Johnny Hooker dá a volta por cima e lança seu segundo disco

Produção serviu como antídoto à depressão e traz parcerias com Liniker e Gaby Amarantos

por Guilherme Augusto 28/07/2017 08:00

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
Johnny Hooker diz que a foto de capa de seu disco (abaixo) "carrega um significado de batismo. O coração fora do peito mostra que não importa quantas vezes seja destruído, ele sempre vai dançar sobre essas dores" (foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)

Na mitologia grega, a fênix é um pássaro lendário que morre e entra em combustão para, posteriormente, renascer de suas próprias cinzas. O mito é uma boa alegoria para a história por trás de Coração, novo disco do cantor pernambucano Johnny Hooker, lançado no último domingo, 23. “Durante o processo de produção, lutei contra muitos demônios pessoais, então esse trabalho assume uma postura mais solar e combativa”, afirma.

“Já venho lutando contra a depressão há muitos anos. O que muita gente trata como besteira ou frescura, na verdade é uma doença seriíssima. Durante a turnê do meu primeiro disco – Eu vou fazer uma macumba pra te amarrar, maldito! (2015) – esse quadro piorou muito, porque, na estrada, ficamos muito expostos”, conta. Além disso, como nas histórias que são comuns em suas canções, Johnny foi protagonista de um baque amoroso. “Eu estava namorando/casado há três anos e, um dia, cheguei em casa depois de um dos shows e ele tinha simplesmente ido embora. Foi aí que comecei a me sentir completamente no escuro, incompreendido”, diz.

O músico decidiu então buscar ajuda para se reerguer e uma de suas “redes de proteção”, como ele batizou tudo aquilo que o resgatou, foi compor o disco, no melhor estilo ‘se a vida lhe der limões, faça deles uma limonada’. Nesse contexto nasceram as canções  Eu não sou seu lixo e Página virada. “Coração fala sobre resistir e renascer de uma forma afetuosa, já que adotei essa coisa de ‘mate-os com sua bondade’”, afirma o músico.

Para Hooker, a força do disco está estampada também na capa, que traz uma foto tirada em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, na qual ele aparece emergindo do mar com direto a ‘carão’ e um coração feito de espelhos pendurado em seu pescoço. “Tenho uma ligação muito forte com o mar, e a presença dele nesta foto carrega um significado de batismo. O coração fora do peito mostra que não importa quantas vezes seja destruído, ele sempre vai dançar sobre essas dores”, comenta.

Mas como nem tudo são flores, Johnny Hooker não deixa de pontuar que seu trabalho, apesar de afetuoso, levanta bandeira contra a homofobia, o preconceito e a violência. “O Brasil é o país que mais mata LGBTs, negros e mulheres no mundo, e o brasileiro ainda é visto como cordial e receptivo, mas, na verdade, é religioso e violento.” Para ele, as músicas que falam sobre orientação sexual farão parte de seu legado e servem como sua “mensagem na garrafa para o futuro, dizendo que, em 2017, não ‘era’ legal ser gay no Brasil”. Na última semana, depois que Ney Matogrosso concedeu uma entrevista à Folha de S.Paulo na qual disse a frase “gay é o caralho, eu sou um ser humano”, Hooker publicou um texto fervoroso em suas redes sociais criticando o artista.

“Acho que muita gente, não só a classe artística dessa geração dos anos 1970, ainda continua com um discurso humanista abstrato, que é muito perigoso, porque cala e apaga. Não me espantaria se visse [o deputado federal Jair] Bolsonaro (PSC-RJ) com esse tipo de manifestação”, diz.

“A questão é que, no Brasil, a gente não tem o costume de contestar as ‘autoridades’. Se eu falar alguma besteira, quero aprender com isso. Então acho muito triste que as pessoas levem isso para uma questão diminuída como uma briga de um artista contra outro”, afirma, sobre a reação negativa do público ao seu comentário. “A violência no Brasil é muito grande. Quando qualquer meio de comunicação publica uma notícia sobre mim, recebo, imediatamente, ataques homofóbicos. E isso acontece porque sou gay. Essas pessoas não me veem como ser humano. Mas isso faz parte do meu trabalho como artista. A arte tem que causar incômodo e os artistas sempre mexeram nos botões”, avalia.

 

 

INSPIRAÇÃO Apesar de sua discordância do ponto de vista de Ney Matogrosso e da geração dos 70, Hooker conta que busca inspiração em artistas que, anteriormente, foram símbolos de resistência. Na música Caetano Veloso, ele homenageia o baiano, a quem classifica como o “maior compositor da música brasileira”. A canção transforma Caetano em uma sensação para ser sentida na pele, ligada ao pertencimento do povo nordestino. Outro homenageado é o inglês David Bowie (1947-2016) na faixa pop Poeira de estrelas. “Essa música é sobre a perda dele, mas abrange também a minha relação com a morte”, comenta.

Destaques no álbum são também as parcerias com outros artistas, fato inédito nas gravações de Hooker, em que o cantor revela um olhar cinematográfico para suas composições. Na parceria com Gaby Amarantos ele cita o filme Telma & Louise (1991) e na colaboração com Liniker ele enxerga a trama do filme Delicada atração (1996). “Em Corpo fechado estou sofrendo e chamo a Gaby para me salvar de algumas almas sebosas”, brinca ele, em referência a um de seus maiores sucessos, a música Alma sebosa.

Já em relação a Liniker, a coisa é mais embaixo. Os dois se conheceram durante um festival em que se apresentaram no mesmo palco. Johnny viu o show de Liniker, ficou completamente hipnotizado por sua performance e determinou que o ponto de encontro dos dois seria marcado pela luta política. “Sonoramente, a gente se distancia um pouco, mas a abordagem romântica e o fato de usarmos o afeto para lutar por uma reafirmação estão presentes no trabalho dos dois”, comenta o pernambucano. “No show dela a que eu assisti,  fiquei maravilhado, parecia que ela estava ‘flutuando’”. A união dos dois resultou na música Flutua, carro-chefe do disco, que conta a história de um casal homossexual que luta para ficar junto.

Coração ainda reserva surpresas, como a incorporação de novos ritmos musicais, algo que o cantor credita ao fato de ter percorrido o Brasil com sua última turnê. “Macumba é um disco muito recifense e, ao poder viajar com ele, entrei em contato com outras culturas, como o samba no Rio de Janeiro ou a magia de Salvador, na Bahia”, cita.

Em suas 11 faixas, o disco é marcado por altos e baixos e mantém as letras apaixonadas, assim como o instrumental orgânico, tradicionais nos trabalhos do artista. As canções são mais quebradiças e experimentais do que em seu disco de estreia, mas o novo trabalho consegue sustentar a alcunha de pop e, ao fim e ao cabo, é afirmativo e categórico.

“Sinto a pressão de fazer um segundo disco bem-sucedido, mas esse trabalho é muito mais do que isso para mim. Eu me agarrei nele para sobreviver, ele representa que eu escolhi a vida”, afirma. E como a própria ave grega que faz de suas intempéries a porta de saída da morte, o músico mostra nesse trabalho o esqueleto de suas próprias aflições, fraquezas e forças. “No Brasil, a gente vive em um cenário de terra arrasada e o brasileiro sempre acha uma maneira de começar de novo. Escolhi fazer o mesmo.”

*Estagiário sob a supervisão de Silvana Arantes

CORAÇÃO
• Artista: Johnny Hooker
• Gravadora: Natural Musical
• Disponível nas plataformas digitais

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