Livro percorre lugares cariocas que Clarice Lispector frequentou

'O Rio de Clarice, Passeio afetivo pela cidade', de Teresa Montero, é um bem-acurado guia turístico que leva leitores aos lugares que a escritora percorreu desde o período da juventude

por Márwio Câmara* 14/12/2018 10:23
Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa
A escritora Clarice Lispector e seu filho Paulo na Rua Gustavo Sampaio, no Leme, em foto da década de 1960 (foto: Arquivo Clarice Lispector da Fundação Casa de Rui Barbosa)


Desde que Clarice Lispector (1920-1977) apareceu no mundo das letras, com o romance Perto do coração selvagem, em 1943, a literatura brasileira nunca mais foi a mesma. Autora profícua de romances, contos, crônicas e cartas, ao longo de décadas, jornalistas, críticos literários, pesquisadores e profissionais da psicanálise têm se debruçado na obra singular e inesgotável da ucraniana naturalizada brasileira.

Nos últimos anos, Clarice se tornou um fenômeno das redes e do mercado editorial brasileiro e internacional, com o aparecimento de novas biografias, antologias e traduções feitas no exterior, a exemplo do The complete stories (2015), que foi best-seller nos Estados Unidos. O mesmo volume, publicado posteriormente no Brasil, com o nome de Todos os contos (2016), seguiu o mesmo sucesso.

Para a alegria dos leitores, a pesquisadora Teresa Montero, autora de Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector (1999), publicou recentemente o livro O Rio de Clarice – Passeio afetivo pela cidade, um bem-acurado guia turístico, no qual percorre lugares cariocas que a escritora frequentou, desde o período da juventude, ao se instalar no Bairro da Tijuca, na Zona Norte, ainda como estudante de direito e após a ruptura matrimonial com o marido diplomata. Neste período, acompanhada dos dois filhos, Clarice se fixa em um apartamento no Bairro do Leme, na Zona Sul, onde viveu até sua morte, em 1977.

As andanças pelo Rio, sem dúvida, influenciaram os trajetos de suas personagens, a exemplo do conto Amor, da seleta Laços de família (1960), em que a dona de casa Ana tem uma desconcertante experiência epifânica – e próxima à do personagem do livro A náusea (1938), de Jean-Paul Sartre – no Jardim Botânico, um dos locais preferidos da autora. Montero não apenas discorre sobre determinados fatos ocorridos na vida de Clarice no Rio, mas traz um levante de envergadura histórica sobre os locais citados no livro.

O itinerário foi dividido em Tijuca, Centro, Catete, Botafogo, Cosme Velho, Jardim Botânico e Leme e incluem mapas e fotografias de época – do arquivo pessoal da autora e registros históricos dos locais frequentados por ela. É um trabalho primoroso e bem-organizado, que convida os leitores a se inteirarem sobre as andanças cariocas a vida urbana da senhora Lispector. E a autora tem um projeto de repetir a dose com Recife, descortinando a relação da escritora com a capital de Pernambuco.

Em entrevista ao Pensar, a pesquisadora Teresa Montero fala sobre como foi organizar um livro fiel ao roteiro dos locais frequentados pela escritora Clarice Lispector no Rio de Janeiro.

Como surgiu a ideia de escrever um livro traçando um mapa de endereços cariocas onde Clarice circulou durante a vida?

O livro é fruto de um passeio que criei há 10 anos. A ideia nasceu em Itabira, cidade natal de Drummond. Quando conheci os Caminhos Drummondianos, fiquei tão encantada ao percorrer a cidade guiada pelos passos do poeta (aliás, Clarice o adorava, eles eram amigos), que logo imaginei o mesmo no Rio de Janeiro. O livro é também uma oportunidade de se fazer o passeio de uma forma não presencial. Ele inaugura um espaço não explorado pelo mercado editorial brasileiro. É o primeiro guia sobre uma escritora brasileira.

Nos últimos anos, Clarice Lispector tem ganho destaque na mídia nacional e internacional e seu público vem crescendo. Como vê esse fascínio sobre a figura e a obra da escritora? 

Vejo em várias etapas condicionadas pelas interferências do contexto sócio-político, econômico e cultural. Desde os anos 1970, Clarice já era estudada no meio acadêmico brasileiro, latino-americano, europeu e norte-americano. No entanto, houve um incremento a partir da propagação dos movimentos de afirmação política e cultural, sobretudo o feminismo, entre os anos 1980 e 1990, que passou a ocupar um espaço importante nas universidades com um pensamento teórico feminista, logo absorvido pelo mercado editorial. A construção desse fascínio sobre a figura de Clarice é o resultado da consolidação dos estudos clariceanos nas universidades, do surgimento de eventos que estimularam novas percepções, como as exposições em centros culturais, os shows de Maria Bethânia declamando Clarice e as adaptações para teatro, dança e cinema – A hora da estrela (1985), de Susana Amaral, e O corpo (1991), de José Antonio Garcia. No mercado editorial, o surgimento dos primeiros livros de cunho biográfico, o pioneiro Clarice Lispector. Esboço para um possível retrato (1981), de Olga Borelli, Clarice: uma vida que se conta (1995), de Nádia Gotlib, e o meu Eu sou uma pergunta. Uma biografia de Clarice Lispector (1999). No século 21, com a chegada da internet, houve um boom de leitores clariceanos impulsionados pela publicação de textos inéditos e pela reedição de sua obra. Eu mesma organizei vários livros, como Correspondências (2001), Outros escritos (2005), Minhas queridas (2007) e dois da série Clarice na cabeceira (2009 e 2010). Consolidam esse fascínio pela figura de Lispector a forte presença nas universidades brasileiras e norte-americanas de várias vertentes teóricas – particularmente a feminista e a judaica. Esta última protagonizada por Benjamin Moser com sua biografia Clarice, uma biografia, em 2009.  A figura de Clarice Lispector é construída por quem a elabora, imbuída de comprometimentos pessoais, sociais e institucionais, que são preponderantes na escolha por certas molduras teóricas. A minha em O Rio de Clarice a leva para um diálogo com a cidade do Rio de Janeiro, a escritora é uma ponte para exercitarmos nossa cidadania. O importante é não enaltecer uma figura em detrimento de outra. Cada pesquisador ou biógrafo destaca, na construção de seu retrato clariceano, os pontos com os quais encontra mais afinidades; os olhares devem ser complementares e não excludentes. Caso contrário, corremos o risco de simplificar essa artista múltipla que foi Clarice.

Você acha que o livro pode ajudar o leitor a se inserir ao universo clariceano?

Sim. Percorrer os caminhos de Clarice no Rio de Janeiro é mergulhar na sua história, entender em que contexto político, social e cultural ela viveu. Houve surpresas na pesquisa, pois descobri, por exemplo, como era a Rua Lúcio de Mendonça, na Tijuca, onde passou a adolescência nos anos 1930. No Bairro do Leme, como era o seu cotidiano, seus caminhos preferidos.

Muitos analisam Clarice como uma autora bastante autobiográfica. Existe realmente esse pacto autobiográfico da escritora com as suas personagens?

Em alguns aspectos, sim, mas é preciso ter cuidado para não se fazer uma leitura rasa desse pacto entre a escritora e seus personagens. Algo como estabelecer vínculos de causa e efeito explicados por fatos de seu itinerário biográfico. Ao ser perguntada sobre a presença do pessimismo em sua obra, Clarice afirmou, em entrevista a Rosa Cass, que o impacto emocional do que escreve corre por conta da reinvenção pessoal do leitor. Seus livros seriam espécie de trilhas, de onde cada um partiria para as próprias descobertas. Sua resposta é um caminho para entender essa questão.

* Márwio Câmara é escritor, jornalista, crítico literário e professor. Autor de Solidão e outras companhias (Editora Oito e Meio).



O RIO DE CLARICE PASSEIO AFETIVO PELA CIDADE

. De Teresa Montero
. Autêntica
. 192 páginas
. R$ 54,90 e R$ 27,90 (e-book)

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