Irã dribla direito à liberdade de expressão política e igualdade de gênero para crescer

Uma revolução que colocou o país de pé diante do mundo e se consolida como potência regional. Embora menos radical que outros países islâmicos, o Irã ainda luta contra sanções impostas ao chamado 'Eixo do Mal'

por Bertha Maakaroun 30/12/2017 13:31
Bertha Makaroun/EM/D.A Press
Mesquita Sheikh Lotfollah, vista da sacada do Palácio Ali Qapu, na praça de Naqsh-e Jahan, em Esfahan, cujo nome original era "Praça da Imagem do Mundo", referência à sua beleza e ao poder do Império Safávida (foto: Bertha Makaroun/EM/D.A Press)

Quando chegamos à imigração no Aeroporto de Heathrow, em Londres, decididos a almoçar na cidade em vez de aguardar oito horas pela conexão para Teerã, o questionamento se traduziu num misto de espanto e de fascinação: “Vocês vão para o Irã?”. Na volta ao Brasil, igual reação britânica, veio acompanhada de intensa curiosidade e inúmeras perguntas. “Sim, o Irã é um país seguro”. “A história, o sincretismo cultural de civilizações brilhantes construíram um país excepcional”. “Persépolis, Pasárgada, a necrópole, palácios, jardins, praças, música, a gastronomia...” O agente do Reino Unido não continha o seu entusiasmo e confessou o desejo de um dia visitar a Pérsia. A conversa se alongou por uns 10 minutos. Ainda não são tantos os turistas que chegam ao Reino Unido  com destino a Teerã.

As potências ocidentais, afetadas em seus interesses pela Revolução Islâmica de 1979, nas décadas que a ela se seguiram, trataram de incluir o Irã no propalado “eixo do mal”. A má vontade para com o país é explícita e se reverte, entre outros, em sanções internacionais. O que se ouve sobre o Irã são os aspectos da teocracia islâmica, que, particularmente para nós mulheres, representam alguns séculos de retrocesso. Apesar disso, não há base de comparação, por exemplo, entre a aplicação da lei no Irã e  na Arábia Saudita, que também adota a Sharia – e só este ano passou a tolerar mulheres motoristas.

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Em Pasárgada, tumba de Ciro, fundador da Dinastia Aquemênida (550a.C.-330 a.C.) e do primeiro Império Persa, o maior da história (foto: Bertha Makaroun/EM/D.A Press)

E se a chamada polícia moral, nos primeiros anos da Revolução Islâmica, atuava intensamente nas ruas, repreendendo e conduzindo à delegacia qualquer suspeita de atentado aos bons costumes – e a referência do que seja isso, se inicia, por exemplo, com um homem andar pelas ruas ao lado de uma mulher que não seja esposa, filha ou irmã – atualmente, há um certo relaxamento nessa “fiscalização”. As mulheres carregam os seus hijabs (lenços) à meia cabeça, por vezes escorregando aos ombros. Não são muito frequentes, mas vimos jovens de mãos dadas e algumas raras demonstrações de afeto em público. Não poucas vezes fui cumprimentada por homens com aperto de mão, o que seria impensável décadas atrás.  Ao que tudo indica, parece não haver clima político  e adesão popular para a aplicação das duras e eventuais condenações, para nós ocidentais absurdas, previstas na Sharia.

Mas o Irã está muito além da Sharia. Viajei a convite de meu marido Eugênio Gomes, economista e cientista político, que foi professor de história econômica e adora explorar as histórias do mundo. Eu e ele, obviamente, tínhamos expectativas distintas sobre o que iríamos encontrar. Juntos descobrimos um povo hospitaleiro, amigo, delicado, sincero e extremamente honesto. Diferentemente do que ocorre em alguns países do Ocidente, no Irã soube o que realmente estava comprando em cada loja. Em alguns estabelecimentos, a descrição exata do produto fez com que desistíssemos. Mas, muito tranquilos e inabaláveis, os vendedores mantinham a precisão. Por três vezes,  esqueci a bolsa, uma vez o Ipad. Em todas elas vieram atrás de nós entregar os objetos.  Essa foi a nossa experiência.

A Revolução de 1979 A Revolução Islâmica deve ser compreendida em seu contexto histórico: foi por meio da religião que este país, que apesar de suas riquezas naturais era assolado pela miséria, encontrou uma saída para tomar as rédeas de seus interesses. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o Irã, assim como todo o Oriente Médio e próximo, se debatem no tocante à exploração e comercialização do petróleo, e toda a gama de produtos e serviços derivados. Com o fim do conflito, a presença britânica remanescente começou ser varrida do Irã pela influência soviética e norte-americana. Ao mesmo tempo, os ventos dos movimentos nacionalistas árabes no Oriente Médio chegaram em sua versão persa ao Irã em 1951:  toda a indústria do petróleo fôra totalmente nacionalizada em votação parlamentar, liderada pelo primeiro ministro Mohammed Mossadegh. Prevendo as perdas da Anglo-Persian Oil Company, a Inglaterra decidiu boicotar o petróleo iraniano; enquanto conspirava com o governo norte-americano de Eisenhower para derrubar o incômodo primeiro ministro. O ano era o de 1953 e o xá Mohammad Reza Pahlavi – que reinou entre 1941 a 1979 – participou diretamente da conspiração. Até então era um monarca constitucional, mas passou a governar de forma autocrática, atendendo aos interesses britânicos e, principalmente, norte-americanos.

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Moderno restaurante iraniano, em Shiraz (foto: Bertha Makaroun/EM/D.A Press)

O ciclo de governo baseado na dura opressão interna e escudado nos militares iranianos durou até o início dos anos 1970. A ditadura da dinastia Pahlavi começou a ser duramente denunciada na Europa pelas ações criminais de sua polícia secreta, a Savak. Pressionado pelos americanos e ingleses, o xá Mohammad Reza Pahlavi iniciou no Irã um movimento de ocidentalização da cultura persa. Valores tradicionais, dentre eles a religião islâmica, passaram a ser desconsiderados. Setores do clero oposicionista foram perseguidos e forçados a se exilar, como ocorreu com o aiatolá Ruhollah Khomeini (1902-1989).

No contexto da Guerra Fria, preocupada com os comunistas, a Savak menosprezou os movimentos islâmicos tradicionalistas que cresciam fortemente, especialmente porque  identificavam nos “valores ocidentais” difundidos pelo xá – e na brutal opressão policial – os ganhos das corporações estrangeiras em detrimento da população, afundada na pobreza. Os movimentos islâmicos tiveram, assim, o seu trabalho facilitado em parte pela Savak, que destroçou as mobilizações de inspiração socialistas e comunistas, identificadas com a Rússia, tradicional inimiga do Irã ao Norte, assim como a sua sucessora, a União Soviética.

Após diálogos que mantivemos com diversos clérigos, que, amigavelmente se dispunham em algumas mesquitas a conversar sobre o Irã e o Islã, a hipótese de Eugênio sobre a Revolução de 1979, parece se confirmar. Nos anos 1970 os setores mais pobres das zonas urbanas e rurais foram cooptados pela estrutura clerical do islamismo xiita. Em 1978 todos os opositores clericais ou laicos do regime estavam em forte escalada de contestação. Em 8 de setembro de 1978, numa sexta- feira, dia de orações para os muçulmanos, uma manifestação religiosa na praça central de Teerã foi brutalmente reprimida pelos militares e pela Savak. Ficou conhecida como Black Friday. A partir dali foi uma questão de tempo para a queda do xá. O exército se desintegrou quando os soldados se recusam a atirar nos manifestantes e os generais foram presos, quando não atacados nas ruas de Teerã.

Embora o xá tenha acenado com reformas, era tarde: a exigência que fosse dado um fim na monarquia corria os quatro cantos do país. A reivindicação se concretizou no ano seguinte, quando Mohammad Reza Pahlavi viajou ao exterior, sob o pretexto de tratar de um câncer. Deixou o governo nas mãos de um civil liberal, Shapour Baktiar. Ele só conseguiu governar por pouco mais de um mês e, com o retorno de Khomeini em 1º de fevereiro de 1979 a Teerã, a sua estupenda recepção diante de mais de 2 milhões de pessoas nas ruas demonstrou que o clero xiita já estava no controle. As demais forças políticas que derrubaram o xá passaram a ser reprimidas. Os partidos comunistas, Tudeh (ligado a URSS) e outros, assim como os liberais, foram massacrados. A crescente tensão entre Irã e Iraque, que levaria os dois países à guerra por oito anos, selou a aproximação entre os clérigos xiitas e os militares.

O Irã segue uma teocracia islâmica. Alcançou conquistas políticas e econômicas inegáveis, tomou as rédeas de seu destino ao custo dos retrocessos conhecidos. Agora, mira à frente os desafios de alcançar a igualdade entre gêneros, uma demanda que já grita silenciosa sob os chadôs. Mais distantes estão os pleitos de direitos civis e liberdade política, mas existe a pressão e não pode ser desconsiderada, como ficou claro no recente episódio da chamada Revolução Verde. O Irã  é o maior rival da Arábia Saudita no Oriente Médio. Depois da guerra da Síria será surpresa se não se tornar a potência regional dominante. E após a nossa visita, pudemos depreender que a vitalidade da economia tem tudo para surpreender,  embalada pelas perspectivas da nova rota da Seda. E o país caminha, carregando consigo o refrão do fundador do império persa, o maior da história: “Mesmo se os céus fossem mais curtos do que meus joelhos, jamais me ajoelharia”.

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