#ElePodeNãoTeBater: saiba reconhecer a violência psicológica no relacionamento

Naturalizar comportamentos de autoridade masculina e submissão feminina corroboram práticas violentas. Campanhas na internet ajudam vítimas a entender e a lutar contra esse mal

por Estado de Minas 06/06/2016 13:16

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Lelis / EM / D.A Press
A Lei Maria da Penha define a violência psicológica como qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou que prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher e pretenda degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões (foto: Lelis / EM / D.A Press)
Ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, agressão não precisa ser física para ser violenta. Perseguir, insultar, manipular, ameaçar, violentar animais domésticos e quebrar pertences, coagir a ponto de a vítima fazer coisas que ela não queira, humilhar e chantagear não são 'coisas de casal' e têm nome: violência psicológica. A Lei Maria da Penha define a violência psicológica como qualquer conduta que cause dano emocional, diminuição da autoestima ou que prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher e pretenda degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.

Mas algumas dessas condutas chegam a ser vistas com normalidade e ganham a cumplicidade de muitas pessoas que rodeiam casais que passam por isso. “Há um potencial de reação muito maior sobre a violência física. O episódio do estupro coletivo contra a adolescente no Rio mostra isso. Mas temos muita tolerância sobre a violência psicológica”, observa Cláudia Natividade, professora da Faculdade de Ciências Médicas Fead. Para romper o silêncio e ajudar vítimas a reconhecerem e denunciar seus casos, as redes sociais foram, mais uma vez, usadas, por meio da hashtag #elepodenãotebater.

A aderência das mulheres ao movimento virtual começou depois que a escritora e artista americana Zahira Kelly começou campanha no Twitter para falar de violência psicológica, abuso emocional e seus danos. “Ele pode não te bater, mas reclama da sua barriga depois que vocês tiveram filhos e diz para você emagrecer antes que ele consiga uma menina de 15 anos, mais bonita”, foi a primeira postagem de Zahira. Com a adesão de mais mulheres, a hatshtag #maybehedoesnhityou ganhou versão em português no Twitter e Facebook.

“Ele pode não te bater, mas você o viu socar tantas paredes e destruir objetos, que você se pergunta se será a próxima”, postou uma internauta. “Participei e fiz inúmeras narrativas, experiências minhas e de mulheres que conheço. A circulação dessas histórias, associadas com a palavra 'violência', pode ajudar mulheres a reconhecer como violenta a relação em que estão”, diz Érika de Almeida, socióloga e feminista, que registrou circunstâncias em que a mulher duvida da própria saúde mental, da capacidade intelectual e das roupas que veste. “Ele pode não te bater, mas apontará cada aspecto ruim em pessoas ou coisas que você gosta até que você acredite que ele é a única pessoa ou coisa boa para você”, foi uma das mais compartilhadas.

CUIDADOS
Natividade, que também é membro do Conselho Regional de Psicologia de Minas Gerais, aponta que a violência não está só em atos com danos ativos, mas também no que parece cuidado. “Práticas cotidianas como o paternalismo, o querer fazer tudo pela mulher, protegê-la de discutir determinados assuntos, perguntar o tempo todo onde ela está e com quem está também cria efeitos como a exclusão, fazendo com que as mulheres sejam vistas e entendidas como incapazes de decidir, de opinar, de se cuidar”, diz. “Vemos um homem dizer 'cuide das crianças porque eu não tenho jeito pra isso', como se esse jeito já viesse na mulher, mas isso são projetos a serem aprendidos. Essas atribuições são feitas como naturais, mas não culturais, são construções”, adverte a psicóloga.

A agressão disfarçada de zelo é um dos fatores para que relacionamentos abusivos continuem. Para Cláudia, aspectos pessoais e culturais podem ser analisados. “A cultura do amor romântico diz que existe uma pessoa que é sua cara metade e que você deve encontrá-la. Outro fator forte é o desejo de que as relações sejam sacramentadas a partir de um recorte religioso, como quando a igreja diz que o que Deus uniu, o homem não separa. Já o aspecto pessoal mostra que há insegurança e sentimento de que a mulher não seja suficientemente completa e, por isso, depende de outra pessoa que a defina e complete”, exemplifica a especialista.

NEGAÇÃO
Pollyana Lage, estudante de psicologia, pesquisa o tema, com foco em relacionamentos adolescentes. Ela diz que a violência psicológica é pouco falada, pesquisada e estudada, mas é a mais duradoura e modifica a pessoa inteiramente, afetando a construção da identidade. “As marcas são invisíveis. Não posso dizer que não estou bem para ir ao trabalho, em razão de um sofrimento psicológico”, alega. Para Cláudia, naturalizar posições de autoridade e submissão só engrossam o coro do abuso. “Assistimos às pessoas dizendo que namoro ou casamento são assim mesmo, que é preciso insistir e tentar. Isso cria névoa nos relacionamentos violentos e os protege.”

As pessoas ao redor podem ajudar. Como a vítima se coloca em dúvida, quem está em volta pode incentivá-la a falar, fazê-la se sentir ouvida e que seu relato não é exagero ou loucura, de acordo com Pollyana. “Fazer aquela pessoa se ouvir falando sobre o próprio relacionamento a faz perceber que aquilo não está lhe fazendo bem. Existem psicólogas especializadas em violência no SUS e em faculdades, que não cobram as consultas. Quem está perto deve dar apoio e mostrar que existem outras formas de viver e amar”, defende.

As discussões feministas também são importantes. Movimentos feministas sempre tiveram a intenção de trabalhar com grupos de mulheres e, nesses espaços, as vítimas podem reconhecer vozes, desejos, experiências. “Há um rechaço social sobre o feminismo e um sistema político e de estratégia de desapossamento das lutas das mulheres, mas o feminismo é importante e necessário”, afirma Cláudia.

APOIO NA INTERNET
O fácil acesso às redes sociais dá a sensação de acompanhamento, estimula a reflexão e cria sistemas de conscientização. “Depois do uso das hashtags, várias mulheres passaram a procurar umas às outras para dizer 'acho que estou em uma relação que me violenta' e vão atrás de ajuda. E ainda há quem diga que o 'ativismo de sofá' não dá auxílio real às vítimas desses crimes”, ressalta Érika de Almeida. As correntes virtuais também criam espaços de sororidade, que é a irmandade entre mulheres, e levam os homens a pensar em suas condutas. “Eles são convidados a serem aliados, não nossos controladores, vigilantes, e sim parceiros convocados a compor relações horizontais, de confiança, em que haja liberdade entre as pessoas”, finaliza Cláudia.

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