Cientistas americanos criam colírio que cura a catarata

O resultado foi obtido em experimentos com cães depois de seis semanas de tratamento. Cientistas dos EUA se preparam para testar o remédio em humanos

por Paloma Oliveto 30/07/2015 14:30

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O tratamento reduziu uma quantidade significante da proteína que fica agregada no cristalino (foto: freeimages.com)
A catarata é a maior causa de cegueira reversível no mundo. Basta uma cirurgia. Medicamentos que acabem com a lesão ocular, porém, ainda não existem. Um colírio desenvolvido por cientistas norte-americanos pode mudar esse cenário. O remédio tem como base uma substância pouco produzida pelo organismo de pessoas que sofrem com o problema desde o nascimento. Testado em cachorros, apresentou resultados promissores, divulgados na revista Nature. O próximo passo será repetir o experimento com humanos.

A busca por uma alternativa ao tratamento da catarata partiu de uma investigação sobre origens da doença. “Estudamos duas famílias cujas crianças nasceram com catarata e encontramos uma substância em falta: o lanosterol”, explicou ao Correio Kang Zhang, autor principal e pesquisador da Universidade da Califórnia. A substância é produzida pelo olho e atua na estabilização de proteínas que podem se acumular, causando a catarata.

Detectada a ação do lanosterol, os pesquisadores desenvolveram um colírio com a substância e o aplicaram em cachorros que sofriam de catarata. Após seis semanas de tratamento, os animais mostraram melhora considerável. Testes com coelhos apresentaram o mesmo resultado. “O tratamento reduziu uma quantidade significante da proteína que fica agregada no cristalino, reduzindo a gravidade da catarata em cães. Nosso estudo aponta o lanosterol como uma nova estratégia para a prevenção de catarata e o tratamento dela”, defendem os autores no texto divulgado.

Valdo Virgo/CB/D.A.Press
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A.Press)


Mais testes
Os cientistas acreditam que o resultado pode ser repetido em humanos e adiantam que a próxima etapa da pesquisa tem esse objetivo. Bruno Ricardo Prieto, oftalmologista especialista em cirurgia de catarata, avalia que são necessárias mais investigações até se chegar à possível aplicação clínica do tratamento. “É um trabalho muito interessante, porém precisamos de mais testes, os animais com maior semelhança ocular conosco são os suínos, não os cães, ou seja, o mesmo efeito pode não ser repetido”, observa o médico do Visão Institutos Oftalmológicos, em Brasília.

Prieto frisa também que a cirurgia traz mais do que a cura da catarata. “Ela garante que o problema não retorne e ainda corrige falhas de grau, conseguindo uma recuperação de visão ainda maior”, complementa. Segundo o oftalmologista, por ano, 4 milhões de pessoas no mundo são submetidas a esse procedimento. “É a cirurgia mais realizada no mundo e a que mais evolui tecnicamente”, ressalta o especialista.

Para Milton Yogi, chefe do Setor de Catarata da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos fortes da pesquisa divulgada na revista Nature está no fato de ela apontar para fatores moleculares envolvidos na formação da catarata e, consequentemente, para formas de intervir na evolução da lesão ocular. “Essa fase de pesquisa, no entanto, ainda é um tanto distante da realidade prática para nós. Porém, todo esse tipo de esforço tem grande validade, pois se soma a tantas outras pesquisas em paralelo que, juntas, podem trazer luz a um tratamento seguro e eficiente”, pondera.

A possibilidade de enfrentar a catarata de uma forma menos invasiva e mais barata também chama a atenção de Yogi. “A pesquisa aponta para tendências de tratamento não cirúrgico, o que certamente seria de grande valia para a população. Apesar de muito segura, qualquer cirurgia apresenta riscos inerentes, além de necessitar de complexa logística, recursos financeiros e profissionais especializados”, justifica o especialista, ressaltando que há linhas de estudo focando no uso de células-tronco e nanotecnologia.


Partida valiosa
“Esse trabalho fornece alguns novos insights sobre a catarata hereditária e possível tratamento para a relacionada à idade. Muitos dos pontos individuais terão de ser confirmados e ampliados, mas fornecem um ponto de partida valioso para uma nova direção de pesquisa. Eu acredito que esse tratamento pode fornecer uma base lógica para eventual terapia, preventiva ou paliativa. Há muitos estudos e trabalhos a serem feitos antes que testes em seres humanos possam ser considerados. Eu acredito que o trabalho apresentado nesse artigo é extremamente interessante e potencialmente importante”
James Fielding Hejtmancik, pesquisador do National Eye Institute (EUA)


Olho biônico recupera a visão
Um homem de 80 anos conseguiu recuperar parte da visão após receber um olho biônico, instrumento que transmite imagens de vídeo de uma câmera em miniatura instalada nos óculos. Ray Flynn sofria de degeneração macular associada à idade, doença que provoca a perda da visão gradativamente. O dispositivo foi implantado no aposentando em junho e ativado em 1º de julho. “A evolução do senhor Flynn é realmente notória. Ele pode ver o contorno das pessoas e dos objetos”, disse Paulo Stanga, professor da Universidade de Manchester, no Reino Unido, e responsável pela operação, que durou quatro horas.

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