Estudo indica que mulheres com melhor noite de sono têm mais libido

A cada hora a mais dormida, mulher aumenta em 14% as chances de elas sentirem vontade de participar de atividades sexuais

por Isabela de Oliveira 05/05/2015 10:00

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CB/D.A Press
Atenção: problemas com o sono não devem ser resolvidos simplesmente com medicamentos para dormir (foto: CB/D.A Press)
Às mulheres, uma dica: na próxima vez que acertar o horário do despertador, permita-se ficar algumas horas a mais na cama. Ou durma mais cedo caso seja impossível escapar dos compromissos da manhã. O conselho é valioso para a felicidade do casal, segundo descoberta de pesquisadores da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Para elas, cada hora adicional de sono corresponde a um aumento de 14% nas chances de sentirem desejo de se envolver em uma atividade sexual no dia seguinte.

Essa relação, esclarece o psicólogo David Kalmbach, principal autor do estudo detalhado no The Journal of Sexual Medicine, não depende do quão cansada a mulher esteja na noite anterior ou se o relacionamento com o parceiro vai bem. Basta que ela durma um pouco mais. E bem, reforça. Pois não adianta ter uma única boa e longa noite de sono. Isso porque dormir muito eventualmente empobrece a intensidade da excitação genital no dia seguinte. No entanto, os resultados mostraram que as mulheres com média maior na duração do sono relatam mais excitação genital do que aquelas que dormem menos normalmente.

Investigações anteriores identificaram que doenças, distúrbios psicológicos e insatisfação no relacionamento são fatores de risco para as disfunções sexuais, como desejo hipoativo — diminuição ou ausência de fantasias sexuais que resultam na falta de interesse em sexo — e excitação sexual diminuída. O interesse dos cientistas pela relação do sono com a satisfação sexual, entretanto, apareceu no início dos anos de 1960. Até então, conta Kalmbach, era um assunto ignorado. “Com o crescente reconhecimento da morbidade associada ao sono desordenado ou insuficiente, é surpreendente que os campos da sexologia e da medicina do sono tenham dado pouca atenção a essa área”, pontua.

Apesar de tímidas, as pesquisas pioneiras abriram espaço para estudos sobre a relação do sono REM (rapid eye movement ou movimento rápido dos olhos) e a sexualidade feminina. A vasocongestão vaginal noturna, quando há aumento da circulação sanguínea no órgão, é um dos achados desse campo. A reação, contudo, é mais evidente nos homens, que têm ereções matinais, explica o pneumologista especialista em medicina do sono Fábio Maraschin Haggsträm, do Pneumosono — Centro de Distúrbios do Sono, em Porto Alegre.

Essa é uma teoria para explicar a razão pela qual a vida sexual das mulheres se beneficia de uma noite de sono um pouco mais longa e tranquila. É no sono REM, esclarece Haggsträm, que o corpo descansa. O cérebro, no entanto, funciona a todo vapor com os sonhos. “Exames de imagem mostram que a atividade do cérebro nesse ponto é parecida com o estado de vigília. O corpo, no entanto, precisa estar imobilizado para que a pessoa não reproduza os movimentos dos sonhos fisicamente, com chutes caso sonhe que está em uma luta.”

Como os homens

A relação entre a ereção matinal e o sono REM detectada em pesquisas na década de 1980 provocou um interesse natural dos cientistas em saber o que ocorre nas mulheres. A semelhança com o que se passa nos homens é notável, diz Kalmbach. Isso porque o aumento do fluxo de sangue na vagina ocorre em 95% do tempo em que a mulher está no sono REM. Pode ser, então, que as que tenham essa fase do sono prejudicada sejam privadas dos possíveis efeitos do aumento de circulação. “Nos homens, a ereção de manhã pode ajudar nas relações, aumentando, inclusive, o apetite sexual. Isso não acontece se ele não tiver uma boa noite de sono”, pontua Haggsträm.

O sangue que circula na vagina também aumenta, ainda que moderadamente, nos períodos não REM, diferentemente dos homens. Apesar das constatações, ninguém sabe qual a função do REM — e, no caso das mulheres, do sono de forma geral — na resposta sexual humana. Pode ser que as atividades do cérebro e dos hormônios durante o repouso medeiem essas reações. Isso porque os níveis de hormônios masculinos, os androgênios, aumentam durante o sono e diminuem ao acordar.

Níveis ideais de testosterona, progesterona e estrogênio foram identificados como importantes para a função sexual saudável — medida pelo desejo e pela excitação — das mulheres. “Portanto, a hipótese é de que a perda ou a privação do sono prejudique o comportamento sexual justamente pela diminuição da produção dos androgênios. Isso enfatiza a importância do sono de duração suficiente e com qualidade como crucial para a manutenção vida sexual saudável tanto de homens quanto de mulheres”, reforça Kalmbach.

Maior excitação
Para o estudo, a equipe liderada por David Kalmbach acompanhou, durante duas semanas, a rotina de 171 mulheres saudáveis e que haviam ingerido antidepressivos e medicamentos para dormir pelo menos um mês antes do início do experimento. A metade delas declarou estar em um relacionamento de dois anos e meio, em média. As outras, apesar de solteiras, não estavam sozinhas e relataram ter ao menos um parceiro. Elas completaram questionários sobre angústia sexual, depressão e ansiedade.

As participantes foram instruídas a completar um diário on-line após acordarem, na privacidade do computador doméstico. Os questionários avaliavam o quanto se sentiam queridas pelo parceiro e o comportamento sexual nas últimas 24 horas. Itens também interrogavam sobre como haviam dormido na noite anterior. Os resultados indicaram que 19,30% delas apresentavam níveis clinicamente significativos de angústia sexual.

Elas contaram que se masturbavam ou mantinham relação sexual em 8,9% e 24,53% dos dias, respectivamente. “Especificamente, verificamos que as mulheres com média maior de sono tinham mais facilidade para excitação genital em comparação àquelas as mulheres que dormiam menos. A média era de 7 horas e 22 minutos”, completa Kalmbach, reforçando a importância de dormir.

Fase inicial

Ana Célia Bomfim, ginecologista e obstetra do Hospital Santa Luzia, em Brasília, considera o trabalho de Kalmbach um achado. “Apesar disso, está em fase inicial. Mesmo assim, a relação encontrada de que uma boa noite de sono faz a diferença na resposta sexual é muito interessante”, diz a médica. Segundo ela, a rotina estressante leva as pessoas a negligenciarem o sono, o que acarreta diversos problemas de saúde. “Há hipertensão, diabetes e obesidade”, lista. “Os resultados mostram, agora, mais um benefício do repouso.”

Diretor do Instituto do Cérebro de Brasília, Ricardo Teixeira complementa. Explica que o sono está por trás do equilíbrio do sistema nervoso autônomo, que é o responsável por comportamentos inconscientes, como respirar. “Se você não dorme bem, compromete isso tudo, inclusive o estímulo sexual”, diz o professor colaborador da Universidade Estadual de Campinas.

O neurologista alerta ainda que os problemas com o sono não devem ser resolvidos simplesmente com medicamentos para dormir. “Precisa-se de um diagnóstico clínico porque, talvez, seja uma alteração hormonal que pode ser resolvida. Ou, quem sabe, ansiedade e depressão. A pessoa que acha que vai resolver a dificuldade para dormir tomando remédio está agindo de forma rasa”, adverte. “Há pessoas que têm problemas para pegar no sono, outras para dormir e algumas os dois. Existe remédios para cada caso, além de alternativas como medicamentos naturais. É preciso achar a raiz do distúrbio.”


Mais risco de insônia
“Para elas, a insônia é mais frequente, mas ainda não sabemos exatamente a razão disso. Pode ser que seja alguma coisa específica da própria natureza feminina. Não há nada científico comprovando isso, mas a lógica indica que, por ser responsável pelo cuidado com os bebês, elas precisam ter o sono mais leve. Ao envelhecer, com a menopausa, costumam sofrer com as ondas de calor, que afetam muito o sono. A insônia também pode ser sintoma de depressão, que é mais comum entre elas. Já os homens, pela constituição física, geralmente sofrem mais de apneia. A predisposição decorre da própria constituição física e da distribuição de gordura no abdômen. Porém, após a menopausa, as mulheres adquirem risco parecido. Os problemas crônicos, diários, realmente podem influenciar a vida das pessoas, inclusive a sexual.”
Rosa Hasan, neurologista e membro da Associação Brasileira do Sono

"Isso enfatiza a importância do sono de duração suficiente e com qualidade como crucial para a manutenção vida sexual saudável tanto de homens quanto de mulheres" - David Kalmbach, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade de Michigan

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