A pesquisa foi finalizada recentemente e desenvolvida durante três anos, no âmbito do projeto “Avaliação da angiogênese em resposta ao tratamento com melatonina no câncer de mama: estudo in vitro e in vivo”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Experimentos foram feitos em linhagens de células tumorais e em camundongos, no Laboratório de Investigação Molecular do Câncer (LIMC) e no Henry Ford Hospital pela aluna Bruna Jardim-Perassi, com a coordenação da professora e pesquisadora Debora Aparecida de Campos Zuccari.
No Brasil, apesar de o uso da melatonina não ser proibido, ela não é vendida, mas nos Estados Unidos ela já é comercializada para controle do sono e também como suplemento alimentar. Debora afirma que o objetivo do estudo foi ver o impacto da melatonina sobre a viabilidade celular, a multiplicação das células em cultura e sobre o crescimento do tumor e angiogênese in vivo, uma vez que já se sabia que a melatonina, quando administrada em doses terapêuticas acima dos níveis encontrados no organismo, apresenta propriedades antioxidantes. “É possível que o hormônio possa suprimir o crescimento de alguns tipos de células cancerosas, principalmente quando combinado com certas drogas já usadas no tratamento do câncer”, afirma.
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Para mimetizar as condições de hipóxia no estudo in vitro, os pesquisadores aplicaram cloreto de cobalto nas células, fazendo com que a substância consumisse o oxigênio do meio e estimulasse a expressão de genes responsáveis pela formação de novos vasos. “Uma parte das culturas foi tratada com doses de melatonina que variaram entre 0,5 e 10 milimols (mmol). Nas duas linhagens, a dose de 1mmol foi a que mostrou maior benefício, reduzindo em 50% a viabilidade celular quando comparada ao controle”, afirma a professora.
Já no estudo in vivo foram utilizados dois grupos de camundongos atímicos (roedores geneticamente modificados, que não têm o timo), nos quais foram implantadas células tumorais para avaliar os efeitos da melatonina sobre a angiogênese. Em um grupo foram administradas doses diárias via intraperitoneal de melatonina (40mg/kg) por 21 dias seguidos, durante a noite, cerca de uma hora antes de a iluminação da sala em que estavam confinados ser desligada. O outro grupo recebia injeções sem o medicamento, apenas como forma de deixá-los nas mesmas condições de manuseio do grupo tratado.
O próximo passo agora, de acordo com a pesquisadora, é promover os testes clínicos para comprovar a eficácia do tratamento também em humanos. “Estamos viabilizando um estudo para fazer o teste em pacientes com câncer de mama já em fase terminal, sem outra opção de tratamento. Ainda faltam estudos para comprovar a utilização da melatonina como tratamento para o câncer de mama e essa comprovação ainda pode demorar”, acrescenta.
ANOS DE PESQUISA
O presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), Evanius Wiermann, destaca a importância do estudo para o avanço no tratamento do câncer de mama, mas afirma também que é preciso ter o pé no chão para saber que ainda são necessários novos estudos para comprovar a eficácia da melatonina na regressão dos tumores e chegar de fato ao mercado. A partir de agora, os pesquisadores que desenvolveram o estudo têm, pelo menos, mais três fases pela frente que podem levar cerca de 10 anos. A fase, segundo Wiermann, consiste em identificar o perfil de segurança da melatonina sobre o câncer de mama. “Eles precisam ver qual a dose máxima tolerada, seus efeitos colaterais e outras sequelas do tratamento com o hormônio”, explica.
A fase dois se baseia na administração da medicação em diversos pacientes portadores da doença, com tumores diferentes, para testar o nível de eficácia do medicamento. “Precisa-se saber se é possível reduzir o tamanho dos tumores em humanos com a melatonina. Muitas vezes, o que é testado e faz bem nos camundongos às vezes não produz o mesmo efeito nos humanos”, afirma o presidente da SBOC. Depois de descobrir a eficácia da melatonina para o tratamento do câncer, em qual tipo de tumor, em qual área do corpo, o estudo passa para a fase três, para comparar o uso do medicamento novo ao medicamento que já é usado como padrão na maioria dos tratamentos pelo mundo. “Para que ele possa ser usado e comercializado, ele precisa ser melhor do que o procedimento que já é adotado como padrão ou produzir o mesmo efeito, sendo menos tóxico”, ressalta Wiermann. Segundo o oncologista, esse é um caminho extremamente longo, pois a cada 100 moléculas estudadas e que são promissoras para o tratamento do câncer, apenas cinco chegam à fase três do estudo e, dessas, só uma prova ser melhor do que o método adotado e entra no mercado.