Estudo revela que substância encontrada no café protege pele da radioterapia

Ácido presente no grão reduziu em 40% os danos causados na epiderme pela radioterapia usada em tratamento contra cânceres

por Roberta Machado 30/09/2014 13:00

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Substâncias naturais podem servir de proteção para os efeitos colaterais da radioterapia. Um estudo internacional mostrou que células tratadas com produtos orgânicos desse tipo diminuíram os efeitos nocivos dos raios gama em até 40%, evitando a destruição e a mutação do material genético da estrutura viva. Se tiverem a eficácia comprovada em humanos, esses compostos servirão para a fabricação de uma droga capaz de proteger pacientes que sofrem com os danos do tratamento contra cânceres.

Para esse experimento, foram usados os ácidos rosmarínico, cinâmico e cafeico, derivados do alecrim, da canela e do café e da alcachofra, respectivamente. Essas substâncias já provaram ter propriedades antioxidantes e protetoras contra os efeitos nocivos do sol e do câncer e são usadas em tratamentos dermatológicos. “Doses não tóxicas mostraram que elas induzem a radiosensibilização em células tumorais. Então, esse estudo procura mostrar como também podem ser radioprotetoras”, explica Faruck Lukmanul Hakkim, pesquisador da Universidade de Nizwa, no Omã. O estudo foi publicado no International Journal of Low Radiation e contou com a colaboração de cientistas do Japão, da Índia, da Austrália e da Coreia do Sul.

Valdo Virgo/CB/D.A Press
Clique na imagem para ampliá-la e saiba mais (foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press)
Os cientistas trataram uma cultura de células da pele humana com esses produtos durante um dia. Depois, bombardearam o material por duas horas com a mesma carga de radiação gama usada em um tratamento de radioterapia convencional. O ácido cafeico mostrou ser o melhor na proteção, diminuindo o dano causado às células em 40%. Os ácidos rosmarínicos e cinâmico diminuíram o efeito tóxico em 20% e 15%, respectivamente.

Quando penetra na pele, a radiação não diferencia células saudáveis de doentes. A pele vizinha à área irradiada pode apresentar irritação, perda de cabelo e desconforto, e os órgãos localizados próximos ao tumor têm o funcionamento alterado. Alguns pacientes correm o risco de desenvolver até mesmo outro tipo de tumor anos depois de curados do câncer. Se combinado com a quimioterapia, o procedimento oferece ainda mais perigo.

Os autores do estudo acreditam que os componentes naturais têm a capacidade de absorver os compostos químicos que resultam da redução do oxigênio, enquanto incentivam o mecanismo natural de reparo do DNA das células, evitando a destruição e a mutação do material biológico. No entanto, os cientistas ainda não sabem explicar com exatidão como esses produtos interferem na proteção das células. Eles terão de ser submetidos a exames mais detalhados.

“Há uma grande diferença entre tratar células e tecidos. Basicamente, os tecidos são compostos de uma população heterogênea de células. Cada tipo de célula pode responder de forma diferente. Considerar o efeito de radioproteção desses compostos em modelos animais além do perfil de toxicidade que elas têm facilitaria o seu uso em estudos clínicos”, ressalta Hakkim.

Proteção

Médicos recorrem a produtos para diminuir os efeitos colaterais da radioterapia há muitos anos, mas essas alternativas são questionadas. Um creme popular na proteção contra a radioterapia em tumores na mama, por exemplo, não provou a eficiência em um teste com mulheres. “Tem produtos que funcionam muito bem in vitro, mas, quando você vai usar no paciente, não tem qualquer efeito”, aponta Robson Ferrigno, presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia.

Para ser considerado um radioprotetor eficiente, um composto teria de evitar os danos da radiação na pele saudável sem atrapalhar o tratamento ou causar outros efeitos colaterais. “A ação do creme é muito pequena. Ele serve hoje para amenizar alguns sintomas, como prurido ou ardor, não para prevenir”, diz o especialista. Compostos naturais como a babosa são receitados a fim de minimizar os efeitos da radiação, mas somente depois do tratamento.

Atualmente, os pacientes contam com proteções físicas mais robustas que loções, como placas e blocos de metal moldados com base no formato do tumor. “Você tem um alvo mais preciso. É como se tivesse uma igreja e tivesse que irradiar o badalo de um sino. Antes, irradiava a torre da igreja, depois o sino. Hoje, a gente consegue irradiar somente o badalo”, ilustra Renato José Affonso Júnior, radioncologista do Hospital de Câncer de Barretos.

O cuidado é fundamental nas áreas mais sensíveis à radiação, como o cristalino do olho, que pode acabar afetado em tratamentos contra tumores cerebrais. Sem uma forma comprovada de garantir que as células saudáveis serão poupadas dos raios danosos, os médicos precisam obedecer a rígidos limites de segurança e acompanhar de perto os efeitos sentidos pelos pacientes.


Um dos mais populares radioprotetores nasceu em meio à tensão da Guerra Fria. Preocupados com a saúde dos soldados norte-americanos em um possível combate nuclear, os EUA desenvolveram a droga WR-2721, que provou ser um protetor eficiente contra a radioterapia e foi amplamente adotada por ser mais absorvida pelas células saudáveis, expondo as cancerosas à radiação. Mas a amifostina, como também é chamado o composto, apresentou efeitos colaterais, como náusea e alterações do nível de cálcio nos pacientes. Hoje, o uso delta tem sido bastante contestado por muitos profissionais.

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