Prefeitura seleciona curadores e equipe encarregada de produzir o FIT

No entanto, artistas advertem: prazos apertados podem comprometer a agenda do festival mineiro

por Márcia Maria Cruz 27/03/2018 08:14

Marcos Vieira/EM/D.A.Press
No 13º Festival Internacional de Teatro, bonecos com seis metros de altura invadiram as ruas de BH. (foto: Marcos Vieira/EM/D.A.Press)

Pela primeira vez ao longo de seus 23 anos, o Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH), que chega à 14ª edição, vai selecionar, por meio de edital, a proposta curatorial para montar sua programação. Também será escolhida dessa forma a organização da sociedade civil encarregada da produção do evento.

A proposta do secretário municipal de Cultura, Juca Ferreira, e do presidente da Fundação Municipal de Cultura (FMC), Rômulo Avelar, é democratizar a realização do FIT, previsto para 13 a 23 de setembro. A curadoria iniciará a montagem da agenda a cinco meses do evento, com a missão de contatar grupos do Brasil e do exterior. “É um tempo justo”, afirma Avelar. A equipe encarregada da produção começará a trabalhar três meses do início do FIT.

Artistas advertem para o risco de prazos apertados comprometerem a qualidade do evento. “O grande desafio é não podermos montar a estratégia com antecedência. O recurso costuma ser liberado com um mês e pouco de antecedência, o que inviabiliza contatos prévios com os grupos convidados”, explica o ator Eduardo Moreira, do Grupo Galpão, que foi curador do FIT em 2016. Ele elogia a democratização do processo adotada este ano.

ESCUTA O presidente da FMC explica que os editais atendem às exigências do marco regulatório das organizações da sociedade civil, abrindo a possibilidade “da escuta à cidade”. O prazo de envio de propostas curatoriais se encerra em 4 de abril e o resultado deve ser divulgado em 20 de abril. Já o prazo de interessados em se inscrever no edital destinado à produção acaba em 2 de abril, com a divulgação da proposta em 7 de junho, caso não haja recursos.

O investimento no FIT é estimado em R$ 2,87 milhões – R$ 2 milhões virão de recursos da Prefeitura de Belo Horizonte e R$ 874 mil deverão ser captados pela entidade civil selecionada para correalizar o festival. “A nossa percepção é que os festivais promovidos pela fundação e a secretaria perderam muito do impacto que tinham sobre a cidade, por vários fatores. Um deles é o amadurecimento da cena cultural de BH”, diz Avelar.

Quando o FIT foi criado, em 1994, o acesso a referências nacionais e internacionais no campo da dramaturgia era mais difícil, lembra ele. “Ao longo de duas décadas, essa realidade mudou devido ao nosso contato mais frequente com a produção estrangeira. Hoje, a cidade tem outra dinâmica e uma riqueza muito grande em termos de referências”, observa.

O presidente da FMC defende a importância do FIT por despertar reflexões desafiadoras a respeito da linguagem e do fazer teatral. “Não queremos que a discussão fique restrita ao campo artístico-cultural, mas que transborde desse universo para chegar ao cidadão. Os festivais precisam ser mobilizadores e provocadores”, afirma.

As orientações e diretrizes às propostas de curadoria podem ser consultadas no anexo publicado pela plataforma Mapa Cultural de BH, criada pela secretaria para gerenciar informações referentes a artistas e equipamentos na capital.

PAUTA A proposta para o FIT deve garantir a pluralidade, além de se conectar a pautas contemporâneas, das quais fazem parte discussões de gênero e sobre etnias. Também deve prever apresentações em palcos e na rua, atenta a espaços alternativos, além de abrigar as várias linguagens artísticas. “Essa proposta deve refletir o nosso tempo, ou seja, narrativas que dialoguem com o debate local e internacional. Não há como não considerar as questões de gênero, etnia e diversidade”, observa Avelar.

A proposta de produção será avaliada por uma comissão interna da Secretaria Municipal de Cultura. Já a proposta curatorial passará pelo crivo da comissão paritária composta por 12 integrantes – seis vinculados ao poder público e os outros à sociedade civil.

“Não estamos abrindo mão do papel do poder público. Um desafio posto a todos os festivais é o olhar tanto para a formação de público quanto para o aspecto artístico-cultural. Atentos a isso, vamos acompanhar todo o processo”, afirma o presidente da FMC. A equipe de curadores será divulgada antes da apresentação do resultado sobre a entidade promotora, de forma a dar tempo hábil para o contato com grupos nacionais e internacionais.

Marah Costa, assessora de coordenação da política de festivais da FMC, diz que a democratização do processo é um divisor de águas no FIT. “Quanto mais as pessoas participam, mais elas se envolvem. As pessoas estarão juntas no processo decisório”, argumenta. Segundo ela, além dos R$ 2 milhões geridos pela organização selecionada em junho, R$ 150 mil serão destinados à compra de passagens para os grupos estrangeiros. Isso permitirá que convites possam ser feitos a partir do fim de abril, viabilizando a participação de artistas de outros países no evento.

Marah lembra que há várias possibilidades de arranjo na comissão de curadores. O edital apenas determina que a maior parte do grupo seja composta por artistas de Belo Horizonte. No caso de a proposta ser apresentada por uma pessoa jurídica, haverá R$ 70 mil para o trabalho de toda a equipe de curadores. Segundo Marah, historicamente, o festival destina de 18% a 25% do orçamento para o pagamento de cachês.

APERTO Diretor do FIT de 2013 a 2015, Cássio Pinheiro reafirma a importância do festival para a cena cultural da capital, mas chama a atenção para os prazos apertados para organizar o evento.

“A proposta de democratizar a curadoria é superválida. O FIT tem que ser voltado para o pensamento da cidade, pois interfere na conformação teatral de BH. Sua função é fomentar o pensamento estético e crítico, o diálogo do artista com o cidadão”, afirma o diretor de teatro.

Porém, Pinheiro adverte que será preciso correr contra o relógio. “Preocupo-me com esse curtíssimo prazo. Grupos internacionais dialogam com o mundo inteiro, então é preciso planejamento de um a dois anos. Espero que dê certo, mas o prazo é muito apertado. Espetáculos da América do Sul e da Europa, por exemplo, têm agenda fechada com um ano de antecedência”, alerta.

ENTREVISTA

Eduardo Moreira
ATOR 


Integrante do Grupo Galpão, Eduardo Moreira integrou a equipe de curadores do Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH) em 2016, mas deixou o posto por discordar do processo adotado naquele ano, criticando a falta de sintonia entre as solicitações da curadoria e seu atendimento pela produção do evento. A liberação de recursos “em cima da hora” inviabiliza contatos prévios com vários convidados, adverte.

 

Grupo Galpão/Divulgação
'A medida é positiva, pois traz transparência para a coisa pública. No entanto, quando é feito de última hora, cai no improviso', comenta o ator. (foto: Grupo Galpão/Divulgação)


Qual é o desafio para o trabalho de curadoria do FIT-BH?
O grande desafio é não podermos montar a estratégia com antecedência. O recurso costuma ser liberado com um mês e pouco de antecedência, o que inviabiliza contatos prévios com os grupos convidados. Se a liberação com antecedência fosse possível, ajudaria a reduzir custos. O FIT é um projeto excelente. E a ideia do edital para selecionar a comissão mostra o lado democrático.

Como você avalia o edital para a seleção da curadoria e da entidade encarregada de produzir o FIT?
A concorrência pública pode dar em nada se a curadoria não puder ser independente e viabilizar a programação. A produção fica mais barata se estiver disponível com o máximo de antecedência. Essa foi uma questão que enfrentei quando integrei a curadoria, em 2016. A medida é positiva, pois traz transparência para a coisa pública. No entanto, quando é feito de última hora, cai no improviso, o que é muito ruim para o evento.

Quais seriam as condições ideais, em termo de prazos, para a curadoria de um festival internacional de teatro?

A curadoria dever ter, no mínimo, um ano para trabalhar, mas nem sempre se tem esse tempo. Por ser um festival público, esbarra-se na questão orçamentária. O ideal é que a comissão pudesse ser instalada para esta edição do FIT e atuasse na próxima edição também.

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