Carnaval de BH dispensa festas em clubes e abre passagem para os blocos e as novidades

Renovada, folia de rua em BH sepultou tradições de outros carnavais e afastou de vez a fama da cidade como túmulo do samba. Por outro lado, festa dos blocos não para de inventar moda

por Gustavo Werneck 04/02/2018 06:00
Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )

“Este ano não vai ser igual àquele que passou...” O verso da marchinha Até quarta-feira, sucesso de um velho carnaval, retrata bem as mudanças da folia em Belo Horizonte, que já entrou definitivamente na vibração frenética dos blocos de rua. O melhor seria até mudar a letra e cantar: “igual àqueles que passaram...”

Se o reino de Momo ressurgiu com força total na capital no início desta década, no vigor de uma ocupação dos espaços públicos, também apagou tradições como lotar os clubes em bailes monumentais, ver o desfile dos blocos caricatos na Avenida Afonso Pena ou simplesmente bater em retirada para o litoral, em busca de descanso, ou para o interior, atrás de batucada, de cachoeira ou de ambas.

Entre dois tempos, saíram de cena as batalhas de confete, voo de serpentinas, a farra de quatro dias – desta vez, só a programação oficial terá 23 – e desfile apenas das escolas de samba. E tem mais: beijo roubado também não dá, pois quando elas dizem não... é não mesmo, e pronto.

O clima de velório durante o carnaval de BH também foi sepultado de vez. A expectativa da Belotur/Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) de pôr para brincar cerca de 3,6 milhões de pessoas durante o longo reinado anima foliões e, claro, lojistas do comércio especializado.

Eles acreditam no aumento das vendas de fantasias, acessórios, tecidos e aviamentos movidas, nesta semana, com o pagamento do salário de janeiro e a virada no cartão de crédito. E se o blocos dos esquecidos cresceu e se multiplicou no renovado carnaval de Belo Horizonte, novidades também não faltam, basta usar a criatividade e entrar no clima.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )
Foi a turbinada no carnaval de BH que fez a arquiteta Maria Luíza Soares Moreira, de 30 anos, moradora do Bairro Serra, na Região Centro-Sul, trocar as badaladas Recife e Olinda (PE) pela terra natal. “Viajei para lá nos últimos quatro anos e gostei demais. É uma festa cultural, principalmente em Olinda”, conta.

Mas, de tanto ouvir falar da guinada belo-horizontina em conversas com amigos e familiares, a arquiteta decidiu ficar na cidade mesmo, e planeja sair com fantasias de palhaça, marinheira e pirata.

Quem mais a incentivou foi a mãe, Maria Cândida Soares Moreira, de 65, aposentada, que adora carnaval, sai em vários blocos e diz que tudo é uma questão de se adequar às transformações. Resumindo: toques de geração para geração.

Só no dedinho


Na tarde de quarta-feira, enquanto compravam adereços na Esquina das Festas, no Bairro Barro Preto, na Região Centro-Sul, Maria Cândida experimentou máscaras com paetês e boás coloridos, enquanto Maria Luíza testava o adereço de cabeça da hora: o arco de unicórnio.

“Amo carnaval desde a infância, não perco um bloco e estou sempre fantasiada. O carnaval de Belo Horizonte cresceu muito, e isso é muito bom. Antes eram os grandes bailes, mas o povo agora vai dançar na rua”, conta a aposentada.

Se as mudanças vieram, algo ficou para sempre na vida de Maria Cândida, casada com o médico Mario Afonso Moreira Filho: até hoje ela se diverte com os colegas do tempo de ginásio (o atual ensino fundamental), a chamada Turma do Escureggia. “Meu marido vai junto e tem que ter fantasia, claro.”

Sem nostalgia, ela levanta os dedos indicadores e mostra como se dançava nos bailes de salão. A trilha sonora não poderia ser melhor: “Alalaô ô ô ô ô ô/Ai que calor ô ô ô ô ô/Atravessando o deserto do Saara…”.

A prova de que tudo mudou está também nas mãos – e nos pés – da estagiária de direito Keila Cavanholi, de 25, moradora do Bairro Castelo, na Região da Pampulha. Em momento de folga, na hora do almoço, ela revelou estar a todo vapor.

“É a época do ano de que mais gosto; mais até do que o dia de meu aniversário. Sou louca pelo carnaval, acordo às 6h para sair nos blocos. Adoro ver todo mundo montado (fantasiado), sem precisar viajar e se divertindo na nossa cidade”, contou a foliã, que aposta no glitter para o corpo inteiro e nos arranjos de cabeça para brilhar. “Só a briga está fora de moda. Aí, não dá mesmo!”.

Pisca-pisca


E se tem muita moda que saiu de moda na nova folia de BH, é durante o carnaval que o povo mais inventa outras: um jeito diferente de brincar, aquela música para ficar na história pessoal e a fantasia criativa de encher os olhos.

As marchinhas que animaram grandes bailes em meados do século passado ainda ecoam, embora em tom mais baixo. Por outro lado, estão bombando neste verão pré-carnavalesco cantores do momento, como Anitta, Pablo Vittar e Ludmilla, todos nocauteando o baixo-astral com seu corpo sensual.

Proprietário da Casa das Fábricas, na Savassi, Antônio Patrus de Souza Filho tem vários carnavais no currículo e sabe bem que a moda muda. “Hoje temos o carnaval da customização, as pessoas montam sua fantasia.”

Para ver de perto que BH está fazendo escola, a carioca Natalie Gualberto, modelo e estudante de enfermagem, encontrou na loja uma novidade que fez sua cabeça: um arco de flores com luzes que piscam. Escolheu um, com a ajuda da mãe, Andréa Gualberto, e levou para sair, no Rio de Janeiro, no seu bloco de coração: Chora, me liga.

Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press
(foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press )


Também na Savassi, a loja Gujoreba tem um ar retrô na decoração de carnaval, com aquelas máscaras enormes de baiana, pirata e outros personagens típicos da folia. O gerente Gustavo Batista aposta no movimento a partir de agora, enquanto a encarregada geral, Jussara Kelly Martins, indica a saia de tule para combinar com o arco de unicórnio e as roupas dos super-heróis para fazer bonito.

E para mostrar que tudo é carnaval, uma vendedora segreda que vende véus de noivas, tiaras e outros adereços femininos para homens: “Eles adoram se vestir de mulher, isso não acabou”. E se esta reportagem começou com um verso dos tempos antigos, vai a ordem dos novos tempos: “Então, brilha!”.

Mudança de geração


Confira as modas que o novo carnaval de Belo Horizonte sepultou, o que resiste, mas já não faz tanto sucesso e o que promete bombar em 2018

Já passou
» Folia com apenas quatro dias. Neste ano, a festa em BH começou dia 27 e vai até 18 de fevereiro
» Sair de BH no período de folia. Quem se arrisca a perder a farra?
» Batalha de confete, que fazia a abertura oficial do carnaval. Agora é bloco toda hora
» Beijo sem permissão. “Não é não” é o enredo do momento
» Bisnaguinha para esguichar água. O spray de espuma veio
com tudo

Ladeira abaixo

» Confete e serpentina continuam firmes no mercado, mas com apelo incomparavelmente menor
» Máscaras emborrachadas de animais e monstros. Com o calor, não há folião que aguente cinco minutos
» Grandes bailes em clubes. Tem gente que gosta, mas as festas na rua têm mais apelo, são de graça e, não raro, melhores
» Blocos caricatos, que já tiveram seu auge, não conseguiram reeditar seu sucesso no carnaval dos bloquinhos – muitos dos quais já viraram blocões

Bombando
» Participar de bloco de rua. Quem não vai?
» Glitter no corpo inteiro, substituindo até a maquiagem
» Fantasia customizada, tipo faça você mesmo. Vale caprichar nas misturas, sem perder o charme
» Trajes de Mulher Maravilha e de outros heróis. É a Liga da Justiça dominando
» Saia de tule para usar com arco de unicórnio
» Chicote metalizado para usar como ombreira
» Festas particulares, com cantores do momento

Fontes: lojistas, foliões e vendedores do comércio especializado

MEMÓRIA


ÓPERA POPULAR

Quanto riso!/ Oh! quanta alegria!/mais de mil palhaços no salão…O verbo bombar estava a décadas de cair na boca do povo, mas, se voltasse no tempo, faria todo sentido. E seria perfeitamente entendido.

Os grandes bailes de carnaval dos clubes de Belo Horizonte, entre o início de 1940 e 1970, reuniam muita gente elegante, primavam pela decoração luxuosa, tinham orquestra no palco – isso mesmo, nada dessa história de DJ, banda e trio elétrico –, muito glamour, confete e serpentina.

Eram os anos dourados da folia de Momo, quando as marchinhas davam o tom, fantasias ou trajes de gala enchiam os olhos sob máscaras coloridas e o tubo de lança-perfume Rodouro, esguichado nas costas dos foliões – ou cheirado discretamente pelos moderninhos –, refrescava até a alma.

Para muita gente, “recordar é viver”, mas, para quem gosta da folia, o melhor é fazer como a aposentada Maria Cândida Soares Moreira, que faz o resumo desta ópera popular: “O melhor é brincar e se adequar aos novos tempos”. Evoé, Momo!

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