Há 50 anos, morria Lúcio Cardoso, um artista multifacetado

Mineiro se expressou na literatura, no cinema e nas artes plásticas

por Luiz Carlos Lacerda* 21/09/2018 11:23
Geraldo Viola/O Cruzeiro/EM/D.A Press
Nascido em Curvelo, Lúcio Cardoso viveu maior parte da vida no Rio de Janeiro, onde morreu em 24 de setembro de 1968 (foto: Geraldo Viola/O Cruzeiro/EM/D.A Press)

Há meio século, a literatura brasileira perdia o romancista, poeta, memorialista, dramaturgo, argumentista, roteirista de cinema e pintor Lúcio Cardoso.

Mineiro de Curvelo, estreou em 1934 com o romance Maleita, escrito na adolescência. O livro narra a saga da fundação de uma cidade assolada pela peste – inspirada num episódio da vida de seu pai, Joaquim. Inscrevia-se no gênero do romance social – praticado na época por Graciliano Ramos, José Lins do Rêgo, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e outros –, tendo o Nordeste como foco. No entanto, havia ali indicações sutis e inevitáveis de uma linha literária que marcaria e reuniria – mesmo sem estabelecer propriamente uma escola –um pequeno grupo dedicado a esmiuçar a alma de seus personagens, sua psicologia e introspecção.

Octavio de Faria, Cornélio Penna e a jovem Clarice Lispector – trazida por Lúcio Cardoso, que emprestaria o título Perto do coração selvagem (1943) ao seu primeiro romance – constituíram aquilo que significou a contramão dessa visão de mundo marcada pela influência marxista, preocupada com a questão social, mergulhando na subjetividade de seus personagens, seus conflitos, aflições e alguma esperança caracterizada pela religiosidade. Uma religiosidade que cobriria de sombra e culpabilidade a ação de sua dramaturgia e de suas narrativas.

Lúcio Cardoso foi o escritor que, depois de Salgueiro (1935) – romance ambientado na favela do Rio de Janeiro – mais profundamente se enveredou nesse terreno pantanoso e movediço da condição humana. Clarice, ungida por sua sensibilíssima alma feminina, chegou ao limite inimaginável de descrever o nascedouro das emoções, na fímbria das palpitações desses corações selvagens e imprevisíveis, registro da inadequação das almas atormentadas e no limite da razão.

Cornélio e Otavio – cada um à sua maneira – inseriram a subjetividade conflitante de seus personagens no tumultuoso e vulcânico circo das relações sociais, sem a prioridade que os romancistas do Nordeste lhes dedicaram, mas considerando-as nos arredores de suas tramas, como o pano de fundo, a boca de cena dessas encenações também delineadas pelas sombras da culpa e da noção de pecado, de morte e de redenção.

Se Lúcio acreditava num Cristo à imagem do homem – como declarou insistentemente em seus Diários – também era crente no milagre consumado em sua obra-prima A crônica da casa assassinada (1959). A ressurreição da carne através do amor e do pecado.

O Deus de Clarice é o mistério. É a maçã no escuro às vésperas de seu incêndio de fé. E a nostalgia do paraíso habitado, anterior ao pecado original e contemporâneo. Seu inferno é o elevador enguiçado, é o terror de ter que escrever a crônica do dia seguinte, é a morte de seu cão ou a empregada que não veio na segunda-feira, é a espera pelo amigo atrasado ao encontro no restaurante – e ela não sabe o que pedir para o garçom e nem o que fazer com as mãos. É o purgatório do cotidiano empobrecedor dos dias comuns que se confundem com a morte.

Se Clarice, nesses 50 anos sem Lúcio, alcançou o sucesso editorial e internacional graças à apaixonada dedicação do americano Benjamin Moser (autor da sua bela biografia e das antologias que se seguiram, de contos e crônicas) e que provocou uma popularização de sua obra, Cornélio e Otavio caíram no esquecimento. Não fosse a fidelíssima adaptação de sua obra Fronteiras (1935) pelo cineasta mineiro Rafael Conde realizada em 2008, Cornélio continuaria no fundo das bibliotecas de seus fanáticos admiradores. Diga-se de passagem, seu romance A menina morta (1954) chegou a ser roteirizado por Glauber Rocha, um de seus maiores aficionados.

Com Lúcio Cardoso, nessas cinco décadas sem sua presença, a abnegada dedicação de seu sobrinho-neto e também escritor Rafael Cardoso tem garantido inúmeras e permanentes reedições de suas obras no nosso mercado, na Europa e nos Estados Unidos – onde recentemente foram publicadas as traduções de A crônica da casa assassinada, em Portugal e nos Estados Unidos.

Além de quase toda a sua obra merecer reedições, um fato raro sucedeu – a publicação de seu Diário, desta vez, de fato completo, alcançou uma segunda edição quase em seguida ao lançamento da primeira, graças a Esio Macedo Ribeiro – também responsável pela sua Poesia completa, obstinada, dedicada e minuciosa pesquisa também publicada.

Vale registrar o trabalho de Valéria Lamego, num verdadeiro mergulho arqueológico nos periódicos cariocas em busca de contos publicados e reunidos por ela na edição de Contos da ilha e do continente, assim como no livro de Beatriz Damasceno, Lúcio Cardoso em corpo e escrita – sensível testemunho da luta de um escritor impedido do uso da palavra na procura desesperada de se expressar.

SÉTIMA ARTE Lúcio Cardoso cultivou profunda relação com o cinema e suas obras tiveram diversas versões para as telas. O diretor Paulo Cesar Sarraceni se dedicou à obra do escritor mineiro com três obras para o cinema. A primeira foi Porto das Caixas, baseado em argumento original de Lúcio Cardoso. O filme, primeiro longa-metragem do cineasta, estreou em 1962 e se tornou um clássico do Cinema Novo. Em 1971, recriou a obra-prima A crônica da casa assassinada sob o título A casa assassinada, que contou com trilha de Antônio Carlos Jobim. A chamada Trilogia da Paixão se encerrou com O viajante (1998), que aguarda adaptação para a televisão, em andamento.

Pessoalmente, dediquei parte de minha filmografia à obra desse escritor. Meu primeiro filme, o curta O enfeitiçado (1968), revelava o milagroso processo de nascimento de uma nova forma de expressão através da pintura, de um escritor fisicamente impedido de continuar a sua obra. Seguiu-se a adaptação livre de Mãos vazias (1938), meu primeiro longa-metragem, lançado em 1970 no circuito comercial e em festivais de cinema internacionais.

Um caso especial foi a realização de A mulher de longe, em 2012, longa comemorativo do centenário de Lúcio, a partir de material de seu filme inacabado de 1949. A produção resgatou imagens inéditas e dadas como perdidas – encontradas na Cinemateca Brasileira – o diário das filmagens e o roteiro com minuciosa decupagem técnica, sob guarda do Museu da Literatura Brasileira, da Fundação Casa de Rui Barbosa.

Na pesquisa realizada na Casa de Rui Barbosa, encontrei os originais do argumento inédito de Introdução à música do sangue, que Lúcio me presenteou durante as filmagens de O enfeitiçado, em 1968, e que realizei entre 2014 e 2016.

Recentemente filmei O que seria deste mundo sem paixão?, argumento original de minha autoria que narra o hipotético encontro dos fantasmas de Lúcio Cardoso e do poeta Murilo Mendes, amigos, e dos personagens de seus romances e poemas – inédito nas salas de cinema e na TV e exibido em festivais no Brasil e no exterior.

A literatura de Lúcio Cardoso, nesses 50 anos de sua ausência, caminha com seus passos próprios, sem ambições maiores – como foi a vida do escritor – apenas a de ser porta-voz das contradições, sofrimentos e sonhos que a alma de seus personagens vem desenhando nesse painel de eternidade que são os sentimentos do homem.



*Luiz Carlos Lacerda é cineasta e poeta.

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