Doenças físicas crônicas podem desencadear depressão

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), problema que atinge 350 milhões de pessoas no mundo

por Paloma Oliveto 12/06/2015 15:00

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Junot Lacet/DB/D.A Press
Resultados de pesquisa indicam que depressão é uma comorbidade das doenças crônicas (foto: Junot Lacet/DB/D.A Press)
Eventos traumáticos, perdas, situações estressantes ou mesmo predisposição genética são fatores conhecidos por trás da depressão. Contudo, muitas vezes, doenças aparentemente sem qualquer relação com o problema podem ser o gatilho de um transtorno mental que afeta 350 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Somente neste mês, três novas pesquisas evidenciaram a ligação de Parkinson, diabetes e apneia do sono com episódios depressivos, também associados anteriormente a males como asma, hipertensão e esclerose múltipla.

Os autores dos estudos ressaltam a necessidade de avaliar os pacientes desses males para verificar se apresentam sinais e sintomas da depressão. “Os resultados de pesquisas epidemiológicas sugerem que a depressão é uma comorbidade das doenças crônicas. Conhecer e tratar essa interação parece crucial para lidarmos efetivamente com as comodidades, melhorando as perspectivas de saúde e qualidade de vida dos pacientes”, observa Frank J. Snoek, pesquisador do Departamento de Psicologia Médica da Universidade de Amsterdã.

Apesar de avanços no diagnóstico e no tratamento da depressão, observados nas últimas décadas, esse é um distúrbio que ainda não foi totalmente esclarecido. O quadro é complexo e envolve questões sociais, psicológicas e biológicas. No caso da associação com outras doenças, as causas também são múltiplas. Pacientes com Alzheimer, por exemplo, parecem propensos à depressão devido às alterações que a enfermidade neurodegenerativa provoca nas células do cérebro. Lesões nos tecidos cerebrais também seriam a causa dos sintomas depressivos em pessoas com esclerose múltipla e em indivíduos que sofreram derrame cerebral. Já em alguns tipos de câncer, a depressão estaria mais associada ao estresse provocado pelos prognósticos da doença.

Principal autor de um artigo publicado na revista médica The Lancet, no qual investiga a relação de diabetes e depressão, Frank J. Snoek diz que, no caso do distúrbio metabólico, as causas ainda são muito pouco compreendidas. O especialista ressalta que os sintomas depressivos estão presentes em cerca de 20% dos pacientes de diabetes em todo o mundo. “É um problema que afeta negativamente a qualidade de vida e os resultados esperados dos tratamentos”, assinala o especialista em diabetologia psicossocial. “Como o mecanismo por trás dessa comorbidade não foi totalmente solucionado, não temos ainda ferramentas adequadas para nos adereçarmos ao problema”, lamenta.

De acordo com Calum D. Moulton, pesquisador do departamento de medicina psicológica do King’s College London, há um corpo crescente de evidências de que diabetes 2 e depressão compartilham origens biológicas. Isso, em parte, pode explicar a comorbidade. Ele explica que ambas condições podem ter origem na hiperativação da imunidade inata, isto é, um excesso de atividade do sistema de defesa do organismo. Em consequência, ocorre uma inflamação que, por sua vez, desregula a comunicação entre importantes produtores de hormônios. “Esses padrões podem levar à resistência à insulina, a doenças cardiovasculares, à depressão e a um risco aumentado de diabetes 2. A depressão pode ser uma resposta às inflamações das citocinas (moléculas do sistema imunológico) no cérebro”, afirma Moulton. Para ele, a compreensão das bases fisiológicas da diabetes e da depressão vai ajudar a prevenir o desenvolvimento das duas doenças em pessoas com sistema imune hiperativo.

Sono
Há muito tempo, médicos e cientistas sabem que existe uma associação entre distúrbios do sono e depressão. Enquanto alguns especialistas acreditam que dormir mal seja um sintoma do quadro depressivo, Carol Lang, pesquisadora da Universidade de Adelaide, na Austrália, pensa que a relação pode ser outra. Para ela, é possível que alguns transtornos, como apneia severa e sono excessivo durante o dia, possam, de fato, causar depressão.

No início do mês, Lang apresentou um trabalho na Conferência Internacional da Sociedade Torácica Americana, realizado com 2 mil homens entre 35 e 83 anos. Aqueles que se queixavam de muita sonolência diurna tinham risco 10% maior de também sofrerem de depressão. Embora nenhum tenha sido diagnosticado com apneia severa ao entrar no estudo, 857 acabaram sendo identificados com essa condição ao longo da pesquisa. Esses tinham 2,1 vezes mais probabilidade de serem deprimidos, comparado aos que não apresentavam distúrbio do sono. No caso dos que, além da apneia, sofriam de sonolência diurna excessiva, o risco era ainda maior: 4,2 vezes.

Os participantes foram examinados para depressão no início do estudo e cinco anos após o término da pesquisa. Aqueles cuja apneia severa foi descoberta durante a investigação apresentaram risco 2,9 vezes maior de se tornarem depressivos passada meia década. “É um associação muito forte. Os médicos devem ficar atentos a essa comorbidade e buscar sintomas de depressão nos pacientes que os procuram com problemas de sono, como apneia e sonolência excessiva.”, diz Carol Lang.

Embora o estudo não tenha sido proposto para buscar as causas dessa relação, a pesquisadora acredita que os problemas de sono acabem desencadeando a depressão, e não o contrário. De fato, uma pesquisa semelhante, realizada em 2012, sugeriu que, ao diminuir o fluxo de oxigênio no cérebro, a apneia pode provocar danos que desencadeiam sintomas depressivos.

No caso do mal de Parkinson, parece ocorrer o contrário, segundo um estudo sueco, publicado no jornal Neurology. Os pesquisadores da Universidade de Umea analisaram dados epidemiológicos referentes a toda a parcela da população do país nórdico que, em 2005, estava com mais de 50 anos. Ao longo de 26 anos, 1.485 pessoas foram diagnosticadas com Parkinson. Elas representam cerca de 1% dos indivíduos que, em algum ponto da pesquisa, haviam sofrido quadros depressivos. Já entre os suecos que não tiveram depressão no período estudado, o percentual dos que desenvolveram Parkinson foi menor: 0,4%.

“Nós vimos uma ligação entre depressão e Parkinson ao longo de mais de duas décadas, então a depressão deve ser um sintoma muito precoce do Parkinson ou um fator de risco”, observa Peter Nordström, principal autor do estudo. Ele ressalta que isso não significa que pacientes deprimidos terão o mal neurodegenerativo em algum ponto de suas vidas, mas que alguns deles poderão desenvolvê-lo. “Indivíduos que sofrem de depressão devem ficar atentos aos primeiros sintomas de Parkinson, como tremor de mãos. Muitas pessoas só procuram ajuda médica quando esses sinais são mais exacerbados e mais difíceis de contornar”, afirma. A associação entre Parkinson e depressão ganhou as manchetes dos jornais americanos no ano passado, quando o ator Robin Williams morreu. A mulher do comediante afirmou que ele estava lutando contra os dois males.

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