A ambição humana já ergueu pirâmides, atravessou oceanos e chegou à Lua. Mas alguns megaprojetos impossíveis desafiam leis que não podem ser contornadas. A cidade linear The Line, na Arábia Saudita, prometia 170 quilômetros de extensão, 500 metros de altura e zero emissões. Cinco anos e 50 bilhões de dólares depois, apenas 2,4 quilômetros saíram do papel. A física e a economia cobraram seu preço.
O que torna um megaprojeto impossível?
Nem toda obra grandiosa é impossível. A engenharia moderna constrói túneis sob o mar, pontes suspensas e arranha-céus que resistem a ventos extremos. O problema surge quando o projeto ignora três limites fundamentais: a física dos materiais, a capacidade da cadeia produtiva global e a viabilidade econômica.
The Line, o projeto-símbolo do complexo Neom, tentou burlar os três ao mesmo tempo. O plano original previa uma estrutura de 170 km de comprimento, 500 metros de altura e apenas 200 metros de largura, abrigando 9 milhões de pessoas. Cada módulo de 800 metros consumiria milhões de toneladas de aço e concreto, uma demanda que ultrapassa a capacidade de produção mundial de aço verde.

Por que a física impede certos projetos?
Alguns planos simplesmente violam as leis da natureza. Um dos elementos do projeto saudita era um edifício de 30 andares suspenso de cabeça para baixo sobre uma marina. Um arquiteto alertou os gestores: “Você tem consciência de que a Terra gira? E que torres altas balançam?”. O edifício poderia começar a se mover como um pêndulo, ganhar velocidade e se desprender, caindo sobre a marina.
Os três desafios físicos mais comuns em megaprojetos são:
Quais são os limites econômicos dos megaprojetos?
Mesmo que um projeto seja fisicamente possível, ele pode ser economicamente inviável. O custo de The Line saltou de uma estimativa inicial de 1,6 trilhão de dólares para 4,5 trilhões, um valor comparável ao PIB de grandes economias.
O Fundo de Investimento Público saudita, que financia o projeto, caiu para 15 bilhões de dólares no início de 2024. Investidores estrangeiros não apareceram na escala esperada, e fornecedores relataram que os volumes pedidos ultrapassavam a capacidade global.

Quando a obra vira um experimento mental?
Um urbanista que trabalha na Arábia Saudita resumiu o dilema de The Line: “Como experimento mental, é fantástico. Mas não se constroem experimentos mentais”. A frase captura a diferença entre imaginar o impossível e executá-lo.
Quem quer entender a dimensão desses projetos vai gostar desse vídeo do canal Process Core, que tem mais de 36 mil inscritos e mostra como megaprojetos que parecem impossíveis saem do papel ou fracassam:
O que aprendemos com os megaprojetos que falham?
A lição de The Line não é que a ambição seja ruim. É que projetos precisam ser testados contra a realidade antes de consumirem bilhões. Estudos de viabilidade técnica e econômica não são obstáculos burocráticos. São a diferença entre construir algo que dura e deixar um deserto de fundações.
O Neom continua oficialmente como prioridade estratégica, mas a escala foi drasticamente reduzida. A ambiência do projeto mudou de “prova de que o impossível é possível” para “desenvolvimento multigeracional”.
Megaprojetos bem-sucedidos compartilham uma característica: eles respeitam os limites e inovam dentro deles. O Túnel do Canal da Mancha levou séculos de tentativas e só foi concluído quando a tecnologia alcançou a ambição. A diferença entre o impossível e o extraordinário está no tempo e na humildade de reconhecer o que a física permite.

