Exaustão, distanciamento e ineficácia: as três faces do burnout
A advogada Giovana Atarasi Jurca explica, em livro, o que é a síndrome e por que ela está ligada ao ambiente de trabalho
Exaustão, distanciamento do trabalho e das pessoas e sensação de ineficácia. São essas as três dimensões em que o burnout se manifesta, de acordo com a literatura da área da saúde. A segunda delas tem nome técnico, despersonalização, e descreve justamente esse afastamento em relação ao trabalho e a quem está em volta.
A explicação abre o livro “Burnout e o esgotamento humano no trabalho” (Editora Dialética, 2026), da advogada Giovana Atarasi Jurca, sócia-fundadora do escritório Atarasi Jurca Advocacia e especialista em carreira, patrimônio e reputação de executivos. Para definir a síndrome, a obra recorre a autores como Maslach e à classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS).
O que diz a OMS
Na CID-11, a OMS classifica o burnout como um fenômeno ligado ao contexto ocupacional, resultado de estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso. A diferença é grande: ao ligar a síndrome ao ambiente profissional, a classificação desloca o foco da pessoa que adoece para as condições em que o trabalho é feito.
“O burnout deixou de ser um termo distante. Hoje ele está nos corredores das empresas, nos consultórios, nos escritórios de advocacia e nas salas de audiência”, afirma Giovana.
Por que o trabalho está no centro
No livro, a autora parte da crítica à chamada sociedade do cansaço, marcada pela cobrança permanente por desempenho. Ela reúne pesquisas que associam o burnout a falhas estruturais nos ambientes corporativos, como sobrecarga, metas desproporcionais e falta de autonomia.
“Tratar o burnout como fraqueza individual é um erro. As pesquisas mostram que ele está ligado a falhas estruturais na forma como o trabalho é organizado”, explica a especialista.
Cada vez mais comum
O tema deixou de ser distante. Em 2025, o INSS concedeu 546 mil benefícios por transtornos mentais, um recorde, e os afastamentos por burnout foram de 1.760, em 2023, para quase 7 mil. O que antes era tratado como questão de saúde individual passou a envolver responsabilidade, gestão de riscos e conformidade com normas, e é esse caminho, do consultório ao escritório jurídico, que o livro percorre.
Quando vira caso de Justiça
A obra também mostra como o Judiciário tem tratado o adoecimento mental ligado ao trabalho, com indenização por danos morais e materiais. Outro ponto abordado é o dano existencial, conceito ainda em construção que trata do prejuízo ao projeto de vida e às relações pessoais de quem tem a rotina tomada pelo trabalho adoecedor.
“Quando a empresa ignora sinais de esgotamento, ela não assume só um problema de saúde da equipe. Assume também um risco jurídico. Além disso, quando precisamos cuidar do caso de um executivo com burnout, por exemplo, é porque toda a estrutura falhou”, afirma Giovana.
O que ajuda a prevenir
Aula de ioga e aplicativo de meditação ajudam pouco quando as metas continuam impossíveis e o chefe segue gritando. Para a autora, prevenir passa por rever a forma como o trabalho é organizado, prestar atenção aos primeiros sinais de esgotamento e cumprir as normas de saúde e segurança, que já incluem a prevenção entre as obrigações da empresa. O livro é voltado a advogados, gestores de recursos humanos, médicos do trabalho e líderes empresariais.
“Prevenir o burnout é, antes de tudo, uma forma de resgatar a dignidade no ambiente de trabalho, e isso é bom para as pessoas e para a empresa”, conclui.
Em resumo, o burnout é um quadro de esgotamento ligado ao trabalho, reconhecido pela OMS na CID-11, que aparece em três dimensões: exaustão, distanciamento e sensação de ineficácia. Identificar esses sinais cedo é o primeiro passo para agir antes do afastamento.