Uso de formol em fórmulas de alisamento de cabelo conquistou as mulheres brasileiras, mas pode ser arriscado

O componente pode provocar desde alergia, enjoo, calvície e até leucemia

por Augusto Pio 03/04/2017 15:29
Cristina Horta/EM/D.A Press
Escova progressiva é uma das práticas mais comuns em salões de beleza, mas o formol é responsável por várias doenças (foto: Cristina Horta/EM/D.A Press)

Criada há cerca de 10 anos, a escova progressiva tornou-se febre entre milhares de mulheres. Trata-se de um método de alisamento, redução de volume dos cabelos e diminuição do frizz que, literalmente, fez e continua fazendo a cabeça das brasileiras. Mas a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu desde 2009 o uso excessivo do formol, substância utilizada no procedimento para alisar os cabelos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a recomendação é de que a concentração de formol não ultrapasse 0,2%. Mas o problema é que muitos salões de beleza ainda insistem em usar o componente em suas fórmulas de alisamento. Isso porque é o formol o responsável pela impermeabilização dos fios, que resulta no alisamento mais duradouro – é possível ficar quatro meses com o cabelo liso, sem preocupação.

Cristiane Câmara Alves, médica tricologista, especialista em cabelos, explica que o produto pode causar irritação, coceira, queimadura, inchaço, descamação e vermelhidão do couro cabeludo; queda de cabelo; ardência e lacrimejamento dos olhos; alergias; dores de barriga, enjoos e, em casos mais graves, pode provocar até a morte. “O formol não deixa a oleosidade natural da raiz chegar às pontas e nem que os nutrientes necessários para a saúde capilar e a água penetrem os fios, fazendo com que o couro cabeludo sofra irritações. Além disso, ele retira toda a queratina e proteção dos fios, resultando na queda capilar.’’

Segundo Cristiane, o uso do formol está entre as principais causas de queda capilar. A calvície, segundo a Sociedade Brasileira para Estudo do Cabelo (SBEC), já atinge 42 milhões de brasileiros entre homens e mulheres. O estresse, a hereditariedade, a genética e a testosterona – hormônio sexual masculino – são algumas das causas. O ideal para quem quer ter os cabelos lisos, de acordo com a Cristiane Alves, é optar somente por procedimentos seguros, que usem produtos registrados na Anvisa. “Fuja de fórmulas mágicas pois elas não existem. Entre os efeitos pós-alisamento se encontram: fratura da haste capilar, alopecia cicatricial, síndrome da degeneração folicular, indução de eflúvio de telógeno, queimadura do couro cabeludo e eczema do couro cabeludo.”

GÁS INCOLOR

A médica explica que o formaldeído ou formol é o mais abundante e importante aldeído no ambiente, caracterizando-se por ser um gás incolor com um forte odor irritante, muito solúvel em água, produzindo um hidrato e tendo alta reatividade química. Ele pode ser utilizado para embalsamar cadáveres, na produção de tinta, cosméticos, desinfetantes, corantes, vidros e espelhos, germicidas, fungicidas, explosivos, celulose, corante, borracha artificial e no tratamento de borrachas naturais, entre outras utilidades.

Arquivo Pessoal
"O formol não deixa a oleosidade natural da raiz chegar às pontas e nem que os nutrientes necessários para a saúde capilar e a água penetrem os fios, fazendo com que o couro cabeludo sofra irritações. Além disso, ele retira toda a queratina e proteção dos fios, resultando na queda capilar" - Cristiane Câmara Alves, médica tricologista (foto: Arquivo Pessoal)
“O formol é prejudicial à saúde porque pode causar desde uma irritação no olho até uma leucemia. Os sintomas e sinais causados pela toxicidade do formaldeído são: irritação dos olhos, nariz e garganta, lacrimejamento, dermatite, tosse, espasmos bronquiais, queimadura no nariz, câncer de laringe, aborto espontâneo, leucemia e aumento de até 34% de chance de adquirir esclerose múltipla. Os derivados de formaldeído e o próprio formaldeído são usados em shampoos, condicionadores e outros cosméticos como conservantes em uma baixa concentração. Podem causar dermatite de contato com coceira e vermelhidão”, alerta a médica.

“O formol é indicado para fortalecer as unhas, sendo utilizado a 5% na base e contraindicado quando utilizado em alisamentos, escova progressiva, botox capilar e diversos nomes que são criados para driblar a lei e dizer que não existe formol e seus derivados. No cosmético, o formol e seus derivados podem ser substituídos por outros conservantes, como os parabenos, mas poderíamos ter como efeito adverso distúrbios endócrinos. No momento, está se explorando os efeitos bacteriostáticos e fungiostáticos dos antioxidantes, óleos essenciais e manteigas, a fim de encontrar um conservante de boa eficácia com menor risco de efeitos adversos”, ressalta Cristiane.

“A irritação do formaldeído sobre as vias aéreas superiores está relacionada com a alta solubilidade deste gás na água. Durante a respiração pelo nariz, boa parte do formol inspirado é absorvido pela mucosa nasal, causando irritação nas membranas mucosas do nariz, faringe e laringe, chegando apenas uma pequena quantidade às vias aéreas inferiores. No entanto, o efeito do formaldeído nas vias inferiores pode ser intensificado quando há aumento da quantidade do produto inalado no ar e quando ocorre respiração bucal”, alerta a médica.

Ela ressalta que as pessoas com cabelos cacheados devem usar máscaras, fazer hidratação profunda, usar leave-in, óleo de coco, e nunca usar escova, pentear os cabelos com as mãos ou com pente de baixo para cima, usar sempre toalha de algodão ou uma blusa para secar o cabelo e, antes de dormir, separe o cabelo em mechas, torça e prenda.

“O fato de ser certificado pela Anvisa não garante nada. Infelizmente, todos esses produtos estão registrados naquele órgão como grau 1, ou seja, o mesmo grau do condicionador, shampoo e máscaras que a pessoa usa. Esse processo de liberação do registro é feito pela internet, por meio de um formulário eletrônico. Ou seja, basta que a marca informe qual é a composição, solicite o registro como tratamento para os cabelos, pague as taxas e assine um termo dizendo que se trata apenas de um tratamento. Assim, não podemos garantir segurança para o consumidor ou profissional”, alerta a especialista,

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