Dos 15 mil casos de meningite ocorridos em 2018, 3 mil resultaram em morte

Apesar de as doses de vacina estarem disponíveis no sistema público de saúde, cerca de 20% dos menores não completam a imunização. Entre os adolescentes, o índice é de 40%

por Gabriela Tunes* 10/06/2019 14:43
 Arte/CB/D.A Press
Vacinação como prevenção: A meningite é uma doença rara responsável por mais de 15 mil casos em 2018 no Brasil. Seu principal agente causador são as bactérias, as quais devem ser combatidas pela vacinação. As principais vacinas estão no calendário de rotina do Programa nacional de Imunizações (PNI) e são disponibilizadas pelo Sistema Básico de Saúde (SUS) (foto: Arte/CB/D.A Press)
No Brasil, 20% das crianças vacinadas contra a meningite não recebem a aplicação da dose de reforço e, no ano passado, 5% abandonaram a vacinação. Entre adolescentes, o índice de imunização incompleta é de 40%. Em 2018, o Ministério da Saúde contabilizou mais de 3 mil mortes causadas pela doença, de um total de 15.706 casos no ano. Meningite é o nome dado à inflamação das membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal. No país, a doença é considerada rara, mas as causas por bactérias preocupam por serem severas e imprevisíveis

A inflamação é causada pela manifestação de diversos agentes, como bactérias e vírus. A forma bacteriana, menos comum, é mais preocupante devido a sua gravidade. “O contágio por bactérias é temido pela imprevisibilidade e pelo impacto que traz à população”, diz Marco Aurélio Sáfadi, membro da comissão técnica para revisão dos calendários vacinais da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBIm). Segundo o Sistema de Informação de Agravo de notificação (Sinan), dos 15,7 mil casos da doença em 2018, 4.664 foram bacterianas.

Mais de 90% dos casos de meningite bacteriana são causados pelo meningococo. “Um a cada cinco indivíduos com doença meningocócica morre, mesmo com o paciente tratado em tempo oportuno”, explica. Segundo o médico, entre os 80% que sobrevivem, 20% ficam com sequelas, como a amputação de um membro, surdez, cegueira ou outras complicações neurológicas.

Qualquer um pode contrair a doença. Em 95% dos casos, o contágio é feito por vias respiratórias. Os sintomas são febre, vômitos, dor de cabeça e rigidez na nuca. O diagnóstico é feito por meio do líquido da medula espinhal, porém, de acordo com Sáfadi, nem sempre a coleta indica a presença da bactéria. “Às vezes, o meningococo pode ser tão agressivo, que provoca quadro sistêmico rapidamente, a ponto de não dar tempo de o líquido aparecer com alteração”, explica.

Segundo Sáfadi, por ser uma doença rara, a meningite meningocócica possui estado de colonização frequente. Cerca de 10% dos adolescentes carregam o meningococo na garganta. “Essas pessoas podem transmitir a bactéria para outras sãs e vulneráveis à doença. Por isso, é importante que haja prevenção em indivíduos saudáveis para proteger todos os que estão em volta”, orienta. 


Combate
A vacina de combate ao agente é a meningocócica conjugada C, B e a ACWY. A meningocócica C faz parte do calendário nacional de vacinação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2010. A primeira dose é recomendada entre dois e três meses de idade e pode ser encontrada no Sistema Único de Saúde (SUS). Como a bactéria se apresenta em 10% de adolescentes, o PNI recomenda uma dose de reforço nesse público entre 11 e 14 anos.

Antes do início da aplicação gratuita da vacina para crianças menores de cinco anos, a meningite meningocócica respondia por mais de 80% dos casos no Brasil. Segundo a SBIm, com a aplicação gratuita da meningocócica C, houve queda de 70% em crianças menores de dois anos e passou a representar 59% do total. Por isso, o Ministério da Saúde decidiu estender a dose da vacina ao grupo propício à bactéria, os adolescentes.

Para Carla Domingues, coordenadora do PNI, a dose extra é uma forma de controlar a doença. “A vacinação do adulto e do adolescente é complementar para erradicação”, afirma. O ideal é vacinar no primeiro momento de vida, pois o bebê ainda não teve contato com o agente, mas o reforço é necessário. “Não adianta só começar. Só vamos ter vacinação adequada se tivermos o esquema completo”, destaca. 

Hoje, essa faixa etária é foco do Ministério da Saúde e, mesmo assim, 40% dos jovens não recebem a vacina. Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm, revela que, em 2018, a quantidade de vacina distribuída foi maior do que a aplicada. “Não adianta o governo disponibilizar e a população não se vacinar”, diz. 


Vacina ACWY chega ao SUS 
A Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm) informou que o Ministério da Saúde decidiu incluir a vacina Meningo ACWY no Sistema Único de Saúde (SUS). A decisão foi tomada após um aumento de casos da meningite tipo W no país, principalmente em Santa Catarina, onde o agente é responsável por 43% dos casos da doença da região. A proposta inicial é começar a aplicação em adolescentes, que são mais propícios à transmissão e, gradualmente, aumentar a oferta a outros grupos. De acordo com a coordenadora do Programa Nacional de Imunizações (PNI), Carla Domingues, o trâmite legal já está definido, falta apenas o Ministério da Saúde receber as propostas de laboratórios interessados em vender a vacina.
 
*Estagiária sob supervisão de Simone Kafruni