Inventário poético de Laís Corrêa de Araújo: ironia à sociedade patriarcal

Marcada pelo antilirismo e a ousadia, obra da autora foi central na produção modernista dos anos 1950 e 1960 e encontra eco na poesia produzida hoje no Brasil

por Maria Esther Maciel 24/11/2017 08:00
Cristina Horta/EM/DA PRESS
Laís Corrêa Araújo em seu escritório, em Belo Horizonte, no ano 2000 (foto: Cristina Horta/EM/DA PRESS)
A palavra “inventário” é dessas que ultrapassam os limites do dicionário para entrar também na esfera da poesia. Sua acepção jurídica é a mais conhecida: “descrição detalhada do patrimônio de pessoa falecida, para que se possa proceder à partilha dos bens” ou “documento em que estão enumerados e descritos esses bens”, podendo também adquirir o sentido genérico de qualquer “descrição ou enumeração minuciosa de coisas em geral”. Em todas essas definições, constata-se que sua função se insere no mundo das coisas práticas e burocráticas.

No entanto, “inventário” guarda outras possibilidades de sentido, graças às suas afinidades com as palavras “invento” e “invenção”, o que leva a palavra a também significar, por vias oblíquas, uma coleção de inventos/invenções, que, no caso da poesia, seria uma coleção de poemas. Não à toa, Laís Corrêa de Araújo (1928-2006), no livro Cantochão, de 1967, usou-a como título de um poema no qual palavras de extrato jurídico, como “bem de raiz”, herança, “título público” oscilam entre a ironia e o lirismo, adquirindo outros matizes de sentido. Numa das estrofes, lê-se:

Todo o bem de raiz
(não deixo outras lavras)
Eis o que é herança:
palavras

Ao transfigurar o termo “bem de raiz” (que, no Direito, refere-se a um bem imóvel que inclui “o solo e sua superfície, assim como tudo o que a ele for acrescentado voluntariamente”), Laís leva-o para o terreno da linguagem, inserindo-o na esfera da poesia. Dessa forma, maneja com ousadia os sentidos de “inventário”, num jogo que desestabiliza os significados oficiais do termo e o insere no campo da criação poética. O que justifica também o título de obra reunida, Inventário, publicada pela Editora UFMG em 2004.

Diante disso, cabe perguntar: qual foi de fato o legado poético deixado por essa magnífica poeta às novas gerações? Como definir os bens materiais e imateriais deixados por ela aos seus leitores e leitoras? Que herança de vida ela transmitiu e transmite até hoje às mulheres do nosso tempo?

Não é tarefa fácil listar e descrever os muitos itens do inventário de Laís Corrêa de Araújo, embora uma lista de seus bens poéticos materiais possa ser encontrada na bibliografia da autora mineira, nos sumários de seus livros avulsos e de sua obra reunida. Sete coleções de poemas foram deixadas por ela, assim como quatro obras escritas e organizadas no campo do ensaio; cinco livros de literatura infantojuvenil, além de numerosos artigos, traduções, crônicas, notas, depoimentos e edições especiais do Suplemento Literário de Minas Gerais. Quanto aos bens imateriais, esses são incontáveis e se furtam aos limites de uma lista, por comporem um inventário (entendido tanto como herança quanto como conjunto de inventos) que apenas pode ser partilhado pelo ato de leitura, pelo exercício dos sentidos, pela reflexão e pelo desejo de aprendizagem.

Transfigurando aqui outros termos jurídicos, podemos dizer que seus bens, além de “bens de raiz”, são “bens livres”, “bens de reserva”, “bens comuns” e incomuns, “bens vagos”, “bens divisos” e indivisos, “bens fungíveis” (substituíveis por outros da mesma espécie) e infungíveis, “bens imóveis”, bens moventes, “bens públicos” e “bens particulares”, bens múltiplos e bens singulares.

Muitas são as mulheres escritoras de hoje (e alguns homens também, é claro) que transitam nas trilhas deixadas por Laís Corrêa de Araújo e com ela aprenderam a articular vida e poesia, imaginação e consciência crítica, experiência e experimentalismo, militância e reflexão, numa abertura também às questões culturais e políticas do nosso tempo.

Vale lembrar que Laís sempre foi uma poeta atenta ao mundo em que viveu, crítica das convenções sociais, irônica em relação ao papel reservado às mulheres na sociedade patriarcal, ousada nas suas atividades intelectuais e rebelde quanto aos modelos cultuados pela tradição poética. Não bastasse sua atuação fora dos limites socialmente demarcados para as mulheres de seu tempo, já que teve uma intensa militância nos espaços então ocupados predominantemente por homens, ela foi uma das raras vozes femininas da vanguarda poética dos anos 50 e 60 no Brasil, tendo sido a única a participar, em agosto de 1963, em Belo Horizonte, da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, que reuniu integrantes do movimento paulista da Poesia Concreta e da revista mineira Tendência, da qual também fazia parte seu marido, Affonso Ávila, um dos fundadores do movimento de vanguarda em Minas.

Aliás, houve um fato curioso relacionado à participação de Laís nesse evento. Alguém da plateia, ao ver a escritora na mesa de abertura da Semana, lançou a pergunta: “Por que a Laís está aqui?”. É claro que, num encontro cuja radicalidade de propostas em nada se compatibilizava com o que a tradicional sociedade mineira do tempo definia como universo feminino, a presença de Laís Corrêa de Araújo só podia causar estranhamento. Sobretudo porque ela não estava ali para cumprir, na condição de esposa do idealizador do encontro, o simples papel de anfitriã. Poeta já com dois livros publicados e outros em vias de publicação, ela participava da Semana de Poesia de Vanguarda, ao lado de Affonso Ávila, Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Benedito Nunes e Luiz Costa Lima, como legítima representante de uma vertente poética inovadora que, em Minas, surgiu em fins da década de 50.

Aliás, desde a publicação de Caderno de poesia, de 1951, ela nunca deixou de causar estranhamento e inquietação. Nesse que foi seu primeiro livro, já é possível divisar nitidamente um caminho de rebeldia da poeta em relação aos valores cristalizados, como se vê nesta estrofe do poema Revolta:

Se a vida é vida,
deixem-me pintar os cabelos,
sair com algum destino.
Se a vida é vida,
deixem-me recusar a paz.

Vários outros poemas do livro também desafiam o que se esperava da literatura de uma dama mineira dos anos 50. Num deles, aparece o verso: “Fumo apenas”. Outro, intitulado Monótono, o assunto é cerveja:

Acabada a cerveja,
apenas umas gotas espumando,
as últimas gotas.
Contarei agora meus segredos?
In vino veritas, não na cerveja,
mulher vibrante se arrebentando,
estou ainda à espera,
na verdade nem segredos nem problemas.
Apenas desejando um reino
amarelo e vivo,
alguma coisa afinal diferente.
Imóvel é a garrafa, sem expressão.
poderei, é claro, comprar mais cerveja,
desejar ser engolida assim,
mas no fim ficarão apenas as garrafas,
me cercando de tédio,
vazias nós todas.

Como não ouvir nesse poema a dicção presente em poemas de várias poetas de hoje? O ato prosaico de beber cerveja, a identificação do eu poético com as garrafas, a associação da vida vibrante da mulher com o líquido amarelo e vivo, tudo isso desafiava os padrões da chamada poesia feminina do tempo e prefigurava o que agora se tornou uma das linhas de força da poesia contemporânea. Pode-se dizer que, em sua obra de estreia, Laís já incorporava a ironia e o antilirismo que, em seu trabalho posterior, seriam radicalizados. Isso, sem prescindir do exercício dos afetos e do uso de imagens líricas. Desse amálgama entre lírica/antilírica, extraiu um caminho próprio dentro da poesia, um caminho feito de avanços e desvios, fluxos e rupturas, numa continuidade sempre descontínua e imprevisível.

A entrada da poeta numa poética mais construtiva e radical deu-se, sobretudo, a partir do já referido Cantochão. Poemas de arquitetura primorosa, em que os experimentos da linguagem se aliam a uma visão irônica sobre a vida e o mundo, compõem esse livro digno de figurar entre as mais instigantes obras da poesia brasileira do período. Poemas como Fábula do burguês, Construção do filho, Sólida e só e Abecedardo são alguns exemplos disso. No caso deste último, trata-se de um poema ordenado alfabeticamente de A a Z, em que cada uma das 23 estrofes de dois versos só contém palavras iniciadas por uma letra do abecedário – palavras que funcionam como dardos arremessados sobre a página. Dardos, aqui, tomados tanto no sentido de “flecha”, como no de “língua dos ofídios” (ambos registrados no dicionário Houaiss), haja vista o caráter afiado e, ao mesmo tempo, mordaz do poema.

E por falar em ofídio, vale mencionar também o poema Descrição – um dos mais intrigantes do livro – que joga com os limites entre humano e animal, revelando, no entrelaçamento do eu poético e com répteis e insetos, a própria animalidade do humano. Como se vê nestas estrofes:

O animal que eu sou
no nojo em que me farto,
vejo-me na parede,
lagarto.

No muro um lagarto?
Nem isso, lagartixa.
Porque nem ao menos sou
fixa.

(…)
A inteligência se atrela
também como um animal:
não me leva, levo a ela,
e mal.

Alojo-me nos cantos
nada vocais, sem tinta.
Que aranha seja e não
sinta.

O penhor e a usura
são desenhos desta mão.
Veneno no pincel do
escorpião.
(…)

Talvez hoje. Talvez sempre,
sou bicho, sou lagartixa,
vestida de gente e nunca
fixa.

 
Arquivo EM
A autora em seu escritório, em 1972 (foto: Arquivo EM)
Os dardos continuam a ser lançados pela poeta em suas obras posteriores. Em Decurso do prazo, de 1988, eles aparecem de forma ainda mais aguda, adquirindo outras nuances. Se o elemento ofídico volta no poema Silogismos, transvestido de “língua sibilina”, “dedo viperino” e “boca fescenina”, o elemento pontiagudo da flecha se radicaliza em Retrato, geometria e vocabulário (neste, culminando em palavras carnais, lancinantes, orgásmicas e latejantes). Uma forte inflexão erótica incide nos poemas desse livro, quase sempre potencializada por imagens de gumes, cortes, estilhaços, rasgos, fios de faca, lascas de pedras, até chegar ao “ponto de mira” de Poesia e seu “tiro pela culatra”.

O lado violento das relações humanas também é sondado com agudeza pela autora, não só quando ela põe em cena a frase “quem ama mata” no poema Réus, como também quando trata ironicamente da “profissão de esposa”, dando voz a um marido impositivo, ao mesmo tempo em que ridiculariza – nas entrelinhas – o que subjaz a esse discurso viril. O livro joga, ainda, com certas formas discursivas advindas de outros registros disciplinares, como o verbete, as cláusulas jurídicas, as preces, os versículos, as fórmulas e os slogans.

Se, em Cantochão e Decurso de prazo, a força de gravidade das palavras se manifesta de forma incisiva, nos livros posteriores, Pé de página (1995), Clips (2000) e Geriátrico (2002), já incidem uma maior flexibilidade das formas e a presença de uma subjetividade modulada pelos movimentos da memória, dos afetos e dos sentidos.

Em Pé de página, Laís alia ao apuro da linguagem e ao olhar irônico um pathos que reinstaura o tom lírico do Caderno de poesia, publicado 40 anos antes. Entretanto, a energia que o atravessa é outra. Tendo já se dedicado longamente ao labor exigente da linguagem, passado por várias etapas em seu ofício literário, Laís assume, nesse livro de 1995, a liberdade de reinventar, pelas modulações da memória, as suas experiências pretéritas no campo da vida e da escrita. Com sentimento, mas sem sentimentalismo, com ironia, mas sem distanciamento, ela evoca experiências de diferentes fases de seu percurso como mulher e poeta.

O tempo, aí, é sua matéria principal. Não à toa, ela incluiu um poema voltado para a reflexão sobre o tema, a que deu o título de Curso de filosofia e no qual insere afirmações que são também perguntas sobre o que é o tempo. O recurso de isolar o ponto de interrogação no verso final de cada estrofe é o que garante o jogo afirmação/pergunta que constitui todo o poema.

Os “ossos do ofício” da poesia também são percorridos nas páginas do volume, com incursões no ato de escrever e no que foi escrito. Notável, sob esse prisma, é o poema Nu frontal, que vem caligrafado:

Não há nada
mais bonito
e explícito
que um manuscrito

Se em Clips Laís compõe 30 minipoemas que se assemelham a aforismos e lançam faíscas de dizeres sobre a página, em Geriátrico a velhice emerge com o principal motivo poético. Percebe-se que um olhar de quase escárnio é lançado sobre os lucros e perdas da vida geriátrica, numa amostragem de bulas, exames, aulas de RPG, engasgos, retrospectivas e balanços. Enfim, um acerto final com o vivido.

Assim, diante da complexidade e riqueza de tal inventário poético, não é fácil dele extrair um resumo. O legado de Laís Corrêa de Araújo sempre se reinventa e multiplica, vivo, em cada pessoa que o recebe.
 
 
COLUNA NO ESTADO DE MINAS
Laís Corrêa de Araújo escreveu regularmente sobre literatura no jornal Estado de Minas, entre o final da década de 1950 e o início dos anos 1960. Em 14 de junho de 1959 ela estreou a coluna "Conversas na Mesa", em que publicava crônicas. A coluna se manteve até outubro do mesmo ano. A partir de novembro de 1959, Laís passou a assinar a coluna "Roda Gigante", dedicada a notícias do mundo literário e editorial. A coluna foi publicada até junho de 1962.  
 
*Maria Esther Maciel é escritora, mestre em literatura brasileira, doutora em literatura comparada e professora de teoria da literatura e literatura comparada da UFMG. 

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