No Brasil, esse tipo de morte entre adolescentes e jovens aumentou 30% nos últimos 25 anos. O crescimento é maior que o da média da população, segundo especialistas, reforçando a importância da reflexão sobre o tema, e, especialmente, a importância da mudança de postura dos pais em relação aos filhos.
saiba mais
Para a especialista, atualmente, há uma ausência nos pais de genuíno interesse pelo outro. “Hoje, eles fazem um interrogatório, uma espécie de checklist. Se o interesse fosse genuíno, ele sentaria, olharia no olho e nem precisaria perguntar, saberia o que estaria ocorrendo, se estivesse, de fato, conectado com o filho.”
PEDIDO DE AJUDA
E os resultados dessa ausência de conectividade são perigosos. “Cada emoção contida pelo jovem pode gerar sintomas consequentes da ansiedade, depressão, desmotivação, tristeza e ausência de propósito. Os jovens têm ainda pouca habilidade para lidar com as oscilações, pois a variedade de emoções, sensações e objetivos é desafiadora. E alguém sobrecarregado, independentemente da idade, pode comunicar-se com uma depressão, uma das formas de ser ouvido e ouvir o próprio corpo. Hoje, boa parte tem síndrome do pânico, depressão, insônia e outros comportamentos que mostram as emoções deslocadas”, explica Márcia, acrescentando que 21% dos jovens de 14 a 25 anos apresentam depressão e 5% já tentaram suicídio.
A tentativa, inclusive, é considerada pela psicóloga como um pedido de ajuda. “Infelizmente, quem tomou a decisão de se suicidar faz um planejamento e o realiza, não tenta. Quem quer acabar com a própria vida não faz tentativas. O jovem que faz tentativa está fazendo um pedido de ajuda. Cabe aos pais ou a quem convive com esse jovem observar e perceber que alguma coisa está fora do lugar. A proximidade, o amor e o diálogo são os melhores antídotos contra esse tipo de problema.”
Humberto Correa da Silva Filho - presidente da Associação Brasileira para o Estudo e a Prevenção do Suicídio (Abeps), vice-presidente da Associação Latino-americana de Suicidologia e professor titular de psiquiatria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
O suicídio é um problema de saúde pública?
“É um problema de saúde pública. Para se ter uma ideia, são registradas 800 mil mortes por suicídio no mundo todo ano, o número é maior do que em todas as guerras e homicídios no mundo anualmente. Segundo o DATASUS, em 2012, foram cerca de 12 mil óbitos do tipo no Brasil, e esse número é subestimado. Acredita-se que seja cerca de 30% a mais que isso.”
O que esses números representam?
“Primeiramente, demonstram um número de mortes prematuras, abrangendo muitos jovens em idade produtiva. Esse é o primeiro grupo de pessoas que cometem suicídio. O segundo grupo é o de idosos. E causa um impacto emocional considerável em pessoas próximas. Estima-se que cinco pessoas em volta sejam impactadas, causando mais depressão ou risco de depressão. O impacto emocional causado é muito maior que quando se perde alguém por outra razão. Os sentimentos são muitos fortes e esse luto fica difícil para as pessoas próximas. Outro ponto ainda mais importante que reforça que o suicídio é uma questão de saúde pública é que estudos recentes apontam que 100% das pessoas que se mataram tinham alguma doença psiquiátrica. E a mais frequente é a depressão. Isso faz com que, potencialmente, o suicídio seja prevenível.”
Por que o assunto é considerado tabu, chegando ao ponto de se criar uma campanha de conscientização?
“No início do cristianismo, quando a Igreja Católica foi organizada, o suicídio foi considerado o pior dos pecados. E isso foi incorporado à mente e aos corações das pessoas. Depois, foi criminalizado. Na Inglaterra, até 1961, quem tentasse suicídio respondia a um processo criminal. Na Índia, até poucas semanas atrás, o indivíduo também respondia a um processo criminal. Foi impregnado de geração em geração. Por isso, nossa obrigação, hoje, é falar cada vez mais sobre o assunto. O suicídio não é uma questão moral, nem religiosa, é um problema de saúde mental.”