Enquanto ganha força nos EUA, participação feminina no audiovisual dá passos tímidos para aumentar no Brasil

Na contramão da tendência norte-americana, presença das mulheres na frente e atrás das câmeras de filmes e séries ainda é baixa

por Ana Clara Brant 31/01/2018 08:00
‘‘Não vivemos mais nos espaços em branco no canto das páginas. Não vivemos mais nos buracos entre as histórias. Somos as histórias e estamos escrevendo nossas próprias histórias.” Foi com palavras da escritora Margaret Atwood que a atriz Elisabeth Moss agradeceu o prêmio de melhor atriz em série dramática no Globo de Ouro deste ano por seu papel na série The handmaid’s tale, baseada na obra homônima da autora canadense. Encomendada pelo serviço de streaming Hulu, a produção também ficou com o prêmio de melhor série de drama.

Na história, as taxas de fertilidade caíram drasticamente devido à poluição ambiental e a doenças sexualmente transmissíveis. Nesse cenário caótico, um grupo cristão fundamentalista toma o poder nos EUA e estabelece um regime totalitário, a “República de Gilead”. O papel das mulheres é extremamente limitado. Elas não podem trabalhar, ter conta em banco, nem ao menos ler. As poucas que ainda podem ter filhos são transformadas em handmaids (aias), ou seja, escravas sexuais designadas, cada uma, para uma família da elite de Gilead, com o único propósito de engravidar.

Outro título premiado no Globo é Big little lies (HBO), criada a partir da obra homônima da australiana Liane Moriarty. Além de ser escrita por uma mulher, a produção é estrelada por um time de estrelas: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley e Laura Dern. Concorrendo na categoria melhor minissérie ou filme para a TV, Big little lies levou os prêmios de melhor atriz (Nicole Kidman), melhor atriz coadjuvante (Laura Dern), melhor ator coadjuvante (Alexander Skarsgard) e melhor minissérie para TV. No agradecimento, as atrizes citaram o “poder das mulheres”.

Se nos Estados Unidos a tendência de as mulheres conquistarem mais espaço na indústria do audiovisual ganha impulso, no Brasil, por outro lado, o avanço se dá a passos muito lentos. A Agência Nacional do Cinema (Ancine) reconhece a baixa participação de mulheres no setor e tem estudado ações para equilibrar a concessão de financiamento público. Segundo levantamento divulgado pela Ancine na semana passada, dos 142 longas-metragens brasileiros lançados comercialmente em salas de exibição em 2016, 75,4% foram dirigidos por homens brancos. As mulheres brancas assinam a direção de 19,7% dos filmes, enquanto apenas 2,1% foram dirigidos por homens negros. Nenhum filme em 2016 foi dirigido ou roteirizado por uma mulher negra.

A pesquisa indicou o domínio de homens brancos não apenas na direção, mas nas principais funções de liderança no cinema, o que evidencia que as histórias exibidas nas telas do país, produzidas por brasileiros, têm sido contadas majoritariamente do ponto de vista masculino: 68% deles assinam o roteiro dos filmes de ficção, 63,6% dos documentários e 100% das animações brasileiras de 2016. Os homens dominam também as funções de direção de fotografia (85%) e direção de arte (59%).

“Esse relatório da Ancine mostra que realmente a coisa não é fácil. Mas a gente percebe que, nos últimos anos, há uma abertura do mercado nacional para funções criativas para as mulheres, até com os editais afirmativos, que têm cotas ou uma pontuação extra para cada mulher na função de roteiro, produção, direção e direção de fotografia. Todas essas funções sempre foram tradicionalmente ocupadas por homens”, afirma a roteirista paulista Laura Barile, que há quatro anos mora em Belo Horizonte.

No entanto, Laura acredita que, quanto mais se discutir e se escancarar essa discrepância que os dados da Ancine evidenciam, mais perto estaremos de mudar a realidade em relação ao espaço das mulheres no setor. “E não só contar, escrever ou protagonizar. Mas dirigir, produzir, para termos uma visão mais plural do mercado”, defende.

HOLLYWOOD
Na opinião da roteirista, as recentes denúncias de assédio em Hollywood, que geraram iniciativas como o #MeToo e o Time’s Up, acabaram gerando maior consciência de que histórias com protagonistas femininas também fazem sucesso. “Era um grande mito do mercado de que isso não gerava público, renda e, por isso, não faziam (essas produções). Mas perceberam que histórias sobre mulheres geram até mais público do que as histórias masculinas, inclusive, porque é um olhar novo e fresco, algo de que o mercado está precisando”, avalia.

A 21ª Mostra de Tiradentes, encerrada no sábado passado, também não se esqueceu da força feminina e, pela primeira vez na história do festival, premiou uma atriz trans, Julia Katharine, que recebeu o troféu Helena Ignez, dedicado ao destaque feminino. Julila Katharine recebeu o prêmio por seu trabalho no documentário Lembro mais dos corvos, em que atua, além de assinar o roteiro.

“Acho que há muito tempo as mulheres não tinham um momento de fala tão importante como este. Tudo que está acontecendo tem sido muito inspirador para todas nós, ainda mais com esse movimento contra o assédio. É importante nós mostrarmos a nossa voz, porque ainda temos um espaço bem menor do que os homens, que estão aí sendo aclamados, premiados”, diz. Pelo fato de ser trans, Julia celebrou ainda mais sua conquista e fez questão de dedicar o prêmio às mulheres “trans, às travestis e às mulheres cis também, porque nós somos todas uma só. Somos todas mulheres”, declarou.

O longa tem participação acertada num festival de documentários em março, na França, e também na versão paulista da Mostra de Tiradentes, no mesmo mês. No filme, Julia Katharine conta a história de sua vida por meio de um monólogo. A intimidade da personagem é exposta com relatos reais de resistência e autoaceitação. “Eu já tinha essa ideia de contar a minha própria história, mas tive a preocupação de focar em temas que muitas mulheres, não só as trans, se identificassem e até os homens em algum momento. A questão do abuso, do assédio, do preconceito. Algumas coisas são reais e outras, não. A ideia era essa mesma – deixar o espectador sem saber o que é ficção e o que é realidade”, afirma.

Dirigido por Gustavo Vinagre, com quem Júlia já havia trabalhado anteriormente – ela protagonizou dois curtas do diretor (Os cuidados que se têm com o cuidado que os outros devem ter consigo mesmos (2016) e Filme-catástrofe (2017) – o documentário foi filmado em uma noite, precisamente na data em que a atriz conseguiu mudar o seu nome e gênero nos documentos oficiais. “Foi uma vitória após uma luta de quatro anos. E ter rodado esse filme justamente nesse dia coroou todo o processo. Desde então, as coisas estão acontecendo de uma forma muito natural e orgânica na minha carreira. Não quero reivindicar o meu lugar com briga, disputa, ódio. Quero o meu espaço com tolerância e amor”, diz.

Júlia espera que Tiradentes sirva de exemplo para outros festivais de cinema premiarem e darem mais espaço não só às pessoas trans, mas às mulheres. “O cinema feminino tem muito a colaborar com a formação da sociedade. É fundamental que a fala e o poder delas sejam tão grandes como os deles. Essa igualdade no mercado audiovisual é positiva para todos os gêneros. Temos, sim, que nos inspirar nessa marcha das mulheres nos Estados Unidos, mas fazer o nosso movimento de acordo com a nossa realidade”, argumenta.

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