Confira a trilha da gastronomia raiz no Centro de BH

Com simplicidade e pedidas tradicionais, bares da região central da cidade conquistam novos públicos

por Pedro Galvão 16/08/2019 08:50
Leandro Couri/Alexandre Guzanshe/Tulio SantosEM/D.A Press
Delícias tipicamente mineiras, como mexido, torresmo, feijoada e até o Kaol, que virou patrimônio cultural, são opções em estabelecimentos que dispensam sofisticação (foto: Leandro Couri/Alexandre Guzanshe/Tulio SantosEM/D.A Press)
Na última década, Belo Horizonte viu sua Região Central se oxigenar com movimentos culturais e comerciais. Pontos à margem dos circuitos de lazer mais badalados passaram a atrair grande público com novidades sofisticadas, tendo o Edifício Maletta, o Mercado Novo e a Rua Sapucaí como principais exemplos. Porém, a gastronomia boêmia tradicional não só resiste, como também ganha força no Centro. Oferecendo petiscos típicos em sua versão mais genuína e simplicidade na operação, antigos bares e restaurantes ampliam sua popularidade e caem no gosto de frequentadores de outras áreas da capital.

Nada de cerveja artesanal ou delícias assinadas por chefs. No Hipercentro, a autenticidade dispensa sofisticações. No caso do Café Palhares, na Rua Tupinambás desde 1938, o Kaol – prato feito com couve (embora o “k” seja de cachaça), arroz, ovo e linguiça – já virou patrimônio cultural de BH. Custa R$ 19,80, disponível também com língua de boi, dobradinha, carne cozida ou pernil no lugar da linguiça. Molho de tomate e farofinha acompanham. Para degustá-lo, é preciso se acomodar em um dos assentos em torno do balcão.

FILME A alguns quarteirões dali, na Avenida Amazonas, o caldo de mocotó do Nonô já foi tema até de documentário, lançado em 2016. Ele é o astro do bar que se anuncia como o “Rei” da iguaria e funciona 24 horas. Em 2016, o espaço passou por reforma e ficou mais arejado e iluminado, mas sem alterar a arquitetura baseada em balcão e aparadores, muito menos a receita principal. Servido na caneca, o caldo custa R$ 9,70 ou R$ 10,50, se o freguês acrescentar um ovo de codorna. Além do carro-chefe, faz sucesso a porção de língua de boi (R$ 7), preparada sem invencionices.
Alexandre Guzanshe/EM
Caldo de Mocotó do Nonô (foto: Alexandre Guzanshe/EM )
Alexandre Guzanshe / EM
Kaol: "Kachaça", arroz, ovo e linguiça, além de couve, farofa e molho (foto: Alexandre Guzanshe / EM)
 
Sob menos holofotes e em funcionamento há 33 anos na Rua Espírito Santo, entre Amazonas e Caetés, o Restaurante Mineirinho se destaca pelas porções e pratos tradicionais com preços bem abaixo daqueles cobrados por estabelecimentos tarimbados de outros bairros. O cardápio oferece 23 refeições, incluindo os clássicos mexidão (com o imponente ovo frito sobre a travessa) e feijão-tropeiro, com arroz, couve e bife à milanesa. Custam R$ 14 e R$ 16,50, respectivamente. Há também o prato do dia, generosamente individual, sempre por R$ 13,50 ou R$ 14.

Os destaques são a feijoada (sexta e sábado) e o tutu com couve, arroz e lombo de porco, às quintas-feiras. Combinações de arroz, feijão, macarrão e bifes (do tamanho do prato!) figuram entre as ofertas para matar a fome no concorrido e agitado horário de almoço. Ou mesmo noite adentro.

Tulio Santos / EM
José Alves da Silva, sempre no comando da cozinha (foto: Tulio Santos / EM)
A cozinha funciona até as três da manhã. A casa é alternativa para quem frequenta eventos na região, como ocorreu na Virada Cultural, em julho. Com simplicidade e eficiência no atendimento, o proprietário José Alves da Silva celebra um novo momento. “No início e até 10 anos atrás, tínhamos clientela mais fixa. Hoje, com mais mídia e o Instagram (@restaurantemineirinho1), vem muita gente nova, de várias partes da cidade. Aqui é um bar simples, mas a comida que sai é novinha, feita na hora. Falo isso porque trabalho pessoalmente na cozinha”, afirma.

“Temos contrafilé, calabresa, filé de merluza com molho tártaro (porções, de R$ 25 a R$ 30), além de sanduíches, espetinhos e caldos. Tem de tudo aqui”, garante José. A poucos metros de lá, o Mineirinho 2 opera em modelo parecido. No passado, faziam parte do mesmo negócio, mas depois seguiram caminhos independentes.

Isolado em um dos corredores do Mercado Central, o Rei do Torresmo se diferencia pelo foco na iguaria associada à mineiridade. Sem cadeiras e mesas, ostenta uma estufa de balcão cheia de torresmos “de barriga”, mais carnudo, e “pururuca”, mais crocante.

'LAGOSTA' “A gente costuma falar que Minas não tem mar, mas tem bar. Então, aqui o torresmo grande de barriga é a lagosta e o pequeno, à pururuca, é o camarão mineiro”, brinca Geraldo Campos, proprietário do estabelecimento há 24 anos. Sempre no balcão, ele aponta a porção de torresmo de barriga na chapa com cebola ou jiló (R$ 22) como a preferida do público. Pelo mesmo preço sai a de pururuca, que pode ser acompanhada de mandioca frita.
Leandro Couri / EM
Geraldo Campos, o "Rei do Torresmo" no Mercado Central. (foto: Leandro Couri / EM)
 
O Centrão concilia a gastronomia popular com a prática esportiva preferida dos boêmios. Na Rua Carijós, a Tim Academia de Bilhares tem 15 mesas de sinuca e opções para matar a fome. Uma delas é o mexido da casa, feito com banha de porco, acompanhado por linguiça calabresa assada, tomates e “finalizado” com um ovo frito. Custa R$ 15,90.

CIRCUITO A “vanguarda gastronômica” do Hipercentro de BH foi destaque na última Virada Cultural. Montou-se um circuito destacando itens da comida de rua, sob curadoria do jornalista Daniel Neto, que há 10 anos se dedica ao assunto nas redes sociais. A página Baixa Gastronomia por Nenel é seguida por 128 mil usuários no Instagram e outros 22 mil no Facebook.

“Ultimamente, tenho visto maior aceitação desses lugares pelas pessoas. Elas pararam de sentir vergonha de ir a lugares mais simples, pois aprenderam que nem toda boa experiência precisa custar caro. Voltamos a valorizar as estufas, o balcão e o atendimento amigável em lugares bem verdadeiros, onde as pessoas da cidade comem diariamente”, argumenta Nenel.

DICAS DO NENEL
Confira sugestões do especialista em baixa gastronomia

» Para comer no fim de noite
• Restaurante Mineirinho 1 
•Tim Academia de Bilhares.  “Tem música alta, não é aquele lugar confortável, mas tem um mexidão muito bom.”
• Bar do Nonô
• Bar do Zé Luiz. “Fica no primeiro andar do Mercado Novo, são anteriores a esse novo movimento lá.”

» Para celebrar o balcão
• Café Palhares: “Aquele balcão é sagrado.”
• Mineirinho e Xok Xok

» Para almoço
• Restaurante do Beco: “Uma portinha, mas a cada dia um 
prato diferente.”

» Tira-gosto especial
• Bolinho de carne do Café Bahia: “Empanado, muito bom.”

» Pra tomar cerveja e jogar conversa fora
• Rei do Torresmo
• Bar do João: “atrás do Mercado Central, na Rua Padre Belchior. Bem interessante para tomar uma.”
 
 
MAPA DO TESOURO - Veja o endereço dos bares e restaurantes no Centro de BH:
» Restaurante Mineirinho 1
Rua Espírito Santo, 310, Centro, (31) 3213-6172. Segunda e terça, das 9h às 2h30; quarta e quinta, das 9h às 3h; sexta, das 9h às 4h; sábado e domingo, das 9h às 3h.

» Restaurante Mineirinho 2
Rua Caetés, 220, Centro, 
(31) 3222-8651. Diariamente, 
das 9h às 3h.

» Rei do Torresmo
Mercado Central. Av. Augusto de Lima, 744, loja 166, Centro, (31) 99302-9552. Segunda a sábado, das 7h às 18h; domingo, das 7h às 13h.

» Café Palhares
Rua dos Tupinambás, 638, 
Centro, (31) 3201-1841. Segunda a sexta, das 8h às 22h; sábado, das 7h às 21h.

» Nonô – O Rei do Caldo de Mocotó
Av. Amazonas, 840, Centro, 
(31) 3212-7458. Segunda a sábado, não fecha.

» Xoc-Xoc
Edifício Maletta. Rua da Bahia, 1.148, Centro, (31) 3273-4617. Segunda a sábado, das 7h à 0h.

» Tim Academia de Bilhares
Rua dos Carijós, 109, Centro, 
(31) 3226-8476. Segunda a sábado, das 11h às 5h.

» Bar do João
Rua Padre Belchior, 114, Centro.

» Restaurante do Beco
Rua dos Tamoios, 232, Centro, 
(31) 3272-1489. De segunda a sábado, das 11h às 23h; domingo, das 11h às 17h.

» Bar do Zé Luiz
Rua Rio Grande do Sul, 481, Centro, (31) 3271-9121. Diariamente, das 2h às 9h.

» Café Bahia
Rua dos Tupis, 369, Centro, 
(31) 3224-5574. De segunda a sábado, das 7h à 0h.
Leandro Couri / EM
Balcão do Café Palhares, na Rua Tupinambás, onde o Kaol é patrimônio cultural da cidade. No entanto, opções vão além na região (foto: Leandro Couri / EM)
 

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