Hollywood faz neste domingo seu primeiro Oscar após o escândalo sexual

Acusações sacudiram a indústria e alavancaram as demandas por igualdade de gênero e oportunidades no cinema

por Mariana Peixoto 04/03/2018 10:30
AFP
Na cerimônia do Globo de Ouro, em janeiro, o preto foi adotado como forma de protesto contra o assédio sexual em Hollywood. (foto: AFP)
Independentemente do filme vencedor desta noite, a 90ª edição do Oscar ficará marcada como o ápice de uma das temporadas mais longas e ruidosas da história de premiações de Hollywood. A cerimônia deste domingo ocorre cinco meses após o início de denúncias de assédio sexual, abuso e estupro contra o produtor Harvey Weinstein.

De 5 de outubro (data de publicação da primeira reportagem, no The New York Times) até agora, o ex-todo poderoso produtor – cujos filmes receberam mais de 300 indicações ao Oscar e levaram 81 estatuetas – foi denunciado por mais quase uma centena de mulheres que atuam no cinema.
Na quinta-feira (1º), um grupo de investidores liderado por Maria Contreras-Sweet anunciou a compra da The Weinstein Company por US$ 500 milhões. A empresária, nascida no México e radicada nos EUA, afirmou que sua intenção é "construir um estúdio liderado por uma maioria de mulheres, salvar 150 empregos e criar um fundo para indenizar as vítimas de Weinstein".

Também neste curto espaço de tempo, outros denunciados se juntaram a Weinstein. Kevin Spacey, o mais famoso deles, viu sua carreira também virar pó. A reação mais pesada foi de Ridley Scott, que cortou o astro de House of cards do filme Todo o dinheiro do mundo. Filmou todas as cenas do personagem de Spacey com Christopher Plummer – que recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, a única do longa.

A reação ao escândalo sexual veio a cavalo. A hashtag #MeToo (eu também) passou a dominar postagens nas redes sociais, após uma sugestão da atriz Alyssa Milano. Com mais e mais mulheres fazendo uso da hashtag, a noção da magnitude do problema seria maior. O nome MeToo veio de um movimento criado em 2007 pela norte-americana Tanara Burke para apoiar vítimas de abuso em comunidades pouco privilegiadas.

A proliferação das denúncias fez com que as poderosas de Hollywood lançassem, em 1º de janeiro, o movimento Time’s up (o tempo acabou), para combater o assédio. Natalie Portman, Jessica Chastain, Nicole Kidman estão entre as apoiadoras da iniciativa, que tem como principal missão a criação de um fundo de defesa legal para auxiliar vítimas de assédio sexual.

A atriz britânica Emma Watson doou recentemente 1 milhão de libras para o recém-criado Justice and Equality Fund (Fundo para a Justiça e a Igualdade), movimento muito similar ao Time’s up.

MULHERES DE PRETO
A união de atrizes, diretores e produtoras nessas iniciativas acabou gerando as ações midiáticas que marcaram as cerimônias de premiação prévias ao Oscar. Foi a partir do Time’s Up que vieram o “Globo de Ouro negro”, em que mulheres e homens vestiram-se de preto. A iniciativa foi repetida na recente edição do Bafta, o chamado “Oscar britânico”.

Outras premiações também buscaram deixar uma marca. No César, o “Oscar francês”, o repúdio veio por meio de uma fita branca; no Goya, o “Oscar espanhol”, de um leque vermelho.

Já o Festival de Berlim, a competição alemã que abre, anualmente, a temporada de eventos do gênero, teve uma edição também ao sabor do #MeToo. O diretor do festival, Dieter Kosslick, afirmou ter descartado durante a seleção filmes cujos diretores ou atores eram alvo de acusações de abusos sexuais. O vencedor do Leão de Ouro foi Touch me not, misto de documentário e ficção sobre sexo e intimidade dirigido pela cineasta romena Adina Pintilie. Outras três produções dirigidas por mulheres também estavam na competição principal do evento.

O debate, no entanto, tem outras vozes. Logo após o Globo de Ouro, em janeiro, um artigo publicado pelo diário francês Le Monde e assinado por 100 mulheres, encabeçadas pela diva Catherine Deneuve, apontou “puritanismo” na onda de denúncias que tomou conta de Hollywood e argumentou que a posição assumida pelas denunciantes vitimiza e fragiliza as mulheres e se aproxima de uma espécie de feminismo conservador, que odeia os homens.

O cineasta austríaco Michael Haneke, duas vezes vencedor da Palma de Ouro em Cannes, afirmou que o #MeToo se tornou uma “caça às bruxas”. “Preocupame esse novo puritanismo, impregnado de ódio aos homens, que nos chega no rastro do movimento #MeToo”, afirmou o diretor de A fita branca (2009) e Amor (2012).

Também na esteira do movimento, Woody Allen voltou às manchetes. Sua filha adotiva Dylan Farrow foi à TV americana falar sobre o abuso que ela teria sofrido de Allen quando tinha 7 anos de idade. A denúncia, feita há 25 anos por Mia Farrow durante seu tumultuado processo de disputa pela guarda dos filhos com o cineasta, foi investigada, e a polícia concluiu que não havia evidências do crime.

No entanto, atrizes (Mira Sorvino, Greta Gerwig, Rebeca Hall) e atores (Colin Firth) que trabalharam com o diretor decidiram ir a público agora para repudiá-lo e declararam se arrepender de ter colaborado com ele. Protagonista do próximo filme de Allen, Rainy day in New York (cujo lançamento está ameaçado) e indicado ao Oscar por Me chame pelo seu nome, o ator Timothée Chalamet decidiu doar para o Time’s Up o cachê recebido pelo filme.

Nesse contexto, a cerimônia desta noite será, certamente, histórica. Deve marcar não só o fim da temporada polêmica, mas também o início de um novo período em Hollywood. “A Academia está em uma encruzilhada de mudanças”, disse recentemente John Bailey, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

DIAMOND FILMS/DIVULGAÇÃO
Com Mudbound %u2013 Lágrimas sobre o Mississippi, Rachel Morrison se tornou a primeira mulher a concorrer na categoria melhor fotografia. Ela fará história se levar o Oscar para casa (foto: DIAMOND FILMS/DIVULGAÇÃO)


Um Oscar histórico e potencialmente inédito 


O mico histórico de 2017 – quando Warren Beatty e Faye Dunaway, por um erro da Academia de Hollywood, anunciaram equivocadamente La la land: Cantando estações como vencedor do melhor filme, no lugar de Moonlight: Sob a luz do luar – pode ser superado de diversas maneiras nesta noite.

O Oscar pode virar história caso dê o prêmio de melhor documentário à produção francesa Visages, villages. Na direção, o filme tem o fotógrafo J.R. e a veterana cineasta franco-belga Agnès Varda, que, assim como o Oscar, também completa 90 anos em 2018.

Caso ela vença na categoria (o que é bem provável), será a pessoa mais velha a receber a estatueta dourada. Essa é também a primeira vez que Varda, chamada de “avó da Nouvelle Vague” e com seis décadas dedicadas ao cinema, foi indicada. Em novembro, ela recebeu o Oscar honorário pelo conjunto de sua obra.

Outro tiro certeiro que a Academia pode dar nesta noite é o prêmio de melhor diretor a Guillermo del Toro (e as bolsas de aposta dão isso como certo) por A forma da água. Vencendo, Del Toro será o terceiro cineasta mexicano a ganhar o Oscar em cinco anos. Algo assim é inédito na história da Academia. Vale lembrar que, junto aos outros dois vencedores – Alejandro González Iñárritu (O regresso) e Alfonso Cuaron (Gravidade) – ele forma o chamado grupo Os Três Amigos.

Será também um fato histórico em Hollywood se o prêmio de melhor fotografia for dado a Rachel Morrison, por Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi. Essa foi a primeira vez que uma mulher foi indicada na categoria. Embora o nome de Rachel esteja em alta pelo fato de ela assinar também a fotografia no megasucesso Pantera negra, o favoritismo ainda é de Roger A. Deakins, de Blade Runner 2049, que já foi indicado 14 vezes, mas nunca ganhou.

IDADE Também pouco provável é o prêmio de melhor ator para Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome), de 22 anos, que o transformaria no mais jovem vencedor na categoria. Nesse caso, todas as fichas estão sobre o nome de Gary Oldman pela sua excelente interpretação de Winston Churchill em O destino de uma nação. Mas,  com a indicação, Chalamet se tornou o terceiro mais jovem ator a entrar na categoria.
Outro ator, também por razões de idade, pode surpreender neste domingo. Caso vença como melhor coadjuvante por Todo o dinheiro do mundo, Christopher Plummer vai superar seu próprio recorde. Em 2012, aos 82 anos, ele se tornou o mais velho ganhador na categoria de coadjuvante por sua participação em Toda forma de amor. Hoje, ele está com 88 anos.

Jordan Peele é o primeiro cineasta negro a ser indicado aos prêmios de direção, filme e roteiro em um só ano – por Corra!. Com tais indicações, ele entrou numa lista (são 28 ao todo) em que figura, por exemplo, Billy Wilder. Também por Corra!, Peele se tornou o quinto diretor negro a ser indicado. Nenhum negro ganhou nessa categoria até hoje.
Já Yance Ford, que dirigiu o documentário Strong island, tornou-se a primeira pessoa trans a ser indicada por um longa-metragem. O filme trata da morte violenta de seu irmão e dos abusos cometidos pela polícia americana contra a população negra.
Mary J. Blige também conseguiu um feito no Oscar. Pela primeira vez, uma artista foi indicada, no mesmo ano, ao prêmio de atuação (atriz coadjuvante por Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi) e canção (Mighty river, do mesmo filme). As chances de ela vencer são pequenas, mas, com as duas indicações, ela já fez história. 


Confira os indicados nas principais categorias: 

Melhor filme


Me  chame pelo seu nome
O  destino de uma nação
Dunkirk
Corra!
Lady Bird – A hora de voar
Trama fantasma

The  Post – A guerra secreta
A  forma da água
Três  anúncios para um crime

Melhor direção

Dunkirk – Christopher Nolan
Corra! –  Jordan Peele
Lady  Bird – A hora de voar - Greta Gerwig
Trama fantasma – Paul Thomas Anderson
A  forma da água – Guillermo del Toro

Melhor atriz


Sally Hawkins – A forma da água
Frances  McDormand – Três anúncios para um crime 
Margot Robbie – Eu, Tonya
Saoirse Ronan – Lady Bird - A hora de voar
Meryl  Streep – The Post - A guerra secreta

Melhor ator


Timotheé  Chalamet – Me chame pelo seu nome
Daniel  Day Lewis –Trama fantasma
Daniel  Kaluuya – Corra!
Gary  Oldman – O destino de uma nação 
Denzel Washington – Roman J. Israel, Esq.

Melhor atriz coadjuvante


Mary  J. Blige – Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi
Allison Janney – Eu, Tonya
Laurie  Metcalf - Lady Bird - A hora de voar
Octavia Spencer – A forma da água
Lesley  Manville – Trama fantasma

Melhor ator coadjuvante

Willem Dafoe – Projeto Flórida
Woody Harrelson – Três anúncios para um crime
Richard Jenkins – A forma da água
Christopher  Plummer – Todo o dinheiro do mundo
Sam Rockwell – Três anúncios para um crime 

Melhor roteiro original


Doentes de amor
Corra!
Lady  Bird – A hora de voar
A  forma da água
Três anúncios para um crime

Melhor roteiro adaptado

Artista do desastre
Me  chame pelo seu nome
Logan
A  grande jogada
Mudbound  – Lágrimas sobre o Mississippi

Melhor animação

O  poderoso chefinho
Viva!  – A vida é uma festa
O  touro Ferdinando
Com  amor, Van Gogh
The  breadwinner

Melhor filme estrangeiro

Uma  mulher fantástica (Chile)
O  insulto (Líbano)
Sem  amor (Rússia)
The  square - A arte da discórdia (Suécia)
Corpo e alma (Hungria)

Melhor canção original

Remember  me – Viva! – A vida é uma festa - Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez
This  is me – O Rei do show –Benj Pasek e Justin Paul
Mighty  river – Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi  – Mary J. Blige, Raphael Saadiq e Taura Stinson
Mystery     of love – Me chame pelo seu nome - Sufjan Stevens
Stand  up for something – Marshall – Diane Warren e Lonnie R.  Lynn

Melhor fotografia

Blade runner 2049 – Roger Deakins
O  destino de uma nação – Bruno Delbonnel
Mudbound  – Lágrimas sobre o Mississippi – Rachel Morrison
Dunkirk – Hoyte van Hoytema
A  forma da água - Dan Laustsen

Melhor montagem


Em  ritmo de fuga
Dunkirk
Eu,  Tonya
A  forma da água
Três  anúncios para um crime

Melhor trilha sonora original


Dunkirk  – Hans Zimmer
Trama  fantasma – Jonny Greenwood
A  forma da água – Alexandre Desplat
Star  wars – Os últimos Jedi – John Williams
Três anúncios para um crime – Carter Burwell

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