Jardins persas do Irã carregam a tradição do zoroastrismo para alcançar a harmonia com Deus

A tradição cultural dos exuberantes jardins adotada por medos e persas está presente na primeira capital, Pasárgada

por Bertha Maakaroun 28/12/2017 07:50
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(foto: Berha Maakaroun/EM )
"Num jardim, renove a sua fé no zoroastrismo, Sim, no santuário dos magis, estes nos honram, Pelo fogo que nunca morre e se mantém forte, purificando nossos corações" - Hafez
Diz a lenda que os jardins suspensos da Babilônia, a sétima maravilha do mundo antigo, foram desenhados por ordem de Nabucodonossor II,  que reinou entre 604 a.C. e 562 a.C., para presentear a esposa, Amitis da Média,  que tinha saudades das montanhas Zagros, cordilheira que corta toda a extensão Oeste do planalto iraniano.  Assim copiava o rei os exuberantes jardins influenciados pelos seguidores do zoroastrismo, experts na adequada seleção de árvores, ervas e plantas, verdadeira composição de luz, sombra, microclima e vegetação, onde se “cultivava” a  saúde, refúgio espiritual e a cura.  Eram os pairidaezas – palavra persa para jardim, da qual foi derivada a ideia de paraíso  (Éden). Para Zarathustra (1768 a.C.-1691 a.C.), reverenciar a natureza corresponde a trabalhar a harmonia com a criação de Deus. Daí a sacralidade para essa religião dos quatro elementos: ar, terra, água e fogo.

A tradição cultural dos exuberantes jardins adotada  por medos e persas que, sob Ciro, o Grande (559 a.C.-530 a.C)  fundam o Império Aquemênida (550 a.C.- 330 a.C.), está presente na primeira capital, Pasárgada. Repetiria-se, contudo, não apenas naquelas que a sucederam – Ecbatana e Susa –, além de cidades emblemáticas como  Persépolis, símbolo da imortalidade do império. Os jardins, chamados também baghs, se perpetuaram nos palácios, espaços públicos e privados nas dinastias persas e não persas que se seguiram no Irã e hoje integram espaços públicos e privados. A sua concepção está presente do Alhambra (Espanha) dos séculos 13 e 14 ao Taj Mahal, na  Índia, do século 18. Inspirou todos os espetaculares monumentos e palácios reais renascentistas da Rússia de Catarina  à França de Luís XIV.

Os  jardins persas afloraram no contexto geográfico das terras expostas a climas extremos – de invernos severos a tórridos verões, inclusive desérticos, com tempestades de areia –, onde a questão da água se impunha de forma dramática. A  genial tecnologia dos qanats  foi desenvolvida pelas tribos nômades de indo-europeus – principalmente medos e persas: em algum momento por volta de 1000 a.C. desenvolveram métodos para buscar aquíferos sob as rochas e conduzir a água, pela força da gravidade, por  engenhosos túneis escavados ao longo de quilômetros através de regiões áridas. Esse sistema propiciou as condições para que do pó  se erigisse o primeiro império persa, o maior da Antiguidade, possivelmente o maior da história. Principalmente em cidades desérticas como Yazd, os qanats alcançam  reservatórios que, combinados com as torres de vento, propiciam água fresca e ambiente naturalmente arejado.

Desde a fundação de Pasárgada, o conceito original dos jardins persas encontrado na pesquisa arqueológica principalmente do Complexo de Palácios de Ciro, o Grande, se manteve inalterado por mais de dois mil anos. Além de combinar a tecnologia e manejo da água, arquitetura, conhecimentos da botânica e agricultura – de tal forma que sejam adaptados às condições climáticas adversas, os jardins têm proporções geométricas e são divididos em quatro seções (quadrantes) daí o nome Chahar (quatro) Bagh (Jardins), separados por trilha e cursos d’água, conectados por bacias intervalares que, além da função estética, irrigam e modificam o microclima do entorno. Frequentemente, os canais de água que cortavam jardins se conectavam aos espaços internos das edificações, sendo os ambientes externo e interno geralmente separados por elementos arquitetônicos, como arcos em formato de abóbodas.

Jardins inspiram poetas, que estão na base dos valores universais. Nas palavras de Hafez: “Você me perguntou se eu acho que os seus sonhos são verdadeiros. Diria que eles são, se fizerem de você mais humano, mais gentil com cada criatura e planta que você conhece”.

Para entender os versos de Hafez (1315-1390), poeta iraniano

Para zoroastrianos, o fogo é um elemento sagrado, símbolo da purificação, da verdade e da luz do deus Ahura Mazda. Os magis são seguidores de Zoroastro e, possivelmente, também pregadores dos princípios das escrituras do livro sagrado, o Avesta.  É provável que do termo ‘magis’ tenha se derivado a palavra mágico, o que inclui aqueles que detinham o conhecimento em astrologia e alquimia.