Filme que substituiu astro de House of cards acusado de assédio chega aos cinemas

Todo o dinheiro do mundo, de Ridley Scott, é baseado num caso real de sequestro e excluiu Kevin Spacey, depois das denúncias de abusos sexuais

por Pedro Galvão 01/02/2018 08:00

DIAMOND FILMS/DIVULGAÇÃO
Christopher Plummer substituiu Kevin Spacey, acusado de assédio sexual (foto: DIAMOND FILMS/DIVULGAÇÃO)
O filme estava pronto para ser lançado, com estreia marcada para a mostra AFI Fest, em Los Angeles, no começo de novembro de 2016. No entanto, Todo o dinheiro do mundo foi acertado em cheio pelo turbilhão de escândalos que chacoalha Hollywood. Kevin Spacey, no papel do milionário J.P. Getty, peça fundamental da trama, foi retirado do filme pelo diretor Ridley Scott depois de se tornarem públicas denúncias de assédio sexual contra o astro de House of cards.

 

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A estreia do longa foi cancelada, e o elenco convocado para refilmar as cenas, desta vez com Christopher Plummer no lugar de Spacey. O que seria um thriller baseado em fatos reais sobre o sequestro do neto de um dos homens mais ricos do século passado tornou-se também a prova da proporção das consequências dos casos de assédio.

Scott nem sequer avisou Spacey de sua substituição. A refilmagem resultou num custo adicional de US$ 10 milhões ao orçamento e numa outra grande polêmica sobre a desigualdade em Hollywood – Mark Wahlberg ganhou US$ 1 milhão pelo retrabalho, enquanto Michelle Williams recebeu US$ 1 mil. Depois que essa informação se tornou pública, o ator anunciou que doaria seu cachê, em nome de Michelle, ao movimento Time’s Up, criado para combater o assédio e as diferenças de tratamento determinadas por gênero em Hollywood.

Nos Estados Unidos, o filme estreou na data inicialmente prevista: 22 de dezembro. Apesar de emergencial, a atuação de Plummer lhe valeu uma indicação como melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro (vencido por Sam Rockwell, de Três anúncios para um crime) e também no Oscar, cuja cerimônia será em 4 de março.

Plummer, de 88 anos, interpreta o homem mais rico do mundo nos anos 1970, dono da petrolífera Getty Oil, apresentado na trama como um capitalista voraz para multiplicar sua incontável fortuna e mais apegado aos bens materiais do que às pessoas, mesmo as de sua família.

RESGATE
É exatamente em cima disso que o enredo se desenvolve. O longa remonta ao sequestro do neto de J.P Getty na Itália, em 1973. Quem interpreta o garoto de 16 anos é Charlie Plummer, de 18, que, na vida real, não tem parentesco com Christopher, apesar do sobrenome em comum. Enquanto o garoto está nas mãos dos criminosos na Calábria, sua mãe, Gail (Michelle Williams), tenta desesperadamente fazer com que o bilionário pague o resgate, reivindicado por vários criminosos diferentes. Ele, por sua vez, é irredutível na recusa. Enquanto isso, não deixa de gastar milhões para adquirir novas obras de arte para seu acervo.

Nesse conflito aparece Fletcher Chase, personagem de Mark Wahlberg. Inicialmente, ele era funcionário de Getty e trabalhava fazendo alguns negócios escusos para o magnata, como pagamento de subornos e negociações complexas com proprietários de terras no Oriente Médio. A mando do patrão, Chase entra na investigação do caso, paralelamente à polícia italiana, que comete um engano atrás do outro.

Enquanto o garoto sofre no cativeiro, sua família não se entende sobre seu resgate. A mãe, divorciada de seu pai desde que ele se entregou ao vício em drogas, tem uma relação delicada com o ex-sogro. Chase defende os interesses do magnata, mas, ao mesmo tempo, precisa proteger Gail. Nesse processo, o personagem de Plummer, embora coadjuvante e antagonista, se torna o ponto principal do filme.

Embora Ridley Scott tenha se empenhado tanto em proteger seu filme de ser chamuscado por um escândalo, Todo o dinheiro do mundo é pouco empolgante e pouco convincente, embora fique clara sua intenção de fazer uma crítica irônica aos detentores de grandes fortunas.



AFP Photo
Spacey levou vários prêmios pelo papel de Frank Underwood em House of cards (foto: AFP Photo)
Entenda o escândalo de Kevin Spacey
Vencedor do Oscar de melhor ator por sua atuação em Beleza americana (2000) e do Globo de Ouro (entre outros prêmios) como o Frank Underwood de House of cards, Kevin Spacey teve sua brilhante carreira destruída em outubro do ano passado.

O também ator Anthony Rapp, hoje com 46 anos, contou ao portal de entretenimento e notícias Buzzfeed News que foi assediado por Spacey em 1986. Rapp tinha 14 anos na época e já atuava no teatro. Ele declarou que estava em uma festa na casa de Spacey, em um quarto, assistindo à TV, quando o ator, 12 anos mais velho, apareceu, aparentemente embriagado, empurrou-o para sua cama e se esticou sobre o adolescente, que teria fugido.

A denúncia encorajou outras pessoas, incluindo funcionários da Netflix, a publicar relatos de agressões sexuais por parte de Kevin Spacey. Diante disso, a empresa de streaming demitiu o ator, mesmo com o sucesso de House of cards, que já teve cinco temporadas exibidas desde 2013. Depois das denúncias, ele se pronunciou dizendo não se lembrar do episódio descrito por Anthony Rapp, mas se desculpando. Spacey também se declarou homossexual e se internou em uma clínica de recuperação para viciados em sexo.

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