Se é normal, por que não seria bom? Exposição 'Sentidos do Nascer' estreia em BH

Epidemia de cesariana, aumento no número de bebês que nascem prematuros e a lentidão para reduzir as taxas de mortalidade materna são alguns do desafios para mudar a forma como se nasce no Brasil. A exposição 'Sentidos do Nascer' é uma experiência sensorial - da gravidez ao nascimento - que mostra por que o parto normal é melhor para mãe e para o bebê

por Valéria Mendes 07/04/2015 09:00

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FOTO: CAROL DIAS FOTOGRAFIA / Reprodução sentidosdonascer.org
No Brasil, 5% dos nascimentos são por parto natural, ou seja, sem nenhuma intervenção FOTO: CAROL DIAS FOTOGRAFIA (foto: FOTO: CAROL DIAS FOTOGRAFIA / Reprodução sentidosdonascer.org)
Uma dor insuportável que, com os avanços da medicina, as mulheres já não precisam mais vivenciar. É essa a imagem associada ao parto normal no Brasil, que também é relacionado a sofrimento para o bebê, atraso tecnológico e a prejuízos para a vida sexual do casal com a ideia equivocada de alargamento da vagina. Já a cesariana é glamourizada e vista como segura e confortável. ‘Quem pode escolher faz cesárea’, reza o senso comum. Há explicações culturais, econômicas e históricas para essa inversão de valores que coloca o país como campeão mundial na cirurgia de extração fetal. Mas o fundamental hoje é que começa a ganhar cada vez mais força o movimento pela humanização do parto que une mulheres, estudiosos, governo e profissionais da saúde interessados em reverter esse cenário através de informação e sensibilização.

Para mostrar que o corpo feminino sempre foi e ainda é capaz de parir, na tentativa de contribuir para a mudança da percepção sobre o nascimento e incentivar a valorização do parto normal para a redução de cesarianas desnecessárias, a exposição Sentidos do Nascer estreia em Belo Horizonte no Dia Mundial da Saúde (7/04) no Parque Municipal e segue para o Shopping Boulevard em 4 de maio.

O projeto está entre os doze selecionados - de 183 trabalhos - pelo Ministério da Saúde (MS), Fundação Bill e Melinda Gates e pelo CNPq para receberem um incentivo financeiro que totalizou R$8,4 milhões. Foram escolhidas ideias com foco na contribuição para diminuir a alta taxa de nascimentos prematuros no país. Na sequência, a mostra irá para o Rio de Janeiro (junho e julho), Niterói (agosto) e Brasília (outubro).

Pediatra, epidemiologista e coordenadora da Comissão Perinatal da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, Sônia Lansky é uma das idealizadoras do projeto e acredita que a transformação da realidade no nascimento no país passa pelo viés cultural. “Devemos mudar a forma como se nasce no Brasil. Sabemos que há efeitos graves para a saúde dos bebês, intervenções desnecessárias no corpo da mulher e no processo natural do parto que deixam uma carga negativa para esse momento tão importante. Precisamos empoderar a sociedade sobre o que deve ser feito para a proteção da infância, da saúde de mãe e filho”, afirma.

Arte: Soraia Piva / EM / D.A Press
Fonte: sentidosdonascer.org (foto: Arte: Soraia Piva / EM / D.A Press)


Sentidos do Nascer / Divulgação
Tela de televisão fará uma projeção 3D da imagem do visitante que se verá grávido (foto: Sentidos do Nascer / Divulgação )
Experiência sensorial
Você sabe como nasceu? Se pudesse escolher, como teria sido? Já se imaginou esperando um bebê? Está grávida de um? Como gostaria que ele viesse ao mundo? A exposição Sentidos do Nascer é uma experiência interativa e sensorial na qual o visitante percorrerá cinco ambientes - da gravidez ao nascimento – e é uma oportunidade para refletir sobre o modelo de assistência ao parto no Brasil. Professor do programa de pós-graduação em História e Educação da Faculdade de Educação da UFMG (FAE-UFMG) e Historiador da Ciência, Bernardo Jefferson de Oliveira também está à frente do projeto. Para ele, a visitação vai proporcionar uma vivência instigante. “A exposição não é só para transmitir informação, ela pretende ser tocante”, afirma.

O percurso tem início no espaço intitulado Gestação. Nesse ambiente, uma tela de televisão fará uma projeção 3D da imagem do visitante, que se verá grávido; homens também poderão experimentar a sensação da gravidez. A experiência interativa ainda permitirá o registro do momento através de fotos que poderão ser compartilhadas nas redes sociais.

Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press
O 'Big Brother do Bebê' é um dos produtos expostos no espaço 'Mercado do Parto' (foto: Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press)
Na sequência, as pessoas entrarão no Mercado do Parto que faz uma crítica à forma como a gestação e o parto são tratados como um negócio comercial. Com produtos à venda e dispostos em gôndolas, os visitantes serão confrontados com o interesse econômico que permeia o nascimento no Brasil e que leva à massificação da experiência do parto que, por essência, é única.

As mensagens são levadas ao extremo e alcançam propositadamente o deboche para provocar a reflexão. É um momento de descontração e desconstrução de discursos prontos. Monitores apresentam por exemplo, o produto 'Big Brother do Bebê' que faz uma crítica à separação mãe e filho, prática recorrente nas maternidades brasileiras, com a seguinte mensagem: “Pra quê colo de mãe? Na Maternidade Cirúrgica você e sua família podem descansar em paz enquanto seu filho chora sozinho no nosso berçário”.

Você sabia que 70% das mulheres querem parto normal logo que engravidam? O Controvérsias é o marco da exposição Sentidos do Nascer, um espaço para o diálogo entre os sujeitos que comumente opinam e influenciam a decisão da mulher sobre a via de parto: cirúrgica ou normal. Um vídeo elaborado exclusivamente para a exposição coloca para conversar personagens que resumem a multiplicidade de pontos de vistas e argumentam contra ou a favor do parto normal.

Com linguagem simples e direta, o produto audiovisual simula o que os casais grávidos costumam ouvir durante a gestação: aquele que defende a cesariana marcada por desacreditar na capacidade do corpo feminino em parir, a mulher que viveu a experiência de um parto humanizado e fala sobre o protagonismo feminino no trabalho de parto, o obstetra que promete tentar o parto normal, mas coloca inúmeros empecilhos; o pediatra que explica os benefícios do parto normal para a saúde do bebê; a doula que se apresenta como alguém que ajuda no trabalho emocional das gestantes; a enfermeira obstétrica que explica as formas não farmacológicas de alívio de dor e tantos outros que comumente entram em cena na vida de um casal grávido.

Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press
Controvérsias: espaço para o diálogo entre os sujeitos que comumente opinam e influenciam a decisão da mulher sobre a via de parto (foto: Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press)


Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press
Visitantes poderão simular o nascimento (foto: Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press)
Após o vídeo, o público segue para a experiência sensorial do Nascimento. Nesse ambiente, os visitantes ouvirão sons de batimentos cardíacos e ruídos de água que reproduzem os barulhos internos que a criança ouve quando está no ventre da mãe. Os visitantes simularão a entrada no útero e passarão pelo canal de parto como se fossem bebês. Ao final, serão recebidos pela imagem de uma mulher de braços estendidos que representa a mãe de cada um.

Por último, o público se encontrará no espaço Conversas, uma área de convivência em que será possível se aprofundar nos temas abordados na exposição e trocar experiências. Além disso, quem quiser poderá deixar um depoimento que será registrado em vídeo. É uma oportunidade para que cada visitante coloque sua voz nesse amplo debate.




A exceção que virou regra
A cesariana é uma cirurgia para salvar vidas mas, no Brasil, de exceção virou a regra. Você sabia que esse procedimento cirúrgico, quando feito de forma agendada, triplica o risco de mortalidade materna e que aumenta em até 120 vezes a probabilidade de o bebê nascer prematuro? No modelo atual de assistência obstétrica, a taxa de cesarianas na rede privada beira os 90%, frente uma recomendação da Organização Mundial de Saúde de, no máximo, 15%.

A banalização do procedimento nos leva a presenciar um índice de prematuridade de 12,5%; nascer antes da 37ª semana é a principal causa de morte de crianças no primeiro mês de vida. Também não conseguimos reduzir a mortalidade materna para 35 óbitos a cada 100 mil partos e alcançar a meta número cinco dos Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) para 2015. Amargamos ainda a informação de que uma em cada quatro brasileiras é vítima de violência obstétrica e ignoramos as consequências para a vida adulta de nascer antes da hora: obesidade e doenças crônicas como diabetes, hipertensão e alergias, para citar algumas.

FOTO: COLETIVO NAIÁ / CATARINA MARUAIA / Reprodução sentidosdonascer.org
O trabalho de parto é a garantia de que o bebê está pronto para nascer FOTO: COLETIVO NAIÁ / CATARINA MARUAIA (foto: FOTO: COLETIVO NAIÁ / CATARINA MARUAIA / Reprodução sentidosdonascer.org)


E mesmo a mulher que consegue ter parto normal no Brasil está sujeita a uma infinidade de intervenções que influenciam na evolução natural do trabalho de parto como o corte entre a vagina e o ânus (episiotomia) questionado pelas evidências científicas desde a década de 70 como ineficaz para facilitar a saída do bebê e a adoção da posição ginecológica (deitada com pernas abertas) que impede a movimentação da mulher e, por consequência, dificulta as contrações do útero, aumenta a dor e prolonga o processo de nascimento. No país, apenas 5% dos partos são natural, ou seja, sem nenhuma intervenção.

Exposição Sentidos do Nascer
Belo Horizonte:
Local: Parque Municipal Américo Renné Giannetti
Funcionamento: 07 a 26 de abril, das 10 às 18h.

Local: Shopping Boulevard
Funcionamento: 04 a 30 de maio, segunda a sábado das 10h às 21h e domingo das 10h às 20h

Outras capitais:
Rio de Janeiro: junho e julho
Niterói: agosto
Brasília: outubro

MAIS INFORMAÇÕES:

sentidosdonascer.org


Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press
Mais um produto exposto no espaço 'Mercado do Parto' (foto: Foto: Valéria Mendes / EM / D.A Press)

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