Imagine terminar a sexta-feira sabendo que o sábado inteiro é seu. Sem revezamento, sem escala puxada, sem um único dia de folga espremido entre seis de trabalho. Para os cerca de 14 milhões de brasileiros que vivem hoje na escala 6×1, isso ainda não é realidade, mas nunca esteve tão perto de virar lei.
O projeto que Lula mandou com urgência em abril de 2026
Em 14 de abril de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou e enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei em regime de urgência constitucional para acabar com a escala 6×1. O texto propõe reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, garantir dois dias de repouso remunerado por semana e proibir qualquer redução salarial. O projeto altera diretamente a CLT e outras legislações trabalhistas específicas.
A urgência constitucional impõe prazo: o Legislativo tem 45 dias na Câmara e mais 45 dias no Senado para deliberar. Se a Câmara não votar nesse prazo, a pauta de votações da Casa pode ser travada. O governo estima aprovação em até três meses, o que colocaria a nova regra em vigor ainda em 2026.

E a PEC das 36 horas? Ela ainda existe — e vai mais longe
Paralelamente ao projeto do governo, tramita no Congresso a PEC 148/2025, que já passou pela CCJ do Senado e tem uma proposta ainda mais ambiciosa. Ela prevê uma redução gradual até 36 horas semanais, com dois dias de descanso integral, atingindo essa meta apenas em 2030. O cronograma seria escalonado ano a ano após a aprovação.
Ou seja, o Brasil tem dois caminhos abertos: o PL do governo, mais imediato e focado em 40 horas, e a PEC, mais profunda e de prazo mais longo. Os dois garantem o fim do 6×1 e a proibição de corte salarial, mas diferem em velocidade e profundidade da mudança.
Quem é atingido e o que muda na prática
Os números dão a dimensão real do que está em jogo. Segundo dados do próprio projeto de lei, veja quem é diretamente afetado por essa mudança:
- 37,2 milhões de trabalhadores têm jornada acima de 40 horas semanais hoje, o equivalente a 74% dos celetistas
- 14 milhões de brasileiros trabalham na escala 6×1, com apenas um dia de descanso por semana
- 1,4 milhão de trabalhadoras domésticas estão entre os que vivem nessa rotina exaustiva
- 26,3 milhões de celetistas não recebem horas extras, indicando que muitas jornadas já são mais longas do que o registrado
- A proposta abrange domésticos, comerciários, atletas, aeronautas, radialistas e outras categorias da CLT e leis especiais
Sem redução de salário: tanto o PL do governo quanto a PEC proíbem qualquer corte nominal ou proporcional na remuneração dos trabalhadores.
Dois caminhos, um objetivo: o PL quer chegar a 40 horas já em 2026 com urgência; a PEC prevê redução gradual até 36 horas em 2030.
Acordos coletivos mantidos: escalas como a 12×36 continuam possíveis, desde que respeitem a média semanal prevista em lei e sejam negociadas com sindicatos.
O mundo já mudou — e o Brasil está atrasado nessa conta
A redução da jornada de trabalho não é uma ideia nova nem experimental. O México promulgou em março de 2026 uma reforma constitucional que reduz gradualmente a jornada de 48 para 40 horas até 2030. O Chile aprovou redução de 45 para 40 horas até 2029. A Colômbia está em transição de 48 para 42 horas. Na Europa, a França adota 35 horas semanais desde os anos 2000, e Alemanha e Holanda já operam na prática com médias abaixo de 40 horas.
Saúde mental, família e o custo real de trabalhar demais
Em 2024, o Brasil registrou cerca de 500 mil afastamentos por transtornos mentais, incluindo ansiedade, depressão e burnout, de acordo com o Ministério da Previdência Social. Estudos internacionais sobre redução de jornada mostram queda no absenteísmo, melhora na saúde mental e aumento de produtividade quando as horas são bem organizadas. Levantamentos do Ipea estimam impacto de 1% a 6,6% nos custos operacionais dependendo do setor, com os maiores efeitos em áreas de operação contínua como vigilância e segurança.
Trabalhar menos horas não é preguiça, é ciência. E agora, pela primeira vez na história recente do Brasil, essa mudança tem prazo, urgência e nome de lei.
Gostou de entender como o fim do 6×1 pode mudar a sua rotina? Compartilhe com quem também merece dois dias de descanso garantidos toda semana!






