Sexo e câncer: uma convivência possível?

Aumento nas taxas de cura e sobrevida impulsiona abordagem da saúde sexual no tratamento de pacientes com tumor; prática ainda não é consolidada no Brasil

por Valéria Mendes 27/02/2014 13:00

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Clica Voigt
Diagnosticada com câncer de mama em 2012, a ex-modelo Flávia Flores não se deixou abater. Criou um blog, escreveu um livro e hoje é referência na internet para troca de experiências sobre a doença (foto: Clica Voigt)
Durante o ano de 2014, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima o diagnóstico de 576 mil novos casos da doença. O tumor na pele será o mais incidente na população brasileira, com 182 mil ocorrências esperadas; o de próstata aparece em segundo lugar, com a expectativa de 69 mil novos doentes e o de mama feminina em terceiro com 57 mil. Cólon e reto (33 mil), pulmão (27 mil), estômago (20 mil) e colo do útero (15 mil) vêm na sequência. Até 2030 são calculados 27 milhões de novos casos no planeta e, na última década, a incidência no mundo cresceu 20%. Os números não deixam dúvidas: mais do que nunca é preciso falar sobre o câncer. Neste cenário, abordar as formas de prevenção, os avanços da medicina e as formas de tratamento são aspectos importantes que envolvem a doença e devem ser esmiuçados. Mas não só. Cada vez mais cresce o número de pacientes que convivem com a enfermidade por anos e anos. As taxas de cura crescem, mas também as de sobrevida. É o momento de dispender atenção e tempo para focar na qualidade de vida do paciente e não apenas no combate ao tumor. E por que não incluir a sexualidade nessa discussão?

A Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que o sexo é um dos quatro pilares da qualidade de vida. A abordagem desse tema no tratamento de câncer no Brasil ainda não é uma realidade, mas vem ganhando força. “O sexo é importante para o paciente com câncer na mesma magnitude que é para o paciente sem câncer. Porém, para que ocorra, é fundamental que o organismo (corpo e mente) esteja em condições”, afirma o oncologista da Oncomed BH, Alexandro Chiari. O especialista admite que, apesar da importância da vida sexual para o paciente – e o companheiro ou parceira – a maioria dos médicos não aborda sistematicamente o impacto do câncer e seu tratamento sobre a função sexual. “Problemas sexuais são geralmente negligenciados a menos que o paciente seja assertivo em uma situação de crise”, diz. Para ele, como primeiro passo, os médicos devem discutir o atual nível de atividade sexual do paciente antes de iniciar o tratamento. “A consciência de problemas potenciais irá ajudar o paciente a adaptar-se às dificuldades do pós-tratamento. A discussão pré-tratamento sobre sexualidade fornece uma base para comparação durante reavaliação após tratamento. Quando são identificados problemas específicos, os médicos podem programar com sucesso intervenções que não exigem treinamento extensivo em terapia sexual”, sugere.

São centenas os tipos de neoplasias e, de acordo com Quiari, a vida sexual não é alterada em todos os tipos de câncer. “Depende da natureza biológica, localização, história natural da doença, tratamento necessário. É fundamental a avaliação individualizada de cada caso”, comenta. No entanto, em dois tipos muito frequentes – o câncer de mama e o de próstata – o paciente, segundo ele, “em alguma etapa do tratamento, seja ele cirúrgico ou sistêmico (quimioterapia ou hormonioterapia), passará por modificações orgânicas que vão influenciar o desempenho sexual”.

Oncologista clínica do A.C.Camargo Cancer Center, Solange Moraes Sanches concorda que a abordagem do sexo no tratamento do câncer não está consolidada no Brasil. Nos Estados Unidos, já se fala em uma especialidade denominada oncosexology (ou oncosexologia, em tradução livre) para tratar as questões da sexualidade desses pacientes. “Vai muito da percepção que o oncologista tem do tratamento”. Ela explica a razão: “Durante muito tempo os médicos tinham a vivência de pensar o paciente com câncer como um paciente temporário. As taxas de sobrevida eram curtas. Hoje vivemos um estágio em que cada vez mais as taxas de cura são maiores e taxas de sobrevida mais expressivas. Determinadas questões que não apareciam 10 anos atrás, hoje são bastante atuais”.

Alexandre Chiari acredita que a avaliação e o apoio de um ginecologista e um sexólogo podem ser de grande importância para as mulheres com câncer de mama. “A disfunção sexual da mulher, na maioria dos casos, provém dos baixos níveis de estrogênio que ocorrem durante tratamento do câncer de mama e a reposição deste hormônio é completamente contraindicada. Existem vários estudos na literatura científica que citam medicamentos com o objetivo de minimizar os efeitos dos antiestrogênicos, porém sem resultados satisfatórios”, pondera.

Wladmir Dal Bó
Flávia Flores conta que explicar para o parceiro a ausência de lubrificação vaginal (um dos efeitos colaterais da quimioterapia) foi tarefa delicada (foto: Wladmir Dal Bó)
Sexo sem timidez

Mãe, ex-modelo, produtora de moda, blogueira, escritora e palestrante, Flávia Flores, 36 anos, foi diagnosticada com câncer de mama em outubro de 2012. “Em novembro do mesmo ano passei pela mastectomia bilateral com reconstrução imediata. Mês que vem completo um ano e meio de tratamento e já estou na reta final da quimioterapia”, afirma. Autora do livro “Quimioterapia e Beleza – Dicas de uma ex-modelo para superar o câncer e manter a saúde, a sensualidade e o alto-astral”, ela é referência na internet para mulheres que também lutam contra a doença. Sua Fanpage no Facebook ultrapassa os 53 mil seguidores e alcança mais de um milhão de visualizações por mês. O diferencial da abordagem que ela apresenta aos interlocutores é tratar o tema de maneira leve e bastante positiva. Assim, não se furta em interpelar qualquer assunto que envolva o tratamento, inclusive o sexo.

Flávia conta que quando tomou conhecimento da doença estava namorando. “Estávamos juntos há três meses. Eu fiquei doente e ele me largou. Simplesmente não falou mais comigo quando descobriu”, recorda-se. Apesar de pesquisas científicas demonstrarem que o apoio de pessoas próximas é fundamental para quem luta contra uma doença grave, não é raro situações como a relatada pela ex-modelo.

Apesar do episódio de abandono, ela deu a volta por cima. “Eu estava carequinha quando conheci meu novo namorado. Foi uma fase difícil, eu não tinha lubrificação nenhuma, zero. No período em que fiquei sozinha não sentia falta da libido, mas quando comecei o relacionamento essas questões vieram à tona”, diz. Flávia Flores revela que sentiu falta de a sexualidade não ter sido uma questão abordada durante o tratamento. “Muitas coisas são deixadas para trás. Ninguém me falou sobre a possibilidade de perder minha fertilidade ou preservar meus óvulos. Não fui alertada sobre a secura vaginal. Eu que fui atrás. Procurei meu ginecologista que me apresentou um medicamento e realmente ajuda bastante, mas não pode ser usado mais que duas vezes por semana por conter uma dose de hormônio”, alerta.

Como ela estava iniciando um novo relacionamento, Flávia diz que explicar a ausência de lubrificação para o parceiro foi tarefa delicada. “Ele achava que eu não estava gostando, os lubrificantes conhecidos comercialmente não adiantavam. Às vezes eu tinha que colocar o conteúdo dentro da vagina senão ficava impraticável. No começo, ele achava tudo isso estranho, mas depois percebeu que era assim todas as vezes e quando abordei o assunto no meu blog como um dos efeitos colaterais do tratamento contra o câncer de mama, ele ficou mais confortável com a situação”, afirma.

Na reta final da terapia, o namorado já não é o mesmo e o cenário da vida sexual da ex-modelo também está em transformação. “Lembro exatamente o dia em que a lubrificação começou a voltar. Meu namorado pegou o finalzinho da secura vaginal e também o início de quando começou a normalizar. Foi bem divertido”, brinca. Flávia conta que recebe muitas perguntas que envolve o sexo durante o tratamento do câncer. “Muitas mulheres contam que os maridos acham que durante a quimioterapia a relação sexual é proibida. Gosto de lembrá-las que estão cuidando de uma coisa que é a vida delas, que o carinho do marido é importante. Não é um bicho de sete cabeças. A gente não tem que fazer compra, levar filho no colégio, cuidar da casa? Temos que fazer sexo também”, provoca.



Tratamento e sexualidade
Solange Sanches explica que os efeitos da terapia sobre a vida sexual de homens e mulheres é multifatorial. “Primeiro temos a questão emocional. Quase sempre o diagnóstico vem acompanhado do conflito, a sensação de reviravolta da vida. Inicialmente, o impacto do diagnóstico pode influenciar a libido e eventualmente a disposição sexual desse indivíduo. Na sequência, temos as consequências que resultam do tratamento, que são as mudanças de caráter físico. A pessoa pode sentir mais cansaço, mais fadiga, sentir dores por conta da quimioterapia, passar por períodos de muito enjoo, de queda na resistência e ficar mais debilitada na busca para exercer a sexualidade”, esclarece. A especialista reforça que o tratamento anti-hormônios – tanto para homens como para as mulheres – também provoca queda da libido e, no caso deles, diminuição da ereção e disfunção erétil, já para as mulheres, o ressecamento vaginal. “Acaba ficando tão desconfortável que todos esses fatores contribuem para a falta de disposição para o sexo”, completa.

Alexandre Chiari diz ainda que alguns procedimentos cirúrgicos abdominais e pélvicos podem danificar a enervação para os órgãos pélvicos, causando graus variáveis de disfunção erétil. “Homens com câncer de próstata em algum momento da doença podem necessitar de medicamentos antiandrogênicos que repercutem de forma significativa no desempenho sexual, tanto no desejo, quanto na potência”. O especialista evidencia que dentro do contexto de tratamento do câncer de próstata, em qualquer fase da doença e qualquer que seja o tratamento necessário - prostatectomia, radioterapia ou hormonioterapia - todos afetam de forma considerável a potência sexual do homem, obviamente reservando as particularidades de cada caso, como é próprio da medicina. “Dentro da minha experiência, os homens abordam mais a questão sexual e ficam mais incomodados com a situação de impotência. Alguns apresentam o fato até com o mesmo peso de importância que o controle da doença oncológica”, revela.

Apesar de tantas barreiras, Solange Sanches reforça que a questão sexual precisa ser abordada individualmente com orientações iniciais preventivas. “O médico precisa saber quais fatores estão sendo mais afetados, ouvir cada uma dessas queixas e personalizar a indicação de medicação para amenizar os efeitos colaterais, mas também fornecer orientações comportamentais”, acredita. A especialista diz que o acompanhamento de um psicólogo ou de um psiquiatra também pode ajudar na aceitação de todas as dificuldades do tratamento. “É preciso criar mecanismos de fortalecimento emocional para que o paciente possa exercer a sexualidade adaptada à sua condição atual, mas de forma bastante saudável”, resume.
Para ela, não se pode subestimar a questão da sexualidade principalmente em casos em que o tratamento é mais prolongado. “O suporte de outros especialistas – como o ginecologista no caso de mulheres e urologista, no de homens – é importante para tentar fazer com que a vida do indivíduo seja o mais normal possível”. Solange Sanches acredita que a sexualidade não pode ser vista exclusivamente sob o espectro da genitalidade ou da penetração, mas buscando também outras formas de prazer. “Uma ereção adequada, mucosas íntegras, sim, são coisas importantes. Mas no momento específico da fase de um tratamento em que esses fatores não possam ser revertidos 100%, os pacientes de câncer não podem deixar de exercer sua sexualidade”, defende.

Arquivo Pessoal
A notícia do diagnóstico de câncer de mama em 2011 fez Kátia Soares mudar o estilo de vida. Ela diz que tem mais ânimo e mais energia para o sexo do que antes do câncer (foto: Arquivo Pessoal )
Mente sã, corpo são

A jornalista Kátia Soares, 39 anos, é autora do blog ‘Viver bem até os 100’ e descobriu o câncer de mama em 2011 quando sua filha tinha 3. Em sua página, se dispõe a trocar experiência com outras pacientes e afirma que, para muita gente, a questão do sexo durante o tratamento de câncer é tabu. “A falta de vontade de fazer sexo é uma reclamação frequente das mulheres”, revela. No ambiente virtual, diz que uma brincadeira muito comum para resumir o incômodo é a expressão “mulher tamofixenada”. Kátia explica que o citrato de tamoxifeno, medicamento usado no tratamento da doença, é um inibidor hormonal e um de seus efeitos colaterais é a diminuição do interesse pelo sexo. Para ela, a própria terapia já mexe muito com o emocional e a auto-estima. “A mulher fica careca, sente muito enjoo, vomita. São fatores que não favorecem em nada a vida sexual”, reforça.

No entanto, a jornalista se considera exceção dentro desse cenário e credita esse ‘privilégio’ a uma boa alimentação e à prática de exercícios físicos. “Comigo não foi bem assim. Fazia quimioterapia em um dia, no outro estava correndo na lagoa da Pampulha. Mesmo no início do tratamento, mantive minhas atividades físicas para liberar endorfina. Lógico que tive momentos de ficar mais na minha, mas não deixei de fazer nada”, conta. Kátia fala que o marido foi um grande companheiro durante todo o tratamento, mas reconhece: “Não é todo marido que é parceiro, existem muitos casos de homens que abandonam as esposas que passaram pela mastectomia. Meu marido me compreendeu nos momentos em que precisei e não achou que fosse demais eu dizer não em algumas situações”.

Kátia também é adepta da musculação e está no terceiro de cinco anos de hormonioterapia que precisa encarar. “Acho que a questão do sexo passa também pelo estilo de vida. Independentemente do câncer, tem muita gente que não tem tempo para nada. Ano passado, abri mão de um emprego bom, com salário bom, mas que era muito longe da minha casa. Montei meu próprio negócio em minha residência. Ganho menos? Sim, mas tenho tempo para curtir minha filha, minha casa e isso tem a ver com sexo sim. A correria do dia a dia, o estresse do trânsito e ainda ter que chegar à noite estar linda e sarada para o marido?”, problematiza.

Hoje ela diz que tem mais ânimo e mais energia para o sexo do que antes do câncer. “Me sinto mais feliz em função da mudança no estilo de vida. Tenho muito mais entusiasmo na minha vida como um todo do que antes”, revela. Aos 36 anos ela foi diagnosticada com um nódulo na mama esquerda e precisou retirar um quadrante do seio. Na sequência, passou por onze meses de seções de quimioterapia e radioterapia.

Por muito tempo a vida depois do tratamento do câncer foi deixada de lado por médicos e pacientes. Mas hoje, já é padrão no tratamento do câncer lançar mão de terapias complementares para amenizar efeitos colaterais como náusea e anemia e é o que se espera que aconteça também com a saúde sexual dos pacientes. “O tratamento precisa ser multidisciplinar não só para o tumor, mas para o doente. Se algum médico ainda não pensa assim, tem que começar a pensar. E se o paciente não toca no assunto, muitas vezes por inibição, é papel do especialista levantar esse tema nas consultas”, afirma Solange.

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