Peças infantis em cartaz na capital transpõem grandes narrativas para os palcos

Montagens procuram elevar seus padrões de qualidade, agradar também aos pais e desfazer a ideia de que as peças voltadas aos pequenos exigem menos do ator

por Walter Felix 25/05/2018 08:24

Giramundo/Divulgação
Com seus bonecos que já encantaram gerações, o Giramundo apresenta amanhã o espetáculo Um baú de fundo fundo. (foto: Giramundo/Divulgação)
 

O teatro é antigo parceiro dos pais que buscam entreter a criançada nos fins de semana. Mais que um passatempo, o programa propicia o contato dos pequenos com as artes cênicas desde cedo. Os profissionais que se dedicam ao teatro infantil costumam se sentir pouco reconhecidos em seu papel determinante na formação cultural dos indivíduos e também na sedimentação daquele que será o futuro público adulto de teatro. Mas nem por isso eles deixam o espetáculo parar, como comprova a agenda de peças infantis em cartaz em Belo Horizonte.

Diego Benicá fundou há oito anos a Copas Produções Artísticas, cujos espetáculos são quase todos voltados para o público infantojuvenil. Ele adapta e dirige a maioria deles, como Alice no País das Maravilhas, que cumpre temporada até julho no Teatro Alterosa. Cenário e figurino da montagem também ficam a cargo do artista.

“Alice... já é um projeto antigo e, quando penso no espetáculo que vou fazer, geralmente já planejo tudo. Vou concebendo todo o espetáculo, do figurino ao cenário, até a forma como esses elementos vão funcionar com a direção. É mais fácil assim, porque consigo que tudo saia como pensei”, afirma Benicá.

O empresário diz ter criado o seu próprio País das Maravilhas na adaptação do clássico infantil. Nascido em Resplendor, no Leste de Minas Gerais, Benicá teve pouco acesso à cultura durante a infância, salvo pelas visitas do circo à sua cidade. Fascinado pela arte circense, ele decidiu levar o picadeiro para os palcos. “Percebi que era possível associar cada um dos personagens que a Alice encontra ao longo da história com apresentações circenses. Como eu sempre quis trazer o circo para o teatro, entendi que havia achado a obra certa.”

Não há quem não conheça a aventura da menina que, seguindo um coelho branco, chega a um mundo fantástico, onde se depara com seres e situações extraordinárias. Na adaptação, o gato é um malabarista; o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março são palhaços; e a Rainha de Copas é uma impiedosa domadora. “Não é um espetáculo circense, até porque os atores não são profissionais de circo. Nós estudamos para dar essa conotação, e acho que o elenco se sai bem em cena, afinal, conseguimos manter as crianças vidradas, sem se dispersar, por uma hora e vinte minutos”, diz Benicá.

 

Daniel Augusto/Divulgação
O Teatro Alterosa voltou a funcionar para a temporada de 'Alice no país das maravilhas', que irá até o mês de julho, com sessões aos sábados e domingos. (foto: Daniel Augusto/Divulgação)
 


SÓ PARA BAIXINHOS? A preocupação com o público adulto também é recorrente entre quem produz espetáculos infantis – as crianças, afinal, não vão ao teatro sozinhas. Alice no País das Maravilhas fala sobre o crescimento, mostrando como a personagem principal evolui, a partir de suas experiências. Segundo Benicá, trata-se de uma abordagem interessante e atemporal, capaz de cativar também os mais velhos. “Recebemos mensagens de adultos que dizem ter gostado mais da peça que o próprio filho. Alice... tem mensagens subliminares que só o adulto será capaz de compreender e, depois, pode conversar com a criança a respeito.”

A atriz Thaís Coimbra já foi Nala, em O rei leão, e Maribel, em Pluft, o fantasminha, mas também dá vida à Marilyn Monroe no documentário teatral sobre a estrela dos anos 1950, produzido em parceria com o marido, o ator Ítalo Mendes. Eles formam o grupo Dois Palitos e realizam espetáculos que permitem à profissional desenvolver formas tão diferentes de atuação. Em Alice no País das Maravilhas, ela interpreta a Gata de Cheshire.

“O público infantil não tem amarras. As crianças têm o tempo delas para reagir e, às vezes, é preciso esperar que elas se acalmem para dar continuidade à peça. Se querem falar alguma coisa, falam naquele momento. Temos um retorno imediato: elas demonstram na hora se estão gostando ou odiando”, observa.

Segundo Thaís, a experiência com o teatro infantil agrega ao seu desempenho em peças adultas – e vice-versa. Em Marilyn Monroe.doc, ela dá continuidade a uma pesquisa teórica sobre interpretação e improvisação que desenvolve desde a faculdade. Já a alta demanda por espetáculo infantil desenvolve sua agilidade no processo de criação e a ajuda a criar uma resistência física, capaz de suportar duas ou três apresentações por dia.

“Tanto no teatro infantil quanto no adulto estamos sempre em uma luta constante e diária por respeito e valorização do artista. Existe uma separação entre os atores que fazem teatro infantil e adulto, o que é uma bobagem. São áreas, públicos e modos de produção bem diferentes, mas um complementa o outro no nosso ofício de ator”, comenta a atriz.

 

Daniel Augusto/Divulgação
Além de entreter a criançada e ajudar a formar futuros espectadores assíduos no teatro, espetáculos infantis transpõem para o palco grandes narrativas, como a de Alice no País das Maravilhas. (foto: Daniel Augusto/Divulgação)


VALORIZAÇÃO
Os artistas que trabalham com teatro infantil devem respeitar seus públicos, algo que nem sempre acontece na cena belo-horizontina, segundo Benicá. Ele defende que, por mais simples que seja a produção, são necessários todos os esforços para se apresentar um bom espetáculo. “Quem vai ao teatro precisa se sentir valorizado, do contrário, não vai voltar. Há quem espere que produções de fora cheguem ao estado para ir ao teatro. Muita gente que vem nos assistir diz que não imaginava que algo de tanta qualidade fosse produzido aqui. Estamos empenhados em criar um público fiel, mas isso é trabalho que se faz a longo prazo”, aponta.

O artista critica a pouca disponibilidade de casas de espetáculos na cidade, o alto custo dos aluguéis nesses locais e a dificuldade de se conseguir divulgação junto ao grande público. O Teatro Alterosa, que estava fechado por problemas técnicos há dois anos, foi reaberto para a temporada especial de Alice no País das Maravilhas, que vai até julho .

“Investimos em uma temporada muito grande, de quase três meses, atravessando o período de férias. Essa é a forma de conseguirmos viver como artistas: estar em cartaz, dedicados ainda a um trabalho intenso de divulgação e formação de público”, diz Benicá. A Copas Produções também apresenta neste domingo (27), no Palácio das Artes, o espetáculo As histórias das princesas e seus príncipes. A peça transcorre no aniversário dos pequenos Joca e Clara, em que eles recebem a visita da avó e de diversos personagens dos clássicos infantis que ela traz consigo.

Se hoje as produções de Benicá conseguem lotar um teatro, o passado de sua produtora não foi tão glorioso. A audiência conquistada é resultado de longos anos de trabalho, segundo o empresário e artista. Ele acredita no potencial da cidade em prestigiar suas produções locais, mas não descarta a possibilidade de levar para outros estados os espetáculos infantis com sotaque mineirinho. “Claro que pensamos em ter nosso trabalho reconhecido em outros lugares, mas também queremos, antes disso, ser uma boa opção de entretenimento em BH.”

MUNDO MÁGICO Transportar os mais crescidos para um universo lúdico é a missão de Julio Margarida, que leva montagens cênicas e circenses a firmas e eventos através da Grafite Teatro Empresarial. O artista garante que até os mais sérios homens de negócios deixam a imaginação voar com O incrível mundo das bolhas gigantes, espetáculo que encerra, neste fim de semana, sua temporada no Teatro Marília.

A peça é dividida em quadros, cada um com temáticas diferentes, que resultam em diversas possibilidades de fazer bolhas de sabão. Para isso, o artista utiliza varinhas, arcos e grandes tubos. A interatividade acompanha toda a apresentação. Em um determinado momento, pessoas da plateia são convidadas para adentrar uma enorme bolha, feita com um bambolê gigante.

“Quando realizamos oficinas e laboratórios na rua, percebemos que tanto os adultos quanto os adolescentes – que geralmente se impõem ainda mais restrições – também se encantam com as bolhas de sabão. Eles esquecem a própria idade, o que mostra a capacidade dessa brincadeira de levar qualquer um de volta à infância”, afirma Julio, que atua e dirige a montagem.

Com formação em palhaçaria, ele leva seus números circenses – que incluem mímica, malabares, pernas de pau e monociclo – às escolas da capital. A criançada, afinal, não escapa ao olhar atencioso do artista. Para ele, levar para os palcos algo tão antigo como as bolhas de sabão reforça a importância das brincadeiras mais singelas para uma geração que já nasceu conectada aos eletrônicos.

“Enquanto o adulto se fascina com a bolha gigante; para a criança, tanto a bolha pequena quanto a grande têm o mesmo valor”, diz ele. “Com o público infantil, tenho cuidado maior com o ensinamento, atenção em passar uma boa mensagem. As bolhas nascem da mistura de água e sabão, que aprimoro acrescentando açúcar. Também nascemos de uma mistura entre o pai e a mãe, e o açúcar, nesse caso, é o amor. Falo isso no espetáculo: com amor (assim como o açúcar para as bolhas), podemos crescer cada vez mais”, assinala.

Peças em cartaz


Confira montagens para se divertir com os pequenos neste fim de semana:

»  A HISTÓRIA DAS PRINCESAS E SEUS PRÍNCIPES
• Domingo (27/05), às 17h30, no Palácio das Artes. Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. (31) 3236-7400. Plateias 1 e 2: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia). Plateia superior: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

»  ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS
• Sábado e domingo, às 16h, até 29 de julho (exceto nos dias 17 de junho e 14 e 15 de julho), no Teatro Alterosa. Av. Assis Chateaubriand, 499, Floresta. (31) 3237-6611. Ingressos a R$ 50 (inteira), R$ 25 (meia) e R$ 22 (nos postos Sinparc).

»  O INCRÍVEL MUNDO DAS BOLHAS GIGANTES
• Sábado (26/5) e domingo (27/5), às 16h, no Teatro Marília. Av. Alfredo Balena, 586, Santa Efigênia. (31) 3277-4697. Ingressos a R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Vendas pelo site www.sympla.com.br.

»  UM BAÚ DE FUNDO FUNDO
• Sábado (26/05 e 02/06), às 16h, no Museu Giramundo. Rua Varginha, 235, Floresta. (31) 3446-0686. Ingressos a R$ 19. Vendas pelo site www.sympla.com.br.

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