'A forma da água' leva Oscar de filme e diretor, para Guillermo del Toro

Em edição marcada pelos movimentos #MeToo e #Time's Up, foram premiados também o chileno 'Uma mulher fantástica', drama sobre mulher trans, a coprodução brasileira 'Me chame pelo seu nome', sobre amor gay e o longa americano sobre racismo 'Corra!'

por Redação EM Cultura 05/03/2018 02:06

Mark Ralston / AFP
Del Toro é o terceiro mexicano a vencer o Oscar de Melhor Direção (foto: Mark Ralston / AFP)

Realizada na esteira da avalanche de denúncias de assédio sexual que chacoalhou Hollywood e na emergência dos movimentos #Time's Up e #MeToo – de combate ao assédio e pela igualdade de gênero –, a 90ª edição do Oscar, realizada na noite de ontem, deu mostras de mudança.

 

"A forma da água", narrativa fantástica de Guillermo del Toro sobre o relacionamento amoroso de uma faxineira muda com uma criatura anfíbia amazônica capturada e levada para um laboratório secreto americano durante a Guerra Fria levou as estatuetas de melhor filme, diretor, trilha sonora e direção de arte.

 

 

Claramente um filme sobre cidadões oprimidos por sua posição social, mas que não se rendem nem abrem mão de seus sonhos e sua ética, "A forma da água" recebeu 13 indicações, incluindo a de melhor roteiro original.

 

No entanto, nessa categoria o vencedor foi Jordan Peele, autor e diretor de Corra!, um filme de horror com pitadas de comédia que aborda o racismo de um modo como não se vê em lançamentos de grandes estúdios como a Universal. Na história, a namorada branca do fotógrafo Chris (Daniel Kaluuya, indicado ao Oscar de melhor ator) o convida para passar o fim de semana na mansão dos pais dela, supostamente liberais e modernos – ele é cirurgião e ela, psiquiatra. Lá, Chris começará a desvendar e enfrentar uma trama de horror que envolve também outros negros como vítimas.

Angela Weiss / AFP
Jordan Peele, diretor e roteirista de Corra! (foto: Angela Weiss / AFP)
 

 

 

"Isso significa muito para mim. Parei de escrever esse filme 20 vezes, porque achei que era impossível, que ninguém o faria, que não iria funcionar. Mas sabia que, se eu chegasse a fazê-lo, as pessoas ouviriam. Obrigado a minha mãe, que me ensinou a amar até em face do ódio e do preconceito. Muito obrigado a todos vocês!", disse Peele, para uma plateia que o aplaudiu de pé.

 

Foi a segunda vez na noite que a plateia de celebridades no Dolby Theater se levantou. A primeira foi pouco antes, para o escritor James Ivory, de 89 anos, que levou o Oscar de melhor roteiro adaptado por Me chame pelo seu nome, coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira. O prêmio destacou um filme que trata do nascimento de um amor homossexual entre o jovem Elio (Thimotée Chalamet, também concorrente a melhor ator) e Oliver (Armie Hammer).

 

"Todos nós passamos pelo primeiro amor e saímos do outro lado geralmente intactos", afirmou Ivory, notando que o primeiro amor não tem distinção se é ou não homoafetivo. Porém, o discurso de maior impacto da noite foi o de Frances McDormand, premiada como melhor atriz por seu papel da mãe revoltada com o fato de o criminoso que estuprou e matou sua filha continuar impune e a polícia, inerte. "Se eu cair me levanta, porque tenho umas coisinhas para falar. A gente é um bando de rebeldes e anarquistas (dirigindo-se ao diretor Martin McDonagh)", disse a atriz, no início de seu agradecimento.

 

Antes de encerrar, Frances pediu que todas as mulheres que haviam sido indicadas nessa noite de Oscar se colocassem de pé, para que ela pudesser ter "a honra" de estar acompanhada por elas. E com esse gesto feito, mandou o seu recado: "Não falem com a gente na festa (pós-premiação). Convidem-nos a aos seus escritórios. Todas nós temos histórias para contar".

Confira o momento:

 

 

 

O Oscar 2018 também premiou um longa cuja protagonista é uma mulher trans, interpretada por Daniela Vega. "Uma mulher fantástica", de Sebastián Lelio, deu ao Chile o Oscar de melhor filme estrangeiro, numa disputa especialmente concorrida, dado o altíssimo nível de todos os concorrentes. Daniela Vega foi escalada como uma das apresentadoras da noite.

 

Apesar do favoritismo de "A forma da água", de Guillermo del Toro, "Dunkirk", de Chirstopher Nolan, saiu na frente,  abocanhando três estatuetas na etapa inicial dos prêmios. O placar final registrou quatro a três para "A forma da água". 

 

O apresentador da cerimônia foi novamente o humorista Jimmy Kimmel, que assumiu a função no ano passado, quando houve a gafe histórica do anúncio equivocado de melhor filme – "La la land" foi anunciado vencedor, que, de fato, era "Moonlight".

 

Em seu monólogo de abertura, Kimmel citou a gafe e não evitou o tema espinhoso do momento, nomeando o produtor Harvey Weinstein, antes conhecido como o homem mais influente no Oscar – ele acumulou 300 indicações e 81 vitórias com seus filmes. "A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood tomou medidas para expulsar Harvey Weinstein no ano passado, mas ele certamente merecia mais. Em 2004, a Academia expulsou uma pessoa por compartilhar filmes. E os dois tiveram a mesma punição!", disse o apresentador.

 

DIFERENÇA Em seguida, ele destacou que “só 11% dos filmes são dirigidos por mulheres” e citou a diferença de pagamento entre os atores Mark Wahlberg e Michelle Williams pela refilmagem de "Todo o dinheiro do mundo" (ele ganhou US$ 1 milhão; ela, US$ 1 mil), necessária depois que o diretor Ridley Scott decidiu remover Kevin Spacey, outro ator abatido por denúncias de assédio, do filme. Spacey foi substituído por Chirstopher Plummer, inicado a melhor ator.

 

Em seu tom bem humorado, Kimmel ainda afirmou, numa referência ao filme com o maior número de indicações este ano – A forma da água concorreu em 13 categorias. "Este foi o ano em que os homens fizeram tudo tão errado que as mulheres começaram a sair com peixes".

 

O movimento Time's Up teve seu espaço durante todo um trecho da cerimônia, com um minidocumentário em que profissionais envolvidos na iniciativa deram seu depoimento. O americano de origem paquistanesa Kumail Nanjiani, indicado a melhor roteiro original com "Doentes de amor", cuja trama fala de um tratamento ficcional de sua relação com a namorada americana, que precisou enfrentar a oposição das famílias de ambos, afirmou: "Os meus filmes preferidos são de caras brancos e héteros. Ou seja, eles também podem ver os meus filmes e se identificar comigo".

 

Além do Oscar para o Chile, a América Latina também foi celebrada com "Viva! - A vida é uma festa", que venceu na categoria animação e é baseado na cerimônia da Festa dos Mortos mexicana. No discurso, a equipe fez agradecimento especial ao México e celebrou a diversidade e a inclusão. “Marginalizados merecem sentir que pertencem a alguma coisa. Representação importa”, disse o diretor Lee Unkrich.

 

Por outro lado, a apresentação da música "Remember me", tema do filme, indicada a melhor canção original foi um dos momentos mais criticados do evento. A interpretação desafinada do ator Gael Garcia Bernal rendeu várias piadas nas redes sociais. A grande festa do cinema mundial ainda teve momentos de descontração, entre um discurso engajado e outro, como a participação do ator Mark Hammil, eterno Luke Skywalker de Star wars, e o robô BB8. Eles apresentaram as categorias de animação.

 

O ex-jogador e astro da NBA Kobe Bryant levou uma estatueta por "Dear basketball" (Querido basquete), escolhido como melhor curta animado. O esporte também foi destaque na categoria melhor documentário, vencida por "Icarus", sobre o dopping no esporte, especialmente o caso do ciclista norte-americano Lance Armstrong, sete vezes consecutivas vencedor da Volta da França.

FREDERIC J. BROWN / Reprodução
(foto: FREDERIC J. BROWN / Reprodução)
 

 

O Oscar fez um agradecimento especial ao público dos filmes, quando Kimmel convidou alguns dos astros para acompanhá-lo até um cinema ao lado do teatro. O time formado por nomes como Gal Gadot e Guillermo del Toro cumprimentou os espectadores e distribuiu lanchinhos.

 

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