Negócio fechado

por Zulmira Furbino 19/04/2015 08:45

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Quinho
(foto: Quinho)
No fim de abril de 1999, quando minha temporada em Bilbao, no Norte da Espanha, estava no fim, fui visitar uma amiga pernambucana que voltava à cidade para defender sua tese de doutorado. Chegando ao hotel, descobri que os integrantes do Ballet Nacional de Cuba também estavam hospedados ali e se preparavam para apresentar sua famosa versão de Giselle, no Teatro Arriaga.

Conversei com eles quando estavam esparramados pelo saguão, simpaticíssimos. Apaixonaram-se por minha filha, que tinha 4 anos e brincaram de ensinar a ela passos de balé. Como sou meio frustrada por não ter sido bailarina, aquele encontro foi um deleite.

Não faço o tipo tiete, mas quando topei com Alicia Alonso, ex-bailarina e diretora da companhia, que vinha de cabeça coberta com lenço ao estilo bucaneiro, e por cima dele um chapéu combinando com a calça, por pouco não saí pelo salão fazendo piruetas. Ainda não sei como consegui escapar desse ridículo.

Aquele foi o ano em que Bill Clinton ampliou o embargo a Cuba, proibindo filiais estrangeiras de companhias norte-americanas de comercializar com o país de Fidel Castro valores superiores a US$ 700 mil ao ano. Entre os estudantes de Cátedra da Unesco para países latino-americanos na Universidad de Deusto, residentes em Bilbao, esse era um tema da hora.

Por isso, a presença da companhia de balé na capital do País Basco causou rebuliço. O problema é que o preço do ingresso estava além de minhas posses, já que a prioridade era juntar as trouxas e catar pesetas para voltar ao Brasil, justamente nos dias da apresentação.

Era a última semana de minha estada no País Basco. Entre malas, encerramento de conta bancária e festas de despedida, combinei com Yan Yanín, meu amigo da Guatelama, de trocarmos os sanduíches de pão e presunto serrano acompanhados de Coca-cola, comprados na máquina de lanche da universidade, por comida de verdade.

Uma extravagância, tendo em vista a esqualidez de nossas contas bancárias, que não suportariam o peso de um ingresso para o balé. Por isso escolhemos restaurantes baratos e, sem querer, terminamos a rodada da pior maneira possível, num chinês horrível no fim da rua Blas de Otero, no Bairro de Deusto, comendo alguma coisa que parecia mandiopan encharcado em gordura.

(Durante essa temporada em Bilbao, Yan Yanín foi um grande amigo. Inteligente, gentil, comunista, era forte e baixinho. Tinha cabelos lisos e espetados como os dos japoneses e olhos puxados de índio maia. Foi frequentador assíduo das feijoadas à base de feijão em lata promovidas em meu apartamento na Rua Iruña.)

Maio havia acabado de chegar e a apresentação de Giselle seria em poucos dias. Como de costume, o tempo estava nublado, ventava, mas por sorte não chovia. No restaurante chinês, Yan Yanín e eu tomávamos uma cerveja, olhando desolados para o mandiopan gordurento e constatando que a única saída seria pedir outro prato.

Conversamos sobre a vida, falamos dos desafios que cada um enfrentaria na volta pra casa, sobre o embargo dos Estados Unidos a Cuba, que naquele momento tinha toda pinta de que seria eterno. Então ele me fez uma proposta: quando Fidel Castro morresse, nós daríamos um jeito de nos encontrar em Cuba, não importava como. Negócio fechado?! Negócio fechado!!

Depois disso, fomos para a universidade. No sábado, fizemos mais uma feijoada de feijão de lata, o único vendido nos supermercados de Bilbao, na segunda-feira os amigos e amigas voltaram para se despedir. Ele ficou comigo até a última chamada do voo Bilbao-Madri, até me ver sumir pelo portão 8.

Agora que as relações entre Cuba e Estados Unidos estão se estreitando outra vez, que Obama decidiu tirar Cuba da lista do terror e a possibilidade do fim do embargo e das sanções ao país latino podem despontar no horizonte, me pergunto por onde andará meu querido amigo guatemalteco, com quem falei algumas vezes depois de chegar ao Brasil e depois perdi contato.

Ele deve estar dando piruetas de tão feliz.

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