Novo medicamento promete barrar o avanço do câncer de próstata

Estudo comprova que droga apresentada durante congresso nos EUA diminui em 72% o risco de morte e proporciona ao paciente sobrevida livre de metástase por mais de dois anos

por Jociane Morais 04/03/2018 07:00
Jociane Morais/EM/D.A Press
O oncologista Eric Small, investigador líder do estudo clínico Spartan, apresentou novo medicamento durante o congresso da American Society of Clinical Oncology Genitourinary Cancers Symposium, em São Francisco, nos Estados Unidos (foto: Jociane Morais/EM/D.A Press )

O Brasil deve registrar este ano cerca de 600 mil novos casos de câncer, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e do Ministério da Saúde, divulgados este mês. E no ranking dos tipos da doença que mais acometerão os brasileiros, o câncer de próstata será o segundo mais comum entre os homens, atrás apenas do câncer de pele não melanoma. O Inca estima que o país registrará 68.220 casos novos de câncer de próstata no ano.

É diante desse cenário que um novo medicamento, a apalutamida, promete ser mais um aliado no combate à doença, garantindo aumento da expectativa e da qualidade de vida dos pacientes. A novidade, desenvolvida pela Janssen, empresa farmacêutica do grupo Johnson & Johnson, foi apresentada durante o American Society of Clinical Oncology Genitourinary Cancers Symposium, realizado no início de fevereiro, em São Francisco, nos Estados Unidos, e publicada no New England Journal of Medicine. A proposta da apalutamida é ser opção para aqueles pacientes que tiveram o câncer de próstata localizado, receberam o tratamento-padrão, que inclui cirurgia ou radioterapia, aliada a hormonioterapia, também conhecida como terapia de privação androgênica ou castração, e responsável por inibir a produção de testosterona, que é o alimento do câncer de próstata. Esses pacientes, depois de algum tempo, se tornam resistentes ao processo da castração e voltam a apresentar aumento dos níveis de antígeno prostático específico, o PSA. A alteração na dosagem do PSA no sangue é o que denuncia uma possível volta do câncer, já em um estado de metástase.

Arquivo Pessoal
Lucas Nogueira, coordenador de câncer de bexiga da Sociedade Brasileira de Urologia, destaca a melhoria da qualidade de vida (foto: Arquivo Pessoal)
“De todos os pacientes que têm câncer de próstata e são tratados com cirurgia ou radioterapia, 30% não são curados. Até o cenário atual, a gente só começava a fazer algum tipo de tratamento depois que aparecia a metástase. Essa nova droga, a apalutamida, permite que a gente comece a tratar um quadro que sugere o desenvolvimento da metástase mais cedo, antes mesmo de um novo tumor aparecer. Isso garante um ganho de sobrevida sem metástase e com qualidade de vida considerável, além de ir ao encontro do caminho que vejo ser a tendência atual, que é a prática de medicina personalizada. É uma droga que promete muito”, explica Lucas Nogueira, médico urologista especialista em oncologia, membro do grupo de urologia oncológica da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador de câncer de bexiga da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

Ganho de sobrevida e melhoria da qualidade de vida são as principais vantagens defendidas pelo grupo de estudo que apresentou o novo medicamento. Comparada ao placebo, a apalutamida comprovou diminuir em 72% o risco do surgimento da metástase ou de morte e proporcionou um ganho na mediana de sobrevida livre de metástase de mais de dois anos. Para o uro-oncologista e professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, em São Paulo, Rodolfo Borges dos Reis, a nova droga sinaliza nova forma de lidar com o câncer. “A tendência que acho do câncer é uma lição aprendida com a Aids. A Aids nos ensinou que você não precisa matar uma doença. Você pode conviver com essa doença. Os tratamentos que estão surgindo hoje estão nesta vertente”, opina.

Outro dado promissor do estudo foi que a apalutamida reduziu em 51% o risco da segunda progressão da doença (PFS2 - tempo de progressão da doença ou morte após o segundo tratamento), o que sinaliza que a droga também pode ter impacto em uma melhor resposta dos pacientes a tratamentos subsequentes. “Esses resultados são os primeiros a convencer que as metástases podem ser adiadas nesse estágio da doença e sugerem que a apalutamida pode se tornar o padrão de tratamento desses pacientes”, afirmou Eric Small, investigador-líder do estudo e chefe da divisão de Hematologia e Oncologia da Universidade da Califórnia. O estudo clínico, denominado Spartan, englobou 1.201 pacientes com câncer de próstata não metastático resistente à castração e foi conduzido em 332 centros, em 26 países, na América do Norte, Europa, Ásia e Austrália.

A pesquisa levantou também os efeitos colaterais do medicamento. Entre eles, foram listadas a possibilidade de lesão de pele e quedas e fratura óssea nos pacientes que fizeram o uso da nova droga. Para o oncologista do Centro Paulista de Oncologia e do Hospital Albert Einstein Andrey Soares, os benefícios do novo medicamento superam seus riscos. “Os dados apresentados de diminuição do risco de metástase e ganho na mediana de sobrevida livre de metástase de mais de dois anos são muito consideráveis. O que o estudo apresentou como risco, diante do benefício, acaba não interferindo porque, ao final, o que se percebe é que a droga não piora a qualidade de vida do paciente”, opina.

Os dados do estudo clínico Spartan foram aprovados pela agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), em 14 de fevereiro. No Brasil, ainda não há prazo para a aprovação da droga.

ENVELHECIMENTO

O crescimento do número de casos de câncer de próstata no Brasil está relacionado, sobretudo, ao envelhecimento da população masculina, aumentando significativamente depois dos 50 anos. Segundo dados do Inca, cerca de 75% dos casos ocorrem a partir dos 65 anos. Além da maior longevidade da população, outros fatores são apontados pelo uro-oncologista Rodolfo Borges dos Reis. “Além de as pessoas estarem vivendo mais, os métodos de diagnóstico de hoje são bem superiores aos de antigamente. Isso reflete nos números atuais da doença no Brasil.”

Diante dessa realidade, o Ministério da Saúde recomenda que todos os homens com mais de 50 anos realizem anualmente o exame de toque retal e a dosagem do antígeno prostático específico (conhecido como PSA) no sangue. Essa é uma forma de rastrear a doença no país. “O PSA começou a ser usado como forma de rastreamento no Brasil há cerca de 20 anos. A dosagem dele serve em três cenários: para fazer o diagnóstico, o estadiamento (se ele está muito elevado denuncia uma provável metástase) e acompanhar a evolução da doença”, explica Reis.

No entanto, segundo o urologista, cada vez mais essas recomendações para diagnóstico da doença serão menos gerais e mais personalizadas para grupo. Portanto, o histórico familiar é uma especificidade que deve ser levada em conta. Se houver outros casos da doença na família, toda essa rotina deve ser iniciada aos 45 anos. E para complementar o diagnóstico, o médico pode pedir exames complementares, como de imagem e biópsia.

A doença pode acometer o homem de forma localizada ou em estágio avançado e, segundo o oncologista do Instituto de Oncologia do Paraná Evanius Garcia Wierman, o rastreamento feito por meio da dosagem do PSA tem papel importante para isso. “O que a gente quer diagnosticar é um câncer de próstata localizado. E o papel do rastreamento é fazer esse diagnóstico precoce da doença”, explica.

EFEITOS

Quando a doença é diagnosticada precocemente e de forma localizada, o recomendado é a realização de cirurgia para retirada da próstata ou radioterapia, junto com a hormonioterapia, também conhecida como terapia de privação androgênica ou castração, e responsável por inibir a produção de testosterona. Ela pode ser feita por meio da retirada dos testículos ou inibindo a produção de testosterona por meio de medicamentos.

Como efeito colateral, a cirurgia pode causar incontinência urinária ou impotência sexual. Já a hormonioterapia, ao privar o organismo de testosterona, provoca andropausa no homem, que pode sofrer com perda de concentração e diminuição da libido, entre outros sintomas. “A próstata influencia muito para o homem, não só pelo tabu de mexer na sua masculinidade como também por impactar a qualidade de vida”, afirma Andrey Soares, oncologista do Centro Paulista de Oncologia e do Hospital Albert Einstein. Diante dessa realidade, Soares acredita que o ponto mais importante hoje é não ter o câncer. “Para mim, o mais importante que deve ser estudado atualmente são as ações de prevenção e promoção da saúde, mais do que rastreamento ou ações de cura”, finaliza.

Nesse contexto, o urologista Rodolfo Borges dos Reis deixa o seu recado: “Tudo o que você fizer de bem para o seu coração vale para a sua próstata. Então, ao comer bem, se exercitar e manter uma vida saudável, você ajuda seu coração e, consequentemente, a sua próstata”.

• Pacientes recorrentes também ganham novo tratamento

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, na primeira semana de fevereiro, nova indicação do medicamento acetato de abiraterona. A partir de então, a droga, associada a outro medicamento, a prednisona, pode ser usada para o tratamento de pacientes recém-diagnosticados com câncer de próstata que se espalhou para outras partes do corpo, sem tratamento hormonal prévio e com fatores de prognóstico de alto risco, avaliado pela classificação patológica do tumor, número e localização das metástases.

A decisão da Anvisa foi baseada nos resultados do estudo Latitude, que comprovou redução significativa no risco de morte (38%), diminuição no risco de progressão da doença ou morte (53%) e prolongou o tempo até o início da terapia subsequente com quimioterapia (56%). Além de melhora de aspectos relacionados à qualidade de vida do paciente, como redução de 30% no risco de piora da dor, do surgimento de fraturas ou de outras comorbidades relacionadas ao esqueleto.

O acetato de abiraterona está disponível no Brasil desde 2012 e, em 2015, foi incluído na lista de cobertura obrigatória pelos planos de saúde para pacientes com câncer de próstata metastático que já realizaram tratamento anterior. Com a nova aprovação, o medicamento já pode ser utilizado como primeira opção de tratamento para pacientes com câncer de próstata metastático, em diferentes fases da doença.

*A jornalista viajou a convite da Janssen, empresa farmacêutica do grupo Johnson & Johnson

Atente-se aos sinais

A PRÓSTATA E O CÂNCER

A próstata é uma glândula do sistema reprodutor masculino que fica abaixo da bexiga e na frente do reto, e tem como principal função produzir um fluido que faz parte do sêmen. O câncer de próstata ocorre quando células dessa glândula começam a crescer incontrolavelmente.

SINTOMAS

Na fase inicial, o câncer de próstata não apresenta sintomas. Com o avanço, pode causar sintomas como a diminuição do jato de urina e incontinência urinária. Quando há metástase a distância, pode haver sintomas ósseos, como dor e fratura.

DIAGNÓSTICO

Todos os homens com mais de 50 anos precisam realizar anualmente o exame de toque retal e a dosagem do antígeno prostático específico (conhecido como PSA) no sangue. Se houver histórico na família, a rotina deve ser iniciada aos 45 anos. O médico pode pedir exames complementares, como de imagem e biópsia.

Tratamento apresentado

O QUE É A APALUTAMIDA?

A apalutamida é um inibidor oral de receptor de androgênio (hormônio sexual masculino) que bloqueia a via de sinalização de andrógenos em células de câncer de próstata.

QUAL A INDICAÇÃO?

A apalutamida é indicada para o tratamento do câncer de próstata para pacientes que não respondem mais à terapia hormonal de privação androgênica e que têm alto risco de metástase.

COMO A DROGA AGE?

A apalutamida inibe o crescimento de células cancerosas de três formas: prevenindo a ligação de andrógenos ao receptor de androgênio; bloqueando a entrada dos receptores de androgênios nas células cancerígenas; e impedindo os receptores androgênicos de se ligar ao DNA da célula maligna.