Premiada peça 'Mata teu pai' debate sobre feminismo, xenofobia e preconceito

Texto de Grace Passô faz releitura contemporânea do mito de Medeia, colocando o espectador em xeque diante das relações patriarcais e dos preconceitos

por Pedro Galvão 24/03/2018 10:15
Elisa Mendes/Divulgação
A montagem dirigida por Inez Viana é estrelada por Débora Lamm no papel de uma estrangeira sob ameaça (foto: Elisa Mendes/Divulgação)

Na mitologia grega, Medeia é conhecida por matar os próprios filhos em um ato de vingança contra o marido infiel Jasão. A história, contada há milênios, fez a personagem ser representada como uma terrível vilã em versões para o cinema, TV e teatro. No entanto, outros aspectos desta figura permitem entendimentos e interpretações diferentes, como a releitura feita pela belo-horizontina Grace Passô, autora de Mata teu pai. O texto, que observa a protagonista como uma mulher estrangeira atacada por diversas formas de preconceito, em um diálogo direto com questões atuais, ganhou montagem sob direção de Inez Viana, estrelando Débora Lamm, e desembarca no Teatro Sesiminas neste fim de semana.

Produzido pela companhia OmondÉ, o espetáculo estreou em janeiro do ano passado e ganhou o Prêmio Cesgranrio de melhor texto para Grace Passô, o Prêmio Shell de melhor cenário para Mina Quental e de melhor iluminação para Ana Luzia de Simoni e Nadja Naira. Como fica claro, uma obra escrita, dirigida e produzida por mulheres e abordando uma temática feminina. A Medeia de Débora Lamm dirige suas falas à plateia, que é colocada como se fossem seus filhos. Única atriz em cena, ela é acompanhada por um coro formado por senhoras que se voluntariaram a participar.

“Pegamos uma personagem superconhecida e milenar e, sem perder a estrutura trágica, colocamos junto da história dela esse discurso feminino urgente. Estamos falando sobre a mulher de sempre, mas, principalmente, sobre a luta da mulher de hoje”, explica Débora. A atriz celebra 20 anos de carreira e é mais conhecida pelos papéis que estrelou em comédias televisivas. Dessa vez, faz interpretação densa e carregada de emoção. Ela faz questão de ressaltar não ser problema. “Em nenhum momento uma coisa briga com a outra, não deixo de ser uma atriz trágica por já ter feito comédias na TV, as pessoas têm mania de catalogar, mas falo através da comédia, da tragédia, o mais importante são as escolhas sobre o que eu quero falar”, afirma.

Autora da peça, Grace Passô reforça o viés voltado para a luta feminina que a montagem carrega. “Muitas pessoas falam que a peça é feminista. Para mim, é impossível hoje pensar um texto que não seja feminista, qualquer coisa que eu venha fazer hoje vai ter esse pensamento. Existe uma questão muito conhecida da Medeia, que é o ato dela matar seus próprios filhos. Por isso, uma passagem é a conversa dela com suas filhas, no caso, o público, apresentando uma série de argumentos para que elas a ajudem a matar seu amor, seu pai”, explica a dramaturga, frisando que “a ideia de matar seu pai é uma metáfora sobre os caminhos para vencer a noção de patriarcado e de machismo tão fundamentadas na sociedade”.

Grace Passô, uma das fundadoras do grupo Espanca!, lembra ainda que a personagem principal “é uma estrangeira errante, que vive em cidades diferentes, e uma mulher que abandona também suas raízes em prol de uma parceria de amor”. Para a diretora Inez Viana, a proposta desejada por todas as envolvidas na produção foi cumprida a partir do texto da mineira. “Grace tem essa capacidade de adaptar para a contemporaneidade. Não queríamos essa história contada através do homem e ela, brilhantemente, conseguiu essa recriação. Não só atualiza, como coloca o espectador em xeque. Ela cogita matar Glauce, a mulher que está agora com Jasão, mas desconstrói isso: por que ela tem que ser morta e não ele.? Daí o título Mata teu pai”, argumenta Inez Viana, que participará, junto com Grace, de um bate-papo com o público logo após a sessão deste sábado.


MATA TEU PAI
Texto de Grace Passô. Direção de Inez Viana, com Débora Lamm. Hoje, às 21h, e amanhã, às 19h, no Teatro Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, (31) 3241-7181). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia). Classificação: 14 anos.

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