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A identificação foi tanta que todas se incluem no que chamam de família. “Eu posso falecer e é bom saber que elas têm outras pessoas. Sem falar que meu marido sempre falou o quanto a Iclea o ajudou, então, tenho que gostar da pessoa que fez ele virar gente”, brinca Tânia. As três irmãs continuam se dando superbem. Elas se lembram que a única distinção era na hora da bronca. Aí era cada um com os seus. “Isso já era trabalho do meu marido. Eu não brigava com a Thayná”, explica Tânia. Mas quando o assunto era dar carinho e levar pra passear, as meninas tinham mesmo duas mães.
Só para exemplificar: Tânia e suas filhas estiveram presentes em todas as festas de aniversário e formaturas de Thayná ao lado de Iclea, compartilhando do orgulho de mãe. A família inteira já viajou algumas vezes a Fortaleza, onde a madrinha de Thayná mora.
Em 2010, pela primeira vez, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou um Censo que levava em conta grupos familiares “ampliados” e fatores até então não mensurados, como a maior disposição dos brasileiros para dar início a um novo relacionamento conjugal depois de uma ou mais experiências de vida a dois. Com isso, o IBGE analisou famílias reconstituídas, definidas como “núcleos constituídos depois da separação ou morte de um dos cônjuges”. Esses grupos representavam, na época, 16,3% do total de casais que vivem com filhos de apenas um dos companheiros ou de ambos. São mais de 4,4 milhões as famílias com essas características e que antes eram ignoradas pelo Censo.
A mudança na legislação que tornou o divórcio algo possível com uma simples passagem pelo cartório, no mesmo ano do estudo, fez com que o índice de separações dobrasse entre 2000 e 2010, segundo a pesquisa. Esse dado indica que, desde então, a quantidade de famílias reconstituídas também tem aumentado. Mas recompor uma família é uma tarefa complicada, pois vai além do relacionamento amoroso entre duas pessoas. Envolve grupos familiares já existentes. “Deve-se tomar muito cuidado com as crianças que estão transitando entre várias famílias e estar atento ao que está acontecendo na família da mãe e na do pai, pois uma afetará a outra”, explica a psicóloga doutora em terapia de família Denise Mendes Gomes. Com esse cuidado, afasta-se o estigma, reforçado por contos de fada e histórias de ficção, de que o relacionamento entre enteados e padrastos ou madrastas é sempre tortuoso.
As broncas eram um ponto delicado para a família. “A mãe dele achava que eu estava pegando no pé e ele também”, admite Eduardo. Um dia, um dos filhos do economista (de outro casamento) questionou Nelson: ‘Ele pega muito no seu pé?’. Diante da resposta afirmativa, o rapaz respondeu: ‘Preocupa não. No nosso também’. Para Eduardo, esse foi um dos momentos decisivos para que o enteado visse as reclamações dele como preocupação, cuidado e carinho. “Nós viramos uma família mesmo”, reconhece.
Nelson também tem bom relacionamento com os três filhos do padrasto, apesar de não ser uma convivência intensa. Como o ilustrador era ainda novo quando o pai faleceu, ele considera que Eduardo foi seu mentor, que o orientou em muitas de suas escolhas de vida. “Ele me fez dar valor à arte, e o que eu faço hoje profissionalmente tem tudo a ver com isso; me ensinou como tratar uma mulher e que só se deve ficar bravo quando é realmente preciso”, enumera. Ele se orgulha da relação com o padrasto: “A gente vê famílias em que padrastos e enteados moram juntos e não se dão nem ‘oi’. Acho que existe uma certa obrigação de afeto numa situação com essa, quando tem uma terceira pessoa envolvida. Nós funcionamos mesmo como uma família”.
"Relação entre enteados e padrasto ou madrasta é complicada como a relação entre pais e filhos. O que não significa que seja conflituosa. São seres dependentes fadados à independência e o processo é tenso.” - Eduardo Fernandez, 61 anos, economista