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Mas no lado oposto dessa expectativa social e dessa fisiologia começa a ganhar força a possibilidade de escolha. Na atualidade, as mulheres já podem escolher entre ser ou não ser mães, embora sigam sendo questionadas sobre isso. Essa mudança é resultado de uma transformação social. “Vivemos em uma era narcisista, hedonista e individualista. Essa é a marca dos novos tempos e é ela que permite à mulher confrontar essa questão”, explica. Elisabeth Badinter é uma das autoras a se debruçar sobre o papel da mãe. Segundo a historiadora francesa, em uma civilização em que o eu primeiro é elevado a um princípio, a maternidade é um desafio, quiçá uma contradição.
Mas ela se casou e é superfeliz. Como era importante para o marido, há sete anos aceitou que se seguisse o figurino. Não cuidou de absolutamente nada, passou a tarefa toda para a mãe: ela sim tinha sonhado com o casamento da única filha mulher. O marido teria o filho se ela quisesse, mas deixou que Anya decidisse por achar que o encargo maior realmente fica para a mulher. “Acho que se tivesse um filho com ele até seria legal. Ele me ajudaria a tomar conta da casa e a cuidar da criança. Mas tenho meus ganhos em não ser mãe. Não queria ter ninguém dependendo de mim. Isso me dá liberdade. Não preciso ser um modelo para ninguém. Posso viver minha vida do jeito que acho certo.”
CULPA
Para Renata Feldman, há uma normatividade no ser mãe. “As mulheres de hoje crescem aprendendo que precisam estudar, casar, construir uma carreira e ter filhos. Não passa outra coisa pela cabeça. Na clínica vemos várias mulheres esgotadas e frustradas por não darem conta de tudo sozinhas. Aí vem a culpa”, explica. Uma mudança desse modelo, entretanto, depende das próprias mulheres. Para Marlise Mattos, as mulheres continuam a ser as principais responsáveis pelo cuidado com os filhos, a família e a educação porque sentem poder em dominar esse espaço privado. Como se não pudessem ter esse poder no espaço público, valorizam o poder que têm dentro de casa.
Assim, se o marido ajuda a trocar a fralda do bebê e não fica certo, elas reforçam que ele não sabe fazer aquilo. Se ele cozinha e erra a mão também são criticados. As próprias mulheres estariam, na opinião de Marlise, impedindo que os homens se sintam bem nesse universo. “As mulheres estão com a faca e o queijo na mão. Se continuarem valorizando essa ideia de que são multitarefas, continuarão acumulando responsabilidades. É preciso uma tomada de consciência. As mães têm, na educação dos filhos, meninos ou meninas, a possibilidade de ensinar sobre as novas relações de gênero, menos tradicionais. Menina não tem que estar ligada ao cuidado, à casa. Meninos não precisam estar ligados à agressividade, à rua. Essa lição tem que vir até os 4 anos.”