Literatura pode ser aliada para abordar temas 'proibidos' com crianças

Apresentar aos meninos e meninas situações diferentes da do cotidiano e abrir espaço para o novo é também um caminho para aproximar livros e leitores

por Valéria Mendes 01/06/2015 09:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Arquivo Pessoal
A fisioterapeuta Josie Rocha encontrou na literatura um caminho para conversar com a filha Cecília, 3 anos, sobre medo (foto: Arquivo Pessoal )
É consenso que incentivar o hábito de leitura desde a infância favorece o desenvolvimento da linguagem, a criatividade e amplia o conhecimento. Reservar diariamente um tempo para contar histórias a meninos e meninas, no entanto, não é suficiente para aproximar livros de leitores. Ler precisa ser um desejo e despertar essa motivação dentro de cada um é o grande desafio para inserir as crianças na cultura da escrita. Para isso, deixe de lado os livros do ‘personagem preferido’ e também aqueles de abordagem excessivamente funcional que ocupam cada vez mais as estantes das livrarias e servem para “ajudar” as famílias a convencer as crianças de que elas precisam fazer o que deve ser feito como escovar os dentes, tomar banho, emprestar brinquedos, largar a fralda ou chupeta. Encare, junto com os pequenos, os assuntos difíceis e as fantasias que vão estimular a imaginação.

Coordenadora da rede de bibliotecas públicas e dos projetos para a promoção da leitura da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, Fabíola Farias defende que os livros com temas incômodos não deveriam ser interditados a crianças e jovens. Para ela, assuntos como morte, sexualidade, tristeza, violência, doença e religião não deveriam ser colocados no “alto da estante”, mas vistos como uma oportunidade de se deslocar da vida imediata e uma possibilidade de encontro com o que ainda é desconhecido. “As crianças, desde que nascem, sonham, se angustiam, sentem medo e também fantasiam. Às vezes se calam, mas também sabem que podem falar”, afirma a especialista.

E foi assim com Cecília, 3 anos. Mais do que a oportunidade de se expressar, a fala da garotinha foi acolhida com uma escuta atenta que alcançou nas lembranças da infância da mãe um caminho para lidar com a angústia da menina. A fisioterapeuta Josie Rocha, 33 anos, é mãe também de Elis, 1 ano, e conta que foi na literatura que encontrou a solução para o medo que a filha mais velha passou a sentir de quase tudo depois de uma festa de aniversário infantil em que o barulho de fogos de artifício assustou a garotinha profundamente. “Ela passou a ter pânico em várias situações, não podia ouvir a canção do ‘parabéns pra você’, não queria dormir sozinha, só queria ficar perto de mim e do pai. Antes disso, ela era bem resolvida em relação a todas essas questões”, relata.

Foi então que Chapeuzinho Amarelo retornou às mãos da fisioterapeuta. A mãe de Josie se recordou do tempo em que lia para a filha o texto de Chico Buarque de Holanda e sugeriu que a obra fosse apresentada à netinha. O “livro velhinho” alcançou o status de preferido da Cecília e é o que ela carrega para todo lado. “Minha mãe me lembrou que lia esse livro para mim quando eu era criança. Ele fala justamente do medo que uma menina sente do lobo e que deixa de fazer tudo por causa disso. Comecei a ler aos poucos para a Cecília, falamos sobre os medos dela, sobre os meus medos e, um dia, numa situação em que demonstrei receio, ela me disse: ‘Mamãe, você não precisa ter medo, eu não tenho mais medo de dormir sozinha’. Desenvolvemos uma relação bacana sobre esse tema, a Cecília já sabe o que é coragem e superou esse trauma”, diz.

A história de Cecília e Josie ilustra bem o pensamento da educadora colombiana Yolanda Reyes em seu artigo intitulado A substância oculta dos contos: “Porque, no fundo, os livros são isso: conversações de vida. E sobre a vida, sim, é urgente aprender a conversar”. Assim, encarar os ‘temas difíceis’ e usar a literatura para mediar essa relação, além de determinar um espaço de liberdade para a criança e de desejo pelo conhecimento, pode ser também, segundo Fabíola Farias, uma forma de consolidar aquele ser humano como leitor.

Não pense você que ler um livro toda noite para uma criança é suficiente para fazer com que ela se interesse pela literatura no futuro, ainda mais se o que é apresentado repete o que é vivido no cotidiano. Para a coordenadora da rede de bibliotecas públicas de BH, a literatura deve abrir espaço para o novo e apresentar algo diferente de tudo o que se saiba até aquele momento. “A visão pragmática da cultura da escrita - aquela coisa prática de saber ler e escrever para mandar um bilhete ou entender um contrato - não é suficiente para alimentar o desejo pela literatura”, afirma. Tanto é assim que pesquisa divulgada pela Federação do Comércio do Rio de Janeiro sobre os hábitos culturais no país mostra que 70% dos brasileiros não leram um livro sequer em 2014.

Pela sua experiência em bibliotecas e atividades para promoção da leitura, Fabíola Farias diz que a lista de temas proibidos nas famílias cresce cada vez mais, mesmo que a realidade apresente esses assuntos às crianças. Para ela, em razão de valores ou religião, existe uma limitação dentro do próprio núcleo familiar, que sempre vai impedir que os livros saiam desse “alto da estante”, metáfora que usa para simbolizar o silêncio que se faz sobre determinados assuntos como, por exemplo, as relações homoafetivas em relação aos dogmas religiosos. Por isso, segundo a especialista, escolas e bibliotecas têm a função de preencher essa lacuna.

Edesio Ferreira/EM/D.A Press
"Porque, no fundo, os livros são isso: conversações de vida. E sobre a vida, sim, é urgente aprender a conversar" - Yolanda Reyes (foto: Edesio Ferreira/EM/D.A Press)


Fabíola Farias, que está entre os 26 leitores votantes da Fundação Nacional Infantil e Juvenil que premia os melhores títulos publicados no Brasil anualmente para crianças e adolescentes, selecionou, a pedido do Bem Viver, alguns livros que possam ajudar a aproximar as crianças de “temas incômodos que expõe a nossa fragilidade e a dificuldade de estar num mundo que, muitas vezes, insiste em não nos escutar e resiste em não se fazer compreensível”. Aproveite as dicas:

Lá e aqui
de Carolina Moreyra e Odilon Moraes
Uma criança narra a história da separação dos pais.

Íris, uma despedidao
de Gudrun Mebs e Beatriz Martín Vidal
Pelo olhar da irmã mais nova, a história da doença terminal de Íris é narrada do diagnóstico à morte.

O nascimento, as crianças e amor
de Agnés Rosenstiehl
Enquanto passeiam, duas crianças, uma menina e um menino, compartilham o que sabem sobre como são feitos os bebês.

O matador
de Wander Piroli e Odilon Moraes
Um menino sonhava em conseguir matar um pardal com seu bodoque, um dia ele consegue e nunca mais foi o mesmo.

Mário
de Latifa Alaoui M. e Stéphane Poulin
O pequeno Mário conta como é a sua relação com o namorado da mãe e o namorado do pai.

Pedro e luao
de Odilon Moraes
Pedro e sua tartaruga crescem juntos. Toda vez que o garoto viaja, Lua se esconde em seu casco e não sai nem para comer. Um dia, quando Pedro retorna de mais um passeio, descobre que sua amiga morreu.

Beijos
de Goele Dewanckel
Livro de ilustrações que mostra que o afeto e o amor não têm idade, gênero ou cor.

O caderno de Liliana
de Livia Garcia-Roza e Taline Schubach
Quando a mãe é internada, Liliana começa a escrever para ela.

Perguntas difíceis: um olhar da psicanálise
Enxergar a curiosidade da criança com naturalidade é um caminho para fortalecer a relação de confiança entre pais e filhos. A psicanalista e psicopedagoga Cristina Silveira é categórica ao dizer que a pergunta de um menino ou de uma menina não deve ficar sem resposta. Pedir um tempo para pensar pode ser uma estratégia quando se é pego de surpresa, mas mentir está fora de cogitação. “Quando a criança descobre a verdade rompe-se o contrato de confiabilidade e ela se decepciona com o núcleo familiar. A criança que pergunta quer aprender e as respostas para as dúvidas são importantíssimas para o desenvolvimento de sua inteligência e maturidade afetiva. A realidade em si não deve ser motivo de preconceito.”, afirma.

Para ela, deixar de conversar não deveria ser uma alternativa: “Tudo o que acontece ao redor da vida de uma criança são fatos reais que ela vai vivenciar em todo o seu período de amadurecimento humano. Abordar assuntos ‘proibidos’ como a morte de alguém da família é importante, por exemplo, para transmitir a confiabilidade de que ela vai dar conta de resolver aquilo quando ela tiver que lidar com aquela situação mais diretamente”.

Em algumas fases da infância, segundo ela, a curiosidade deve ser satisfeita de uma forma simples, direta e concreta. Cristina Silveira cita como exemplo o tema da morte para crianças com menos de 5 anos. “Nessa fase, elas vivem uma fase ainda bem fantasiosa e não têm o conceito da morte muito bem estabelecido, elas compreendem a ideia sob uma ótica mais mágica, de transcendência mesmo. Nesse caso, dizer que a pessoa virou uma estrela ou está no céu é melhor do que dizer que ela viajou. Para uma criança acima dos 5 anos, no entanto, esta resposta talvez não seja suficiente. Assim, é importante observar a reação da criança ao que está sendo dito”, pondera.

Valorizar o sentimento de uma criança, enxergá-la como um ser pensante e respeitá-la em seu lugar são os ingredientes básicos para lidar com temas difíceis. A dica preciosa de Cristina Silveira é “sempre falar a verdade de uma forma em que a idade seja respeitada e sem falar demais ou de menos”. Se ainda parece difícil, voltamos ao início da reportagem para lembrar que pais, mães e cuidadores podem mediar essas dúvidas com o auxílio dos livros. “Os próprios terapeutas se utilizam da literatura infantil em seus consultórios”, diz.

A psicanalista afirma ter inúmeros exemplos em que um livro foi usado como condutor para o atendimento terapêutico a crianças. Ela cita a história de um garoto que tem duas mães, foi gerado por fertilização in vitro e queria saber quem era o pai. “A mãe chegou a pensar em dizer que o pai morreu, mas foi uma história infantil que permeou a resposta verdadeira à criança”, pontua.

E não se engane. Cristina Silveira reforça que, mesmo sem ter o conhecimento total do fato – seja ele a doença terminal de um ente querido ou uma demonstração de carinho homoafetiva – a criança é perceptiva e não deveria se sentir excluída da situação que envolve a família da qual ela pertence.

A psicanalista pede atenção para a criança que pergunta muito sobre o mesmo assunto. “Tente aprofundar a resposta e comece a observar o comportamento, é importante verificar o que elas escutam ou vêem na televisão, por exemplo, e evitar falar sobre assuntos inadequados na frente delas”, sintetiza.

VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE SAÚDE PLENA