Dano renal no paciente oncológico

O acometimento da funcionalidade dos rins é uma complicação comum em pessoas com câncer e deve ser sempre explorado

Carolina Vieira 03/09/2021 06:00
Robina Weermeijer/Unsplash
(foto: Robina Weermeijer/Unsplash)

A nefrologia é a área da medicina destinada ao estudo das doenças relacionadas ao aparelho urinário, particularmente os rins, sendo o nefrologista o médico especialista nesta área.

O rim é responsável não só por filtrar o sangue, deixando-o livre de impurezas, mas também cumpre funções hormonais, regula a pressão arterial e ainda pode influenciar no metabolismo dos nossos ossos. Mas o que tem a ver a nefrologia e o paciente oncológico? Para conversar a respeito, convido a professora Lorena Maia, médica nefrologista:

Grande parte dos pacientes que recebe o diagnóstico oncológico está no grupo dos idosos. O avançar da idade, por si só, leva a um declínio da filtração renal, que pode associar-se a outras alterações, dependendo do histórico de cada paciente.

Doenças que com frequência acometem a população, principalmente os idosos, como, por exemplo, hipertensão arterial e diabetes, são marcadamente as principais causas de alterações na função renal, não só no Brasil, como em todo o mundo.

A doença oncológica pode lesar diretamente os rins, causando danos em diferentes estruturas no seu interior. Pacientes com grandes tumores abdominais e pélvicos podem ter efeito compressivo sobre as vias urinárias, sendo nestes casos necessária a desobstrução das vias urinárias para preservação dos rins. Da mesma forma, os rins podem ser afetados pela toxicidade dos quimioterápicos (medicamentos usados no tratamento do câncer) ou por analgésicos, que muitas vezes são indispensáveis para o bem estar do paciente. Além disso, os rins podem ser lesados pela intensa resposta do organismo à quimioterapia.

Torna-se então fundamental, nesse cenário, conhecer os hábitos e histórico do paciente, tais como ingestão de líquidos, queixas relacionadas à urina, episódios recorrentes de infecção urinária, doenças crônicas e terapias em execução, além de ser fundamental saber a taxa de filtração renal previamente ao início do tratamento oncológico propriamente dito.

E quais exames, então, seriam interessantes para esta avaliação?

Testes extremamente simples e acessíveis como, por exemplo, medição da dosagem da creatinina no sangue e exame de urina, que consegue estimar a capacidade de filtração dos rins e mostrar se há algum sinal de doença renal.

A creatinina é uma substância produzida continuamente pelo nosso corpo e eliminada através dos rins. Se esses órgãos deixam de funcionar adequadamente, ela se acumula, indicando que algo está errado.

Já o exame de urina rotina mostra como a urina está sendo processada, ou seja, se os filtros contidos no interior renal estão íntegros ou se apresentam algum dano, deixando passar de forma inadequada alguma proteína ou outros elementos que normalmente não fazem parte da composição da urina.

Algumas orientações ao paciente são também de extrema importância, como manter hidratação adequada, uso de medicamentos somente sob orientação médica (em particular os anti-inflamatórios), não realizar automedicação, devido ao potencial risco de interação entre medicamentos e eventual efeito deletério renal.

Além disso, é importante lembrar que, no caso de realização de exames utilizando contraste com iodo, é fundamental maior hidratação do paciente, para facilitar a eliminação do contraste. Essa orientação deve ser dada pelo médico que solicitou o exame. Necessário também que se faça monitoramento das outras condições médicas, como controle pressórico e glicêmico adequados e dieta balanceada.

Considerando-se a necessidade do tratamento oncológico, adequações na dose dos medicamentos podem ser necessárias e o acompanhamento conjunto por nefrologista e oncologista torna-se essencial naqueles pacientes que apresentam disfunção renal mais marcante.

O acometimento da funcionalidade renal é uma complicação comum em pacientes oncológicos e deve ser sempre explorada. Com a melhora dos tratamentos oncológicos e da expectativa de sucesso terapêutico, é desejável que mantenham seguimento nefrológico em longo prazo no intuito de preservar sua função renal.

Tem alguma dúvida ou gostaria de sugerir um tema? Escreva pra mim: carolinavieiraoncologista@gmail.com