços ou de retrocessos.

Michelle Obama, a primeira negra a ocupar a Casa Branca na condição de primeira-dama, produziu uma imagem para essa ideia em seu discurso na convenção democrata que oficializou a candidatura de Hillary Clinton à sucessão do presidente Barack Obama.

“Essa é a história deste país, a história que me trouxe a este palco nesta noite, a história de gerações de pessoas que sentiram o açoite da escravidão, a vergonha da servidão, a ferroada da segregação, mas que continuaram lutando, tendo esperança e fazendo o que precisava ser feito. Assim, hoje eu acordo todas as manhãs numa casa que foi construída por escravos. E vejo minhas filhas, duas jovens, bonitas e inteligentes mulheres negras, brincando com seus cachorros no gramado da Casa Branca”.

Dee Rees faz menção semelhante nos agradecimentos incluídos nos créditos finais de Mudbound. Além de colaboradores e familiares diretos, a cineasta agradece “a todos os antepassados além da memória”.

Ao alternar os pontos de vista na narração em off, o longa abre espaço para que a história seja contada também sob a perspectiva das mulheres das famílias McAllan e Jackson. Culta, Laura McAllan (Carey Mulligan) tem 31 anos e o piano como sua melhor companhia. Mas vive com o receio de ser a eterna “solteirona” naqueles conservadores anos 1940.

Henry não era o marido ideal – a vivacidade de Jamie lhe parecia muito mais atraente –, mas o irmão mais velho era a opção disponível ao casamento, que ela não desperdiçou.

Quando Henry decide (unilateralmente) se mudar para o campo, Laura passa a viver uma vida que considera “incivilizada”. A casa desconfortável, o contato com bichos mortos, a ganância do marido, a falta de meios para acudir as filhas quando adoecem, uma terceira gravidez complicada, a convivência com um sogro abjeto, tudo isso transformará Laura não numa vítima das circunstâncias, mas numa mulher de enorme (e silenciosa) tenacidade.

Florence Jackson (Mary J. Blige, indicada ao Oscar como atriz coadjuvante e melhor canção original – ela é coautora de Mighty river) cresceu vendo a mãe cuidar dos filhos (brancos) dos outros e prometeu a si mesma cuidar dos próprios. É o que ela faz. E trabalha na lavoura. E cuida dos filhos (brancos) dos outros. E toma decisões por si mesma, passando por cima da oposição do marido, mas com suavidade suficiente para que ele não se sinta desrespeitado.
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Mary J. Blige, que interpreta Florence Jackson, tem duas indicações ao Oscar: atriz coadjuvante e canção original, da qual é autora. (foto: Diamond Films/Divulgação)

CONFIDENTES Mas é pelos olhos de Ronsel e Jamie que a história se desenrola. O primeiro deixa na Europa seu coração; o segundo volta de lá tão dilacerado que passa a viver sob o efeito do álcool. Alquebrados cada um à sua maneira, tornam-se amigos e confidentes. Jamie ignora o código segregacionista que obrigaria Ronsel a andar na boleia de sua caminhonete, e não no assento ao seu lado.

Essa subversão da ordem desencadeará uma espiral de violência na trama e devolverá Jamie para a posição (involuntária) de opressor. Mudbound nem sempre consegue evitar a falta de sutileza na demarcação das posições sociais ocupadas por seus personagens, mas consegue um conjunto de atuações equilibradas e convincentes.

As poucas fragilidades desse filme e a inegável força de sua história foram citadas por muitas vozes em Hollywood que julgaram insuficientes suas quatro indicações ao Oscar – além de atriz coadjuvante, canção original e roteiro adaptado, concorre a melhor fotografia (Rachel Morrison; primeira mulher indicada nessa categoria) – e injusta sua ausência na disputa pelo melhor filme.

Talvez o fato de Dee Rees não ser um nome de peso em Hollywood (esse é apenas seu terceiro filme) ou o de a produção ser assinada pela Netflix, uma empresa que Hollywood vê hoje mais como ameaça do que salvação do cinema, tenham influenciado na definição dos indicados. Mas essa é outra história.

 

Abaixo, confira o trailer de Mudbound - Lágrimas sobre o Mississipi

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