Bernardo Bertolucci, diretor de 'O Último Tango em Paris', morre aos 77 anos

Cineasta era um dos mestres do cinema italiano e conquistou prêmio em Cannes pelo conjunto da obra em 2011

por AFP 26/11/2018 07:48

Tiziana FABI / AFP
(foto: Tiziana FABI / AFP)

O cineasta italiano Bernardo Bertolucci, conhecido por filmes como "Último Tango em Paris" e "O Último Imperador", faleceu em sua casa em Roma aos 77 anos.

Bertolucci é considerado um mestre do cinema italiano e mundial.

Em 1987, "O Último Imperador", filme sobre o último imperador da China, recebeu nove estatuetas na cerimônia do Oscar.

Em 1972, o cineasta conquistou fama mundial com "Último Tango em Paris", um drama erótico protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider que provocou grande escândalo por uma polêmica cena de sexo.

Bertolucci admitiu anos depois que a jovem atriz Maria Schneider, que na época tinha 19 anos, ficou profundamente abalada pela cena que simulava sodomia, pois não havia sido plenamente informada antes da filmagem sobre o que seria rodado.

Schneider, que sofreu com o vício em drogas e depressão antes de sua morte em 2011, afirmou em uma entrevista de 2007 que sentiu-se "um pouco violentada" durante a cena e ficava muito irritada com isto.

Bertolucci foi um dos poucos cineastas italianos a dirigir filmes no exterior com frequência.

Ele dirigiu "Os Sonhadores" (2003) em Paris, "O Último Imperador" na China, o "O Céu que nos Protege" na África e o "O Pequeno Buda" no Butão".
Valerie MACON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
(foto: Valerie MACON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP)

Nascido em Parma, nordeste da Itália, em 1941, Bertolucci dirigiu filmes de grande teor político e histórico, incluindo "1900" (1976), que narra a história das lutas de classe no rico vale do Po através do destino de dois amigos de infância no início do século XX.

O filme tem um prestigioso elenco internacional (Robert De Niro, Gérard Depardieu, Burt Lancaster, Dominique Sanda). Outro exemplo é o longa-metragem "O Conformista", sobre a esquerda no período do fascismo italiano.

O cineasta, que utilizou uma cadeira de rodas nos últimos anos, cresceu em um ambiente rido e intelectual e iniciou sua paixão pelo cinema com o filme "La Dolce Vita" de Federico Fellini. Seu pai, poeta, professor de Histporia e crítico de cinema, o presenteou com sua primeira câmera 16mm aos 15 anos.

"Era o último imperador do cinema, o senhor de todas as epopeias e escapadas. Acabou a festa: duas pessoas são necessárias para dançar o tango", declarou nesta segunda-feira à AFP Gilles Jacob, ex-presidente do Festival de Cannes, que concedeu uma Palma de Ouro honorária em 2011 ao italiano pelo conjunto de sua obra.

Ao ser questionado em 2013 sobre como gostaria de ser recordado, Bertolucci respondeu à AFP: "Não me importa".

 

Wikipedia
(foto: Wikipedia)

 

'Descobridor de atrizes'

 

Em uma entrevista à AFP em novembro de 2013 em Los Angeles, o diretor Bernardo Bertolucci, falecido em Roma aos 77 anos, evocou seu legado, considerando que ele ficaria na memória provavelmente como um "descobridor de jovens atrizes".

"Isso me importa pouco", declarou o cineasta italiano, ao ser questionado à qual posteridade ele aspirava.

"Meus filmes existem, e as pessoas podem vê-los", afirmou, durante a apresentação de uma versão em 3D de sua obra-prima "O último imperador", que lhe valeu nove Oscars, incluindo melhor filme e melhor diretor, em 1988.

"Mas, às vezes, me diverte pensar que as pessoas se lembrarão mais de mim como um descobridor de jovens atrizes do que como cineasta", acrescentou.

"Eu descobri tantas!", completa, citando Dominique Sanda, dirigida por ele em "O conformista" (1970); Maria Schneider, em "Último tango em Paris" (1972); Liv Tyler, em "Beleza roubada" (1996); ou Eva Green, que deu seus primeiros passos diante das câmeras em "Os sonhadores" (2003), antes de fazer carreira os Estados Unidos.

Em meio à sua impressionante filmografia, ele admite ter-se "enganado às vezes": "Mas todas as minhas escolhas foram sinceras".

Apegado à película, ele tentou passar para o digital em "Você e eu" (2012), seu último filme.

Divulgação/United Artists
(foto: Divulgação/United Artists)


"A definição e a nitidez eram muito grandes, mas eu queria que o filme tivesse uma qualidade impressionista", comentou.

Ele estava atento para as mudanças tecnológicas que agitam o cinema.

"Em breve, vamos ver filmes nos maços de cigarro, ou no nosso relógio. Vai ser preciso inventar histórias capazes de se adaptar aos diferentes formatos".

"Se um jovem me perguntasse a coisa mais importante a fazer para começar uma carreira de cineasta, eu diria a ele para ser sincero e seguir seu coração. É muito importante ser completamente honesto no que a gente faz", acrescentou.

No fim de sua carreira, o diretor confessava sua admiração pela nova onda de séries de televisão americanas, em especial "Breaking Bad".

"Os filmes, nesses últimos tempos, não são muito interessantes, enquanto que as séries são enormemente", dizia ele.

As séries, observou, "conservaram o ritmo que a gente via antes no cinema. Hoje, todos os filmes têm de ser filmes de ação, mesmo que não sejam. Nas séries, ainda podemos ver personagens que olham as coisas, ou contemplam o céu".

Nascido em Parma, nordeste da Itália, em 1941, Bertolucci é considerado um mestre do cinema italiano e mundial e foi um dos poucos cineastas de seu país a dirigir filmes no exterior com frequência.

Divulgação/Columbia Pictures
(foto: Divulgação/Columbia Pictures)
 

Cronologia de filmes

 

- 1964: Antes da Revolução

- 1968: Partner

- 1970: A Estratégia da Aranha

- 1970: O Conformista

- 1972: Último Tango em Paris

- 1976: 1900

- 1979: La Luna

- 1981: A Tragédia de um Homem Ridículo

- 1987: O Último Imperador (Oscar de melhor diretor e melhor roteiro adaptado)

- 1990: O Céu que nos Protege

- 1993: O Pequeno Buda

- 1996: Beleza Roubada

- 2003: Os Sonhadores

Bernardo Bertolucci, que recebeu a Palma de Ouro honorária do Festival de Cannes em 2011, foi roteirista de vários de seus filmes e de outras produções, incluindo "Era uma Vez no Oeste", western de 1968 dirigido por Sergio Leone.

 

 

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