Júlio Castañon conta experiência de traduzir Rua do Odéon, autobiografia de Adrienne Monnier

Poeta e tradutor diz que a livreira e editora parisiense sempre estará intimamente associada aos livros, assim como muitos livros estarão associados a ela

por Júlio Castañon 28/07/2017 10:37

Adrienne Monnier retratada por Paul Émile Bécat

Rua do Odéon, de Adrienne Monnier, é de certo modo um panorama fragmentado de uma pequena livraria parisiense da primeira metade do século 20 frequentada por grandes nomes da literatura da época. Na foto reproduzida na capa do livro, vê-se a autora na porta de sua livraria, onde se poderia supor que estivesse para entrar. Antes, porém, dirige um olhar para alguém que a observa, o fotógrafo.

A capa talvez funcione como sugestão de que se entra no livro como se também entrássemos na livraria, como se acompanhássemos a autora – e talvez ainda mais, entrar no livro seria o mesmo, ou quase o mesmo, que entrar na livraria. Mas no conjunto da foto, talvez o que mais importe seja que se pode vê-la como composta de duas partes verticais – a da direita, ocupada por Adrienne Monnier, e a da esquerda, ocupada pelos livros na vitrine.

E se poderia pensar que essas partes seriam intercambiáveis, tanto Adrienne Monnier sempre estará intimamente associada aos livros, assim como muitos livros estarão associados a ela. (Note-se, de passagem, a sobriedade das capas dos livros na vitrine, de uma época em que ainda não era preciso que gritassem.)

Nas proximidades de onde, entre 1915 e 1951, a livraria funcionou, sempre houve e ainda há várias livrarias; nenhuma, porém, alcançou a repercussão de La Maison des Amis des Livres. Essa repercussão era devida não a algum sucesso comercial digno de nota, mas à importância que teve para a vida literária, e pode-se mesmo dizer para a literatura francesa da época. E foi esse o aspecto que talvez primeiro tenha despertado meu interesse, antes de pensar em traduzir o livro, sobre o qual ainda me parece que posso fazer alguns comentários do ponto de vista do tradutor.

Nos atuais tempos de muitas mudanças no mundo dos livros – das editoras às livrarias, passando pelo desenvolvimento de novos suportes, e até mesmo com o deslocamento da dimensão da literatura –, um livro como o de Adrienne Monnier pode, à primeira vista, parecer saído de tempos muito remotos. A verdade, no entanto, é que os interesses de Adrienne Monnier evidentemente persistem.

Livros, livrarias, bibliotecas, todo esse universo é objeto de estudos especializados, assim como ainda está presente de modo frequente e instigante na própria criação literária, em romances, contos, poemas, ou no cinema. A livraria aí surge quase sempre, naturalmente, não como empreendimento comercial, mas como ponto de difusão cultural, ponto de encontro, uma prática de convívio, como vemos em Rua do Odéon.

Drummond dedicou um soneto não exatamente ao livro, mas à busca do livro – Soneto da buquinagem, que começa com o convite para catar o livro na livraria, no sebo: “Buquinemos, amiga, neste sebo”. De modo mais específico, dedicou ainda um poema a uma determinada livraria, ainda que sem mencionar seu nome – a Livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro: “a loja subterrânea / expõe os seus tesouros / como se os defendesse / de fomes apressadas” (faz-se aí referência à localização da livraria, frequentada pelo poeta no subsolo de um prédio no Centro do Rio de Janeiro). E achado o livro, “a quem sabe / mergulhar numa página / o trampolim se oferta”.

 


MERGULHO
 Para nos valermos ainda da imagem de Drummond, é em torno desse mergulho que circula o livro de Adrienne Monnier. Em diferentes textos relacionados com a vida literária em Paris na primeira metade do século 20, o nome de Adrienne Monnier aparece com frequência. Aparece, todavia, de modo discreto, em breves menções, como que no fundo da cena. Afinal era a proprietária de uma pequena livraria, não exatamente uma escritora de renome, ainda que essa pequena livraria se tenha tornado referência para pelo menos uma parte dos atores dessa vida literária.

Assim, na extensa biografia de Paul Valéry, de autoria de Michel Jarrety, seu nome ocorre dezenas de vezes em ligação com leituras, lançamentos, apresentação de pessoas umas às outras, publicação de livros, de revistas. Ora ela aparece organizando uma leitura de textos de Paul Valery feita pelo próprio autor, por André Breton e por André Gide; ora aparece ligada à revista Commerce (dirigida por Paul Valéry, Valery Larbaud e Léon-Paul Fargue), tendo sido uma das pessoas que viabilizaram em termos práticos a existência da revista, pelo menos durante os primeiros números, cujo endereço era o de sua livraria.

Seu empenho vai assim além dos aspectos mais intelectuais. Abrigou em seu apartamento a então jovem fotógrafa Gisèle Freund, refugiada alemã, e pediu que os amigos da livraria fossem fotografados por ela, do que resultou uma exposição na própria livraria, em 1939. A livraria também serviu de ponto de distribuição das doações feitas por comitês de solidariedade argentinos e uruguaios aos escritores franceses durante o período de racionamento de produtos ao final da Segunda Guerra Mundial.

Se quase todo o livro tem uma dimensão memorialística, como de modo especial nos textos sobre sua juventude, a essa dimensão está frequentemente associada uma busca de compreensão das obras, dos procedimentos, das questões abordadas. De minha leitura inicial, interessaram-me sobretudo os capítulos dedicados a Walter Benjamin, a James Joyce e ao que Adrienne Monnier chama de “livro pobre”.

Nos textos sobre Walter Benjamin, a todas as suas lembranças pessoais se somam muitas pequenas informações sobre textos do pensador, assim como ao relatar todas as providências e peripécias da tradução de Ulisses para o francês traça um vívido retrato das questões envolvidas na empreitada de uma tradução desse porte. Também no texto sobre livro pobre, sua argumentação sobre a importância do acesso às grandes obras literárias por meio de edições de baixo custo é entremeada por suas recordações de leitura.

Tendo apreciado muito o livro de Adrienne Monnier, acabei por me dispor a traduzi-lo, sem que de início isso me tivesse levado a pensar em possíveis dificuldades para a tarefa. A verdade é que o fato de se gostar muito de um livro pode fazer com que nem sempre se pense na dificuldade de traduzi-lo, sobretudo se ele não apresenta problemas evidentes. É bem este o caso do livro de Adrienne Monnier. Sua leitura corre de maneira tão aliciadora, que não dá margem a que se atente a possíveis pontos de tropeço para outro tipo de leitura, ou seja, a leitura constituída pelo trabalho de tradução.

Afinal, traduzir é antes de tudo fazer uma leitura que não pode deixar de estar atenta a miudezas que podem ser pedras no caminho (e em relação às quais podemos contar com a ajuda de revisores, editores). É claro que isso não pode perder de vista o conjunto do texto, ou seja, as tais miudezas não podem se isolar desse conjunto mais amplo.

É na hora H da tradução que o tradutor pode dar-se conta de que tal leitura prazerosa escondia aqui e ali surpresas ameaçadoras para a tradução. No caso do livro de Adrienne Monnier, havia umas poucas construções que não são mais empregadas, algumas referências a situações ou coisas também já desaparecidas, o que exigia uma atenção mais detida. Mas o que importava acima de tudo era preservar o tom do texto – trata-se de uma escrita culta, elaborada, mas sem afetação, mantendo uma grande discrição, modéstia mesmo, e estabelecendo a proximidade de um contato com o leitor. Conseguir isso em português foi uma das preocupações do trabalho. Mas o que não poderia ter-me passado pela cabeça era que a edição brasileira do livro acabaria por atrair a atenção de alguém que chegou a conhecer pessoalmente Adrienne Monnier.

O jornalista francês e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo Gilles Lapouge escreveu para esse jornal um belo texto em que relata ter frequentado, quando jovem, La Maison des Amis des Livres, em Paris. Nele, conta como, em sua primeira ida à célebre livraria, ficou paralisado ao ver a livreira, sem ousar nem sequer falar – fazendo dessa visita uma “saudação muda e petrificada” à livreira. A leitura de Rua do Odéon faz-nos entender essa admiração – e com suas informações sobre a vida da livraria, sobre o meio intelectual, esta é também uma obra de apreço pelo livro e pela literatura.


Júlio Castañon Guimarães é escritor, tradutor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.


RUA DO ODÉON
De Adrienne Monnier
Tradução de Júlio Castañon Guimarães
Autêntica
240 páginas
R$ 39,80

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