54 dias: por que a média brasileira de aleitamento materno exclusivo é tão baixa?

Durante os seis primeiros meses de vida a recomendação da Organização Mundial de Saúde é que a criança só tome leite materno

por Valéria Mendes 01/08/2014 08:30

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Cinquenta e quatro dias é a média brasileira de aleitamento materno exclusivo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que até os seis meses de idade a criança só se alimente do leite da mãe. Essa lacuna fica mais difícil de ser compreendida se pensarmos que amamentar é um ato fisiológico. Até os 2 anos de idade (atenção, ou mais), a OMS ressalta a qualidade do alimento produzido pelo corpo da mulher e os benefícios para as crianças. A média do Brasil é de 342,6 dias, ou seja, menos de um ano (veja pesquisa completa).

	Rafael Ohana/CB/D.A Press
Mamaço em Brasília - Mãe amamenta criança durante manifestação pelo direito de amamentar em público no Parque Olhos D'Água (05/06/2011) (foto: Rafael Ohana/CB/D.A Press)


Começa hoje a Semana Mundial de Aleitamento Materno e o Saúde Plena conversou com especialistas para esclarecer as principais dúvidas sobre o tema, ouviu histórias de amamentação bem-sucedida, inclusive de gêmeos, de preconceito com a amamentação prolongada e em locais públicos e mostra quais os principais desafios do aleitamento com a inserção cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho. Para começar, veja o que a ciência já comprovou sobre os benefícios da amamentação:

- Mortalidade infantil: o aleitamento materno pode evitar 13% das mortes em crianças menores de 5 anos em todo o mundo.
- Evita diarreia: crianças não amamentadas têm um risco três vezes maior de desidratarem e de morrerem por diarreia quando comparadas com as amamentadas
- Evita infecção respiratória: a proteção é maior quando a amamentação é exclusiva nos primeiros seis meses
- Diminui os riscos de alergia: a amamentação exclusiva nos primeiros meses de vida diminui o risco de alergia à proteína do leite de vaca, de dermatite atópica e de outros tipos de alergias, incluindo asma e sibilos recorrentes
- Diminui o risco de hipertensão, colesterol alto e diabetes: o aleitamento materno apresenta benefícios em longo prazo
- Reduz a chance de obesidade: indivíduos amamentados tiveram uma chance 22% menor de vir a apresentar sobrepeso/obesidade
- Melhor nutrição: o leite materno contém todos os nutrientes essenciais
para o crescimento e o desenvolvimento das crianças
- Efeito positivo na inteligência: crianças amamentadas apresentam vantagem
nesse aspecto quando comparadas com as não amamentadas
- Melhor desenvolvimento da cavidade bucal: o exercício que a criança faz para retirar o leite da mama é fundamental para o alinhamento correto dos dentes e uma boa oclusão dentária
- Proteção contra câncer de mama: Estima-se que o risco de contrair a doença diminua 4,3% a cada 12 meses de duração de amamentação.
- Evita nova gravidez: A amamentação é um excelente método anticoncepcional nos primeiros seis meses após o parto com 98% de eficácia
- Promoção do vínculo afetivo entre mãe e filho: a amamentação é uma forma muito especial de comunicação entre a mãe e o bebê e uma oportunidade de a criança aprender muito cedo a se comunicar com afeto e confiança.
- Melhor qualidade de vida: crianças amamentadas adoecem menos (FONTE: Ministério da Saúde)


Preparando-se para amamentar
Muitas mulheres se perguntam se devem preparar os seios para amamentar. Uma das coordenadoras do Grupo Virtual de Amamentação (GVA) - que começou no Orkut em 2004, migrou para o Facebook e atualmente conta com a participação de mais 30 mil pessoas -, Bia Câmara, 35 anos, é categórica: “O verdadeiro preparo que a mulher deve fazer durante a gestação é algo que poucas fazem: ler sobre amamentação, ler sobre o colostro, a descida do leite, a pega correta, a livre demanda e as fases do leite. Se todas as mulheres se informassem sobre o aleitamento antes de o bebê nascer, com certeza, muitas dúvidas seriam esclarecidas antes de o problema aparecer”.

Membro da Sociedade Brasileira de Mastologia Regional Minas Gerais, Alexandre Barra concorda que a informação qualificada é peça-chave no processo de amamentação. “É preciso uma conscientização maior dos profissionais de saúde da importância de informar as gestantes sobre os benefícios da lactação”, pondera.

Descida do leite
O mastologista lembra que é normal o leite demorar a descer. “Se ele não vem até o terceiro dia, é comum a mulher achar que não é capaz de amamentar. No entanto, a amamentação é estabelecida a partir do quarto ou quinto dia”, diz. O especialista lembra que é a sucção do bebê que vai estimular a produção do leite. Por isso, é tão importante colocar os pequenos para sugar.

Reprodução Internet
Amamentar é um ato fisiológico (foto: Reprodução Internet)
Na sua experiência de moderação no GVA, Bia relata que realmente é muito frequente mães preocupadas por que o leite ainda não desceu. “Mas elas estão produzindo colostro, que é riquíssimo em nutrientes. As mulheres precisam ter mente que o estômago de um bebê é do tamanho de uma bola de gude e o que elas estão produzindo de colostro é suficiente para saciar a fome do bebê”, explica. Para ela, é importante reconhecer o colostro como alimento e reforça: “o leite vai descer, para algumas mulheres pode demorar uma semana”.

Evite mamadeira e chupeta
Bia Câmara alerta sobre a importância de se evitar mamadeira e chupeta. “Elas promovem a confusão de bicos porque os mecanismos de sucção são diferentes”, explica. Outro agravante é que, como é mais fácil sugar na mamadeira e ainda sai mais volume de leite, a criança pode rejeitar o seio materno. A coordenadora do GVA chama atenção para o fato de ser comum nas maternidades brasileiras oferecer aos recém-nascidos leite artificial nos berçários. “Já é um complicador, eles chegam ao quarto sem tanta fome e vai-se criando a problemática da amamentação”, pontua.

Para ela, qualquer que seja o problema que surja no início, as mulheres, por falta de informação e apoio, não buscam solucionar a amamentação e sim, oferecer leite na mamadeira.

Pega incorreta e rachaduras
Paulinho Miranda/EM/D.A Press
A pega correta ou pega boa é quando o bebê abocanhar toda a aréola e não apenas do bico do seio. (foto: Paulinho Miranda/EM/D.A Press)
Paulinho Miranda/EM/D.A Press
A pega inadequado ou má pega é quando o bebê coloca na boca apenas o bico do seio. Atenção: evite mamadeiras e chupetas para não acontecer a confusão de bicos (foto: Paulinho Miranda/EM/D.A Press)
A pega incorreta é uma das principais causas de rachaduras nos seios e a prevenção é se informar sobre como o bebê precisa posicionar a boca. Lembre-se: a criança tem que abocanhar toda a aréola. Veja na imagem:

A regra é amamentar em livre demanda e, preferencialmente, um peito por vez. “A mãe precisa garantir que o bebê tome o leite inicial e o gordo”, salienta. Bia Câmara informa que o processo de adaptação à amamentação demora alguns meses mesmo. “É pelo terceiro mês que melhora, que mãe e filho encontram o ritmo”, diz.

Tipos de bicos do peito
Um dos medos que ronda a amamentação é sobre os diferentes tipos de bicos do peito. A coordenadora do GVA diz que, não importa se o bico seja plano ou invertido, é possível oferecer o leite materno. “O bebê abocanha a aréola e não o bico do peito”, reforça. Para ela, é importante que mulheres com dificuldades recebam orientações de especialistas em amamentação ou profissionais de bancos de leite. “Tudo depende de paciência e ajustes, mas se a mulher tem leite e o leite sai, o bebê vai aprender a mamar, mesmo com o formato do bico diferente”, completa.

Reprodução Ministério da Saúde
Todos os tipo de bico de peito possibilitam a amamentação. A criança abocanha a aréola e não o bico (foto: Reprodução Ministério da Saúde)


Alexandre Barra explica que 92% das mulheres têm o bico protuso. “O que pode acontecer com aquelas que têm bico plano ou invertido é uma maior chance de trauma. Já acompanhei mulheres nessa situação que conseguiram amamentar adequadamente. É uma decisão mesmo. Se a mulher quiser, consegue enfrentar todos os obstáculos que porventura apareçam”, pontua. Para ele, se a mulher está entre esses 8% deve procurar uma orientação especializada para que a insegurança não impeça a amamentação. Segundo ele, na rede pública, as enfermeiras são qualificadas para ajudar durante o pré-natal e após o parto.

Sentimentos do bebê
A coordenadora do GVA reforça que um bebê chora por muitos motivos e não apenas por fome, como todo mundo pensa. “Eles sentem medo, sentem falta do útero, é importante as pessoas saberem que um bebê não chora apenas por coisas práticas, mas também por sentimento. A sociedade nega e ignora esse lado”, argumenta. Bia Câmara lembra ainda que não existe bebê que faça peito de chupeta. “A chupeta é que foi feita para imitar o seio materno. Bebês não mamam apenas para saciar a fome, eles não têm noção de que amamentar é para isso, eles têm vontade de sugar, de calor humano, de contato, de sentir o cheiro da mãe, o amor e o carinho. Amamentar não é só matar fome”, pontua.

Arquivo Pessoal
Bia Câmara, 35 anos, é atriz, relações públicas e uma das coordenadoras do Grupo Virtual de Amamentação. Mãe de Bento, 2 anos e 8 meses, vai amamentar até quando o filho quiser (foto: Arquivo Pessoal)
Para ela, existe uma ilusão de que o bebê vai mamar, a mãe vai colocá-lo no berço e fazer outras coisas. “Se isso não acontece, muitas se desestruturam. Mas é comum o bebê não aceitar o carrinho, a cadeirinha, isso não é anormal. Por isso a expressão: bebê de colo”, pondera.

Crise dos três meses
Outra informação importante tem até expressão ‘crise dos três meses’. “Quando o corpo da mulher se adapta à necessidade do bebê, os seios não ficam tão cheios quanto antes e as mulheres começam a achar que têm pouco leite, mas o corpo entende a demanda da criança. E é na hora que o bebê põe a boca no seio que o organismo liga o botão de produção. Peito não é estoque, é fábrica”, explica a coordenadora do GVA.

Atenção com o choro
Algumas mulheres relatam que, na hora de mamar, o bebê chora muito e fica tão irritado que não consegue se alimentar. “Isso acontece por que, às vezes, a mãe espera o bebê chorar para oferecer o peito, como se o choro fosse o sinal de que está com fome, mas, na verdade, é um sinal tardio de fome”, explica a coordenadora do GVA.

Bia Câmara explica que o grupo virtual existe para ajudar mães com dificuldades no processo de amamentação. Ela própria foi beneficiada por essa ajuda antes de se tornar umas das coordenadoras. “Algo que deveria ser instintivo, infelizmente, está se tornando cada vez mais ‘difícil’ para as mulheres devido às informações incorretas e a falta de apoio acerca do aleitamento na sociedade atual”, diz.

“Sempre quis amamentar, mas não imaginava os percalços que eu ia ter durante o processo, as informações desencontradas dos profissionais de saúde. Meu peito começou a rachar, a doer muito, e eu pensava ‘o que vou fazer?’. Foi aí que descobri o GVA e fui salva por informação embasada”, recorda-se a mãe de Bento, de 2 anos e 8 meses.

Preconceito
Bia foge da estatística brasileira e até hoje amamenta o filho. Por fugir à regra, lida com olhares de julgamento o dia todo. “Atualmente, ele não mama tanto fora de casa... O que eu acho mais interessante é a facilidade que as pessoas têm em aceitar uma chupeta e uma madeira em crianças de 5 anos, por exemplo, e se incomodarem com uma mãe amamentando com leite feito para criança. Por que acham absurdo? Qual é o problema? Por que incomoda?”, questiona. O leite materno é capaz de suprir sozinho as necessidades nutricionais da criança nos primeiros seis meses, mas depois, continua sendo uma importante fonte de nutrientes, especialmente de proteínas, gorduras e vitaminas.

EVELSON DE FREITAS/AE
Neste sábado, 2 de agosto, acontece mamaço na Praça da Liberdade, às 15h (foto: EVELSON DE FREITAS/AE)
Atriz e relações públicas, ela lembra que o preconceito não se restringe a crianças maiores. “Até mãe de bebês enfrentam situações difíceis, de constrangimento. Por isso, os mamaços são tão importantes para lembrar a sociedade que a gente é mamífero”, defende. Dentro da programação da Semana Mundial de Aleitamento Materno acontecerá simultaneamente em diversas cidades brasileiras a terceira edição da Hora do Mamaço em 2 de agosto. Em Belo Horizonte, o encontro está marcado para 15h na Praça da Liberdade (saiba mais). Durante o evento, haverá confecção de cartazes e incentivo para que o público assine o manifesto "Lei de Proteção à Mãe que Amamenta: em qualquer hora em qualquer lugar" com objetivo de alcançar a marca das 100mil assinaturas que serão enviadas ao Congresso Nacional.

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Para ela, a amamentação é algo natural, mas que as pessoas não aceitam mais. Bia conta, por exemplo, que é pressionada diariamente com perguntas como ‘ele vai mamar até quando?’. “Quem vai dar o limite é o Bento. Ninguém precisa se preocupar porque ninguém mama até 18 anos, ninguém vai para a faculdade mamando. Ele vai saber a hora de parar”, diz. Sobre os argumentos de que é a mãe que está dependente do filho, rebate: “O vínculo existe, algumas mães têm mais dificuldade com o crescimento do filho, mas não tem como forçar uma criança a mamar”. O único leite consumido por Bento até hoje é o materno.

Fabrício Santos/Arquivo Pessoal
Lembre-se: bebês não choram apenas por coisas práticas, mas também por sentimento (foto: Fabrício Santos/Arquivo Pessoal )
Nutricionista da Associação Dona de Leite, Ludmila Lima ressalta a importância do apoio da sociedade: “A mulher que se sentir desrespeitada deve lutar por seu direito de amamentar. A mãe precisa sentir prazer nesse ato de amor e deve ser muito bem recebida onde quer que seja. Essa consciência está crescendo, mas precisamos evoluir mais”.

Mito do leite fraco
Nenhuma fórmula consegue imitar a composição do leite humano. Ludmila Lima lembra que todas as propriedades do leite em pó foram colocadas artificialmente. Assim, se o alimento é submetido a uma temperatura inadequada, vai perder algumas de suas propriedades. “Sabemos que as vitaminas não sobrevivem a altas temperaturas, elas se degradam. Com o leite materno isso não acontece, a mama é um recipiente perfeito em que o leite sempre estará numa temperatura adequada e em proporções adequadas. A criança não receberá anticorpos a mais ou a menos, por exemplo. E mesmo se a mãe estiver desnutrida a qualidade do leite se mantém”, afirma. A especialista reforça que nos seis primeiros meses de vida, tudo o que a criança precisa é produzido pela mãe. “Nem água é preciso oferecer”, fala.

A coordenadora do GVA, Bia Câmara, diz que a indústria do leite artificial criou a demanda no consumidor como se o alimento industrializado fosse melhor que o leite materno. “Com a imagem do bebê gordinho associada ao bebê saudável criou-se uma cultura mundial de superioridade, mas hoje já se sabe que não é, mesmo com essa ideia incrustada na mente de muitas mães”, pondera.

Após os seis primeiros meses, o organismo da criança está preparado para receber outros alimentos. Ludmila diz que a alimentação complementar deve ser introduzida de forma lenta e gradual. “A nutrição deve ser saudável e preparada em casa, evitando produtos industrializados”, orienta a nutricionista.

Produção de leite
O estresse pode prejudicar a produção de leite. Por isso, o apoio familiar é muito importante para o sucesso do aleitamento materno. Uma dica importante, segundo Ludmila Lima, é a mulher ingerir bastante água. “A mãe deve tentar ao máximo manter uma alimentação equilibrada e evitar alimentos gordurosos. Uma alimentação equivocada pode gerar problemas no corpo da mulher e influenciar indiretamente no aleitamento. Uma mulher que se cuida consegue ter uma produção de leite satisfatória”, explica a nutricionista.
Reprodução Instagram
Foto de Gisele amamentando Vivian enquanto trabalhava viralizou na internet. Leia também: Pelo fim das guerras maternas: até onde vai a liberdade das famílias para criar suas crianças? (foto: Reprodução Instagram )

Complicações
O mastologista Alexandre Barra aponta a mastite como a principal complicação da amamentação. “A técnica correta de amamentação é a principal forma de prevenção. A mastite é um problema relacionado a um desequilíbrio entre a produção e o consumo de leite”, explica. Segundo ele, se a produção estiver muito exagerada pode acontecer o ingurgitamento mamário, que é anterior à mastite, e por isso, solucionável com o esvaziamento dos seios por ordenha manual ou bombas de sucção. “Alcançando o equilíbrio, a mulher evita o ingurgitamento e não vai acontecer a mastite”, esclarece.

O especialista explica ainda que mastite é a porta de entrada para um germe infeccioso e o tratamento é com antibiótico. “Não é necessária a interrupção de amamentação”, ressalta. No entanto, caso a mastite não seja tratada, pode ocorrer um abscesso mamário e, somente nessa situação, a interrupção temporária do aleitamento pode ser necessária. Mamas avermelhadas, quentes e febre são sintomas de mastite. Barra recomenda buscar apoio em Bancos de Leite para que a mulher receba orientações adequadas.

Uma dica do especialista é priorizar o seio que estiver mais cheio e, ao contrário do que é propagado pelo senso comum, nunca se deve usar compressa de água morna ou quente em situações de mastite. “Ainda temos alguns profissionais que preconizam a colocação de compressa de água quente”, reforça. E lembre-se: sempre esvazie um seio antes de passar para o outro.

Amamentando gêmeos
A farmacêutica Maria José Barbosa Duarte, de 44 anos, é mãe de Gabriel, 5 anos, e dos gêmeos Lucca e Marina, de 6 meses. Ao contrário do que ouviu durante a gestação inteira e até depois de a duplinha nascer após uma bem-sucedida fertilização in vitro, a empresária relata o sucesso do aleitamento dos caçulas. “Eu me preparei para amamentar, fiz curso, era algo que queria muito. Tem muito ‘terrorismo’ diante a amamentação, como se fosse coisa de outro mundo”, diz. Mas desde que vieram ao mundo, Lucca e Marina só se alimentaram de leite materno.

Ana Amélia Bittar/Arquivo Pessoal
Os gêmeos Marina e Lucca tiveram amamentação exclusiva durante os 6 meses contrariando todas as expectativas. "Eu perguntei para pediatra: 'é impossível?' Ela me respondeu que não e pronto" - Maria José Barbosa Duarte, de 44 anos (foto: Ana Amélia Bittar/Arquivo Pessoal )
“Eles nasceram de 37 semanas e foram direto para o quarto”, relata. Maria José confessa que ama amamentar e que o filho mais velho, Gabriel, mamou até um ano de idade. Ela se recorda que ouviu da pediatra que seria muito difícil não ter que complementar a alimentação dos gêmeos com leite artificial. “Eu perguntei: é impossível? Ela me respondeu que não e pronto”, narra. A farmacêutica tem ajuda de uma babá 24 horas por dia. “A gente fica cansada, quer dormir, mas como tenho uma empresa, sou autônoma, pude me dar ao luxo de tentar”, conta.

A mãe de Lucca e Marina diz que, na consulta de cinco dias, a médica constatou o ganho de peso. “Meu leite brotava”, recorda-se. No início, as crianças mamavam de três em três horas e o processo durava uma hora. “Eu até cheguei a tentar a amamentação ao mesmo tempo, mas não consegui. No início, eu dormia de 1h às 3h. Eu estava muito determinada, mas olho para trás e não sei como eu dei conta”, diz. Essa rotina durou três meses. “A partir daí eles já foram ficando mais fortes e aumentei o intervalo das mamadas à noite. Se precisasse sair, tirava leite na ordenha elétrica e a babá dava”, narra. Maria José ainda tinha que dar atenção ao primogênito. “Não adiantava eu querer só amamentar e dormir, o Gabriel exigia a minha presença, tinha que dar atenção a ele, brincar”, relembra.

No dia 12 de julho, os caçulas completaram seis meses e, atualmente, o dia a dia está mais tranquilo. Eles começaram com a papinha que substituiu uma das mamadas. A Marina ainda mama um pouquinho depois do almoço, mas o Lucca não quer mais. Assim, a dupla mama às 6h, às 9h, pula o almoço, às 17h, 19h e 23h30. “Até o dia que eles quiserem eu dou. Daqui a pouco entra o jantar e vai diminuir mais uma”, planeja.

A farmacêutica acredita que o aleitamento materno no Brasil está muito longe de alcançar um bom patamar. “Prevalece a ideia errada de que a criança não precisa mais amamentar, que existem os leites industrializados. Eu tinha que ouvir diariamente da minha babá que meu leite era fraco, que era por isso que eles acordavam à noite. Não é só ela que pensa assim, é muita gente”, observa. Maria José pondera que, se a mulher não tem ajuda, a amamentação pode ser mais cansativa. “A mãe quer ter conforto, dormir, mas infelizmente, não é o melhor para as crianças o leite artificial. Não sou radical, mas se a mulher pode, acho que vale o sacrifício. Não tem coisa melhor para eles nem para nós. É tão pouco tempo, eles crescem tão rápido”, salienta.


Amamentação prolongada
Enfermeira, doula e consultora em amamentação, Luciana Morais, 26 anos, é mãe de Arthur, 8 anos, e Alice, 2 anos e três meses. Na primeira gestação, sem informação qualificada, deu leite artificial antes dos seis meses. Aos nove, o mais velho – que nasceu de cesariana - desmamou. “Foi depois que passei pelo procedimento cirúrgico do parto que resolvi fazer enfermagem. Queria trabalhar com gestantes e crianças”, revela. A caçula nasceu de parto via vaginal e, segundo a mãe, já veio ao mundo de boca aberta querendo mamar. Foi só após os seis meses de aleitamento exclusivo que Alice começou a comer frutas. Até hoje, a garotinha recebe o leite materno.

Arquivo Pessoal
"Quando a Alice adoece, os sintomas são mais brandos, a cura é mais rápida" - Luciana Morais, 26 anos, com Alice, de 2 anos e três meses. A garotinha ainda é amamentada no peito (foto: Arquivo Pessoal )
Para Luciana, vários fatores influenciam a baixa adesão ao aleitamento materno no Brasil. Ela cita a correria do dia a dia, a falta de apoio dentro da própria família e até de profissionais da saúde, o cansaço. Pesquisa realizada pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) mostra que entre as décadas de 1990 e 2000, o uso exclusivo de leite materno no país cresceu de 25,7% para 45%. Contudo, a taxa ainda é inferior ao percentual definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que recomenda a ingestão do alimento entre 90% a 100% das crianças até os seis meses.

A enfermeira conta que a avó materna de Alice acha um absurdo uma menina ‘tão grande’ ainda mamar. “Ela acha feio”, conta. Escuto de muitas pessoas que o leite já não serve mais para nada, que é só água ou que é mania da Alice, gente que me para na rua para dizer essas coisas. “A amamentação prolongada assusta as pessoas. Só que eu sempre tive certeza do que eu queria e aí ficou mais fácil, acho graça e aprendi a lidar”, diz.

A consultora em amamentação reforça que no segundo e terceiro ano da criança, o leite materno não deixa de ter nutrientes. “Em nenhum momento o leite materno deixa de ter vantagens. É fonte de vitaminas, tem um valor energético considerável, proteína e o fator imunológico. Por volta dos 3, 4 anos, as crianças desmamam naturalmente”, explica.

O benefício imediato que ela percebe no dia a dia da filha é o fator de proteção contra doenças. “Quando a Alice adoece, os sintomas são mais brandos, a cura é mais rápida”, pontua. Luciana diz que a filha vai mamar até quando ela quiser. “Meu marido me apoia muito. Se não apoiasse tanto, não conseguira chegar até aqui”, reforça.

Sobre o preconceito com as mulheres que amamentam locais públicos, a enfermeira diz que a amamentação virou um tabu. “As mulheres que amamentam fora de casa são muitas vezes constrangidas. Nas redes sociais, se uma mãe publica uma foto, as pessoas criticam. Tira um pouco do prazer, desanima. Esse tipo de reação é um fator negativo que, junto com a desinformação, influencia a adesão ao aleitamento. O início da vida de um filho já é um momento de fragilidade da mulher, que se sente insegura em muitas situações. Aí vira um ciclo vicioso porque a mãe nervosa, tensa, influencia na produção do leite”, observa.

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