Membrana tem características que podem modificar cirurgias nos olhos

Pesquisador indiano identifica camada de uma das estruturas mais importantes da visão

por Roberta Machado 20/08/2013 15:00

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Congresso Brasileiro de Oftalmologia /Divulgação
"O potencial de pesquisa dessa descoberta é ótimo. Há seis projetos envolvidos, com pessoas na Índia, na Áustria e até um colega trabalhando nisso aqui no Brasil; e muita gente interessada em explorar os benefícios dessa camada nos próximos meses" (foto: Congresso Brasileiro de Oftalmologia /Divulgação)
Ao fazer experimentos de remoção e transplante de córnea, o médico Harminder Singh Dua notou que era possível separar uma finíssima fatia de tecido entre a lente e o resto do olho. A suspeita foi colocada à prova em um experimento com 31 córneas, e, sob a lente do microscópio, surgiu uma membrana ocular até então desconhecida pela ciência. A camada tem apenas 15 micrômetros de espessura, um pouco mais que um centésimo de um milímetro. A aparência é cristalina e ela parece ter uma estrutura muito forte para o tamanho delicado.

A descoberta ganhou o nome do descobridor e destaque, em junho, na revista especializada Ophtalmology. Até então, acreditava-se que a córnea se separava em cinco camadas de diferentes funções — estrutura complexa para um órgão de apenas meio milímetro de finura. Vários pesquisadores já se prontificaram a estudar a estrutura desconhecida e medir as propriedades dela em laboratório. O que poderia ser apenas um detalhe ignorado, agora promete ser um fator decisivo para transplantes e tratamentos de doenças que afetam a parte de trás da córnea.

Em visita ao Brasil para o Congresso Brasileiro de Oftalmologia e o Congresso Pan-Americano de Oftalmologia, ocorridos, neste mês, no Rio de Janeiro, Harminder Singh Dua conversou por telefone com o Correio Braziliense. Em rápida entrevista, o pesquisador da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, contou como foi feita a descoberta que vai mudar os livros de medicina e falou sobre como a membrana guarda um grande potencial científico e terapêutico. “Você não pode vê-la a olho nu, mas, no microscópio, tem uma estrutura muito diferente. Tem traços próprios, características que a diferenciam do resto da córnea”, explica o médico.

Mas a camada recém-encontrada ainda é cercada de mistérios. Dua já planeja, para os próximos meses, a publicação de novos trabalhos que vão revelar mais características da membrana que leva seu nome, além de estabelecer parcerias com pesquisadores de todo o mundo. “Eu não tenho as respostas, mas você pode ver como ela pode impactar em coisas que não sabemos ainda”, ressalta o médico. “No corpo humano, não descobrimos coisas novas. Olhamos para coisas antigas de formas novas.”

Por que as pessoas não haviam percebido essa camada da córnea?
Até hoje, fazíamos o transplante da córnea inteira, mas, nos últimos 10 ou 15 anos, temos tentado salvar a camada mais interna do olho porque ela não é eficiente, causava muita rejeição. Queríamos mudar isso, injetando ar na córnea, e retirar essa camada interna, que é chamada membrana de Descemet. Quando injetávamos esse ar, diferentemente do que muitos achavam, não estávamos separando a membrana de Descemet. Na verdade, estávamos separando uma camada intermediária. E todo o tempo, não tínhamos como explicar como isso acontecia. Achávamos que se tratava de uma camada interna. Mas, uma vez que percebemos que isso estava acontecendo, pudemos projetar um experimento para provar isso.

Agora que está provada a existência dessa camada, qual é a implicação dessa descoberta? Que diferença pode fazer para o paciente ou para o médico uma parte tão pequena do corpo?
Hoje, temos uma ótima compreensão da operação e poderemos fazê-la de forma mais segura. E, nos casos em que a separação de camadas for necessária, podemos fazer isso. Então, vai certamente melhorar o transplante de córnea. E também há certas doenças da córnea que passamos a entender melhor. O potencial de pesquisa dessa descoberta é ótimo. Há seis projetos envolvidos, com pessoas na Índia, na Áustria e até um colega trabalhando nisso aqui no Brasil; e muita gente interessada em explorar os benefícios dessa camada nos próximos meses.

Que tipos de experimentos podem ser feitos?
Uma coisa é ver como ela reage em certas doenças. Por exemplo, há um tipo de distrofia de córnea chamada distrofia macular. Nessa condição, essa camada é afetada. Então, teríamos de fazer uma operação para remover também essa camada. Mas, em um transplante, ela poderia ser deixada para trás, mantendo o olho mais forte. Esse é um experimento. Outro seria avaliar a verdadeira resistência dessa camada, que é tão fina e incrivelmente forte. Faremos experimentos para medir a força dela e descobrir a razão dessa característica. Em certas doenças, o entendimento desses fatores traz melhorias. Nessa linha, estamos pesquisando o tecido de pessoas por meio de tomografia computadorizada e eletromicroscopia.

Como a nova técnica de separação pode mudar a vida de quem espera um transplante? Os pacientes poderiam receber, por exemplo, apenas parte da córnea?
Quando você faz um transplante, pode separar essa camada, deixando apenas a de dentro. Se você deixar apenas a camada de dentro, o olho fica muito mais fraco. E, toda vez que você for analisar o olho, ele pode mostrar isso, como acontece quando fazemos o exame hoje. Então, esse é um benefício importante, saber quando estamos deixando a camada intermediária, isso faz com que o olho fique mais forte.

Quais são as características dessa camada e qual a função dela?
Ela se parece muito limpa, brilhante e flexível. Mas, como eu disse, é muito forte. Você não pode vê-la a olho nu, mas, no microscópio, tem uma estrutura muito diferente. Tem traços próprios, características que a diferenciam do resto da córnea. A composição química dessa camada também é distinta. Embora a córnea tenha apenas meio milímetro de espessura, estamos falando de várias camadas, de cinco ou seis partes importantes, já que a córnea é uma estrutura essencial do corpo humano. Ela tem uma estrutura de organização complexa, e compreender isso é muito importante. O que essa camada faz, como faz, como reage a uma cirurgia a laser, como interage com as outras camadas são perguntas que me fazem, mas que ainda não tenho respostas.

Então, é uma parte nova com uma função própria no corpo humano?
Não é algo completamente novo, é uma camada da córnea. Não é uma parte diferente, é uma parte de uma estrutura. Não é como se alguém tivesse uma terceira perna ou algo assim. Já estava lá. É um entendimento moderno, baseado no conhecimento que temos sobre o que estamos fazendo. No corpo humano, não descobrimos coisas novas. Olhamos para coisas antigas de formas novas. Agora, temos a nova informação e a tecnologia para isso. Entendemos de forma nova como as coisas são. Esse é um tecido que tem um papel a cumprir na córnea, algo que nos parece novo. Então, diferentemente de encontrar novas partes, nós encontramos novas coisas que o corpo tem feito desde sempre, mas que não entendíamos.

Como o senhor se sentiu tendo uma parte do corpo humano com o seu nome?
É um sentimento misto, na verdade. Fico um pouco envergonhado de ter meu nome nela. Na época, precisávamos de um nome para descrevê-la no artigo, e é comum que aceitem colocar o próprio nome nas descobertas — e já existem duas camadas com nomes de cientistas, a de Bowman e a de Descemet. Então, meus colegas inicialmente disseram que, se fôssemos nomeá-la, que a chamássemos de pré-camada de Descemet. Meus colegas, os alunos de doutorado e um professor da minha universidade e eu discutimos e chegamos à conclusão que ela poderia se chamar camada de Dua. Na verdade, temos outro artigo que deve sair em alguns meses, pois há ainda alguns aspectos que precisamos considerar. Esse artigo dará ainda mais importância para essa camada. Se acharmos um nome melhor para ela, vamos mudá-lo. Por agora, todos falam desse nome, mesmo sendo um pouco embaraçoso.

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