Galpão injeta poesia no campo de batalha com 'Outros'

Novo espetáculo da trupe mineira, em cartaz em BH, radiografa 'tempo de guerra' nas relações interpessoais e ausência de 'raciocínio próprio', mas transforma o espanto em discurso poético

por Silvana Arantes 23/10/2018 21:03

TÚLIO SANTOS/EM/D.A.PRESS
Os atores Paulo André e Antonio Edson em cena de 'Outros' (foto: TÚLIO SANTOS/EM/D.A.PRESS)
 

“- Esse tempo é tempo de guerra.
- É preciso achar uma brecha nesse tempo para entrar poesia.”

Quando ocorre esse diálogo em Outros – espetáculo que o Grupo Galpão estreou na sexta-feira (19) passada e cuja temporada em Belo Horizonte segue até 18 de novembro –, a ideia de dar uma resposta poética a um contexto de beligerância já está bem assentada. A bem da verdade, ela se desenha desde o primeiro minuto da encenação, com os atores dispostos no palco à moda de uma banda de rock.

Alternando-se entre instrumentos (como a bateria) e os vocais, eles delineiam um campo de embate no qual a mulher refuta as categorizações de “louca”, “puta” ou “velha” e assinala o fim de sua condição de “porcelana”, da mesma forma que o homem gay arranca do termo “bicha” sua conotação pejorativa.

A pasteurização do pensamento é vista com assombro por um ator (Antonio Edson) que anseia ouvir “uma ideia que tivesse alguma coisa de raciocínio próprio; qualquer que seja ele – um conteúdo próprio, pessoal”. E daí rumamos para um retrato da impossibilidade do diálogo, quando aqueles que se supõe serem interlocutores apenas reiteram (em repetições idênticas e ad infinitum) o seu próprio discurso, a cada vez que ouvem um “outro” dizer algo de si.

O incômodo com um cenário por demais conhecido neste 2018 abre caminho para uma cena de voltagem catártica protagonizada por Fernanda Vianna. Com um sorriso nos lábios e em tom meigo, ela enuncia: “Eu digo não”. E o “não” se repete. Dezenas de vezes. E então centenas. A entonação cordata da partida vai sendo substituída por uma ênfase crescente, até terminar em cólera e fúria. Na noite da estreia não foram poucos os integrantes da plateia que se uniram à atriz, formando um coro inconformista a gritar “não”, com o eventual acréscimo de “#EleNão”.

DÍPTICO  Esse segundo trabalho consecutivo do Galpão com o diretor Marcio Abreu parece configurar um díptico com o anterior, Nós. No entanto, diferentemente do que era de se esperar, em Outros o Galpão fala mais de si do que nunca, quando decide desnudar no palco não suas certezas, mas sim suas angústias e inquietações. Além disso, lança-se a uma encenação no fio da navalha entre a interpretação e a autoficção.

Há algo de perturbadoramente íntimo no ato de expor fragilidades, e a coragem que ele requer está sintetizada numa frase de Teuda Bara: “Não tenho tempo de ter medo”. Antes dessa assertiva, Teuda relata a experiência da cirurgia a que se submeteu no joelho. E Lydia Del Picchia reencena o relato em ritmo de funk, a expressão antianestésica por natureza. A transmutação da dor em ato criativo ganha aqui uma forma concreta.

Guto Muniz/Divulgação
Fernanda Vianna em cena do novo espetáculo do Galpão (foto: Guto Muniz/Divulgação)
A subversão de certos códigos teatrais incorporada por Outros se estende à relação palco/plateia, com os atores se deslocando do primeiro para a segunda em diversos momentos. Num deles, a luz se acende sobre o público, no momento em que Eduardo Moreira indaga: “Alguma novidade?”. É de supor que o Galpão esteja disposto a improvisar, caso receba uma resposta outra que não o silêncio nessa hora – que foi a reação do público na estreia.

Além da qualidade de seu testemunho sobre o tempo presente, o admirável em Outros (ainda mais do que em Nós) é seu caráter dicotômico. O elenco exibe segurança constante para dar corpo à instabilidade, em suas diversas facetas. No trecho final, que reserva uma pausa na batalha para um momento de troca amorosa e sexual, o assombrado Antonio Edson retorna ao centro da cena com uma constatação dilacerada sobre o curso das ideias na era das fake news (“É impossível imaginar como inventam as coisas, as verdades”) e uma pungente declaração de princípios: “Eu tô muito chateado, aborrecido. Agora, eu tô aqui”.

Talvez Outros se traduza nessa frase, um curto e potente manifesto de resistência artística.


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Direção: Márcio Abreu. Com Grupo Galpão. No Galpão Cine Horto, Rua Pitangui, 3.613, Horto, (31) 3481-5580. De quarta-feira a sábado, às 21h, e domingo, às 19h. Sessões de quarta em libras. Até 18 de novembro. Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada), à venda na bilheteria (duas horas antes da apresentação) e no Sympla

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