Rodrigo Lacerda se consolida como um dos mais hábeis escritores em atividade no Brasil

Autor fala sobre 'Reserva natural', seu novo livro de contos, e o premiado romance 'Outra vida'

por Carlos Marcelo 04/05/2018 11:30

Renata Parada/Divulgação
(foto: Renata Parada/Divulgação)
A dinâmica das larvas, A república das abelhas... A observação do comportamento dos animais, em paralelo com a atividade dos seres humanos, tem inspirado o escritor carioca Rodrigo Lacerda. Em Reserva natural (Companhia das Letras), o tema ganha de vez o protagonismo. Basta notar que os 10 contos reunidos no novo livro são apresentados em duas partes: “Território” e “Fauna”.  “O que o livro procura fazer é preencher a distância entre a humanidade e a natureza”, explica o escritor, formado em história e também tradutor de autores célebres, como Shakespeare, Alexandre Dumas e William Faulkner. Do estupendo conto que dá nome ao livro ao último, igualmente impactante, Metástase, há nas 184 páginas guerras infinitas entre tamanduás, cupins, vaga-lumes, abelhas, flores, abismos, vícios, tecidos adiposos, bactérias, vírus, células saudáveis e cancerosas. Homens e mulheres, vaidosos, obstinados e desconfiados, são testemunhas (ou vítimas) da ordem natural das coisas. A seguir, Lacerda conta como transformou a observação da natureza em literatura na coletânea de contos e fala também de Outra vida, romance premiado pela Academia Brasileira de Letras que acaba de ganhar nova edição.

O que lhe interessa tanto na organização dos seres vivos, racionais e irracionais?
Aprendo bastante sobre os homens e as sociedades humanas observando os animais e as sociedades deles. Não tenho uma teoria definida sobre isso, mas gosto de meditar a partir desse espelho da natureza. Creio que enquanto a humanidade se julgar superior ao mundo natural, dona de uma racionalidade que a destaca, opondo cultura e natureza, não temos muita chance de aprender novas formas menos destrutivas e autodestrutivas de convivência com o meio ambiente.

Como transformar a observação da natureza em literatura?
A força do mundo natural é para mim tão evidente que não creio ser preciso muita coisa para, a partir dela, se criar uma estética literária própria. Sua beleza, seus dramas, a luta pela sobrevivência, o equilíbrio das forças em tensão permanente, tudo isso é material literário e dramático. Mas uma coisa, talvez, não possa faltar para a natureza se transformar em matéria literária: a capacidade de descrever, o uso dos recursos da língua portuguesa – ritmo, sintaxe, sonoridade – como forma de recriar a variedade, a beleza e o drama da vida natural. Defrontar-se com uma paisagem intocada pela civilização, com um animal selvagem de grande porte, com colônias de vida minúscula, tem algo de epifânico, difícil de ser reproduzido em palavras. Mas esse é o desafio.

No conto Reserva natural, o cupinzeiro é descrito como “sistema perfeito”. Já em Metástase, “os cupins são espertos o bastante para jamais comerem a árvore na qual instalaram seu ninho. Viva os cupins”. Os cupins lhe interessam mais do que os homens?
(Risos). Cupins, abelhas e algumas outras espécies são especialmente úteis para questionar a ideia de que as sociedades humanas são criações superiores, acima da natureza. Eles também têm sociedades complexas e organizadas, que aliás funcionam muito melhor do que a maioria das sociedades humanas. Mas o que o livro procura fazer é justamente preencher a distância entre a humanidade e a natureza, colocá-los num mesmo plano, então não dá para dizer que os cupins interessam mais. Eles são um bom espelho para pensar sobre nós, isso sim.

“Quando vi estava perdidamente apaixonado por amebas, vírus, fungos, genes e anticorpos”, também por “bactérias de corpinhos fluorescentes, corcoveantes, deslizantes e sensuais”, afirma o narrador de Metástase, interessado em formas de vida que “executam suas funções biológicas sem prazer ou dor, sem juízo crítico, em plena conformidade com sua programação natural” e admirador “de todos os penduricalhos a que chamamos de consciência, ou cultura”. Essa admiração é uma reação ao mundo conectado e tecnológico no qual vivemos?
Acho que a humanidade tem “programações biológicas” que ela desconhece, ou conhece mal. Queremos salvar o planeta, mas não somos capazes de assumir o potencial destrutivo de algumas dessas programações intrínsecas à nossa espécie. No mesmo conto, menciono um dado real, de que dos anos 1950 para cá, graças a uma série de fatores, a população mundial pulou de 2,5 bilhões de pessoas para 7 bilhões. Nesse ritmo de crescimento, fica difícil proteger o meio ambiente. Se quisermos encontrar meios de salvar o planeta, precisamos ter consciência de fatores mais profundos e encontrar um jeito de lidar com eles. Não devemos nos sentir culpados por ser assim, mas também não podemos ignorar o problema dizendo que tudo é cultural, pois não é.

O caçador é narrado por um morador de rua. Paraíso, por uma mulher. Movimento, por um traficante. Sente-se à vontade para falar pelos outros em primeira pessoa? O que acha da discussão, cada vez mais acirrada, sobre o “lugar de fala” na literatura?  
O que eu posso dizer é que as vozes desses personagens me vêm naturalmente. Gosto de ouvir falas diferentes da minha e de recriá-las. Eu me interesso pelos vários usos da língua, sem preconceitos. Não acho que meus personagens e seu jeito de falar sejam exemplares de nenhuma categoria social, até porque já conheci alguns moradores de rua e nenhum era igual ao outro, ou falava e pensava igual ao outro. Temos uma subjetividade, uma “irredutível individualidade”, como dizia o romancista William Faulkner, mais forte que o fato de pertencermos a essa ou àquela categoria social. Nesse sentido, acho que o império das questões identitárias e do “lugar de fala”, embora renda bons livros, corre o risco de limitar o campo de atuação do escritor de ficção. Como se a sociologia agora delimitasse que personagens posso ou não posso criar. Sempre achei que o melhor escritor era justamente aquele capaz de ter empatia com indivíduos de todo tipo e com todos os grupos sociais, e foi em parte mirando nisso que decidi escrever. Isso não significa ignorar as tensões sociais, econômicas, políticas ou étnicas, e sim cumprir um papel de mensageiro entre os diversos grupos. O escritor deve ser, acima de qualquer coisa, um humanista.

A derrocada inexorável da civilização é um dos temas de Metástase. O mesmo assunto, mas em outra chave, foi abordado no juvenil Todo dia é dia de apocalipse. Sua visão é apocalíptica, realista ou apocalipticamente realista?
Nos meus piores dias, fico um tanto pessimista em relação à capacidade da nossa espécie de reverter os danos que ela causa ao meio ambiente do planeta. Alguns cientistas preveem cataclismos naturais que eliminarão 3/5 da humanidade (como já aconteceu outras vezes na história); outros, geoengenheiros, planejam desviar parte dos raios solares, como forma desesperada de conter o aquecimento da Terra e suas trágicas consequências.

E o Brasil?
O mundo inteiro discute novas matrizes energéticas, e nós só falamos do petróleo pré-sal, ainda calcamos nossos altos e baixos econômicos na indústria automobilística, enfim, fazemos tudo, ou quase tudo, errado. Nos dias melhores, porém, acho que a China, a Europa e os EUA (depois que o Trump passar), podem liderar um movimento de renovação energética forte o suficiente para contagiar também o mundo em desenvolvimento. E acredito no poder da ciência para ajudar a reverter os danos da superexploração – na terra, no ar e, sobretudo, no mar, que definha a olhos vistos. Em resumo, gosto da frase que diz: “Não sou otimista nem pessimista. Entre mim e o mundo não há nenhum mal-entendido”.

Você mantém a atividade também de tradutor. O que aprendeu com alguns dos mestres que traduziu?
Dos que eu traduzi, em cada escritor aprendi a admirar um aspecto. No Alexandre Dumas, o ritmo acelerado da ação e a capacidade de segurar o leitor a todo instante; no Maurice Leblanc, o senso de humor e a engenhosidade dos enredos; no Shakespeare, a gradual e coerente evolução psicológica dos personagens e o sentido da história; no William Faulkner, a potência dramática e o sentido épico de quase tudo que ele escreveu. Mas isso não quer dizer que você aprenda a fazer igual, infelizmente! De qualquer forma, a tradução é um mergulho nesses textos muito mais profundo do que a simples leitura, que já é uma experiência incrível.

Em Concurso, biografias de escritores formam uma fauna variada. Por que decidiu, também em Reserva natural, como fez em A dinâmica das larvas, olhar para os de sua espécie?
Porque nós, escritores, somos mesmo uma fauna muito curiosa! Temos manias, somos sistemáticos, cada um a seu modo. O conto é evidentemente humorístico, uma autogozação. O espírito da coisa, ali, é a crença numa apreensão plural da literatura, aprendendo a valorizar os vários tipos de vozes literárias, questionando nossa inclinação (a falsa necessidade) a sempre hierarquizá-las segundo critérios de uma suposta excelência.

Sobre o romance Outra vida, que acaba de ser relançado: em determinado trecho, o narrador cita a “vontade de se autoaprimorar, uma daquelas coisas que não são justas nem injustas, simplesmente existem e são onipotentes”. Você teve vontade de aprimorar o texto original? O que acha de autores que reescrevem, de tempos em tempos, os seus livros? É o seu caso?
Não costumo reescrever meus livros depois de publicados. Antes, porém, reescrevo-os obsessivamente. E de um livro para o outro também há sempre o desejo de fazer melhor, claro. Mas sou um escritor que muda muito o jeito de escrever a cada livro. Procuro deixar que a história cresça junto com a linguagem mais adequada para ela mesma, em vez de ter um estilo fixo e impô-lo a todas as histórias. Nada contra quem trabalha assim, mas não é como funciona para mim. A forma mais importante de aprimoramento, contudo, a meu ver, é aprofundar minhas interrogações sobre o mundo, a condição humana e a relação entre as duas coisas. Essa é a essência do meu projeto literário.

“O escândalo de corrupção o compromete totalmente aos olhos do amigo.” Como a corrupção impulsiona a trama de Outra vida? Acha que o tema pode inspirar a literatura contemporânea?
Acho até estranho que a corrupção apareça tão pouco na literatura brasileira. Talvez seja a única área da nossa vida em que ela não está muito presente! Sem dúvida que esse é um tema interessante para o escritor/cidadão brasileiro. No caso de Outra vida, meu intuito foi abordá-lo sem a mistificação confortável segundo a qual a corrupção está somente nos altos escalões da República. Ela está nas nossas vidas, esbarramos com ela o tempo todo. O personagem do livro se envolve num escândalo de corrupção e eu queria que o leitor pensasse: “No lugar dele, talvez eu também tivesse me corrompido”. Não queria uma moral maniqueísta, e sim que nos víssemos capazes de sucumbir a essa deformação da cidadania. Enquanto continuarmos apontando o dedo apenas contra os poderosos, não perceberemos suas manifestações cotidianas à nossa volta. Nossos líderes deveriam dar o exemplo, e por isso devem todos os culpados ser exemplarmente punidos, mas é no corpo social que a verdadeira batalha deve ser ganha.

“De repente o buraco vira abismo. Ele não entende mais o que está acontecendo.” Essa passagem de Outra vida pode ser lida também como uma descrição do Brasil dos últimos anos? A literatura é capaz de entender e decodificar o que está acontecendo no país?
Embora eu seja historiador de formação, creio que a literatura, potencialmente, é mais capaz de apreender o espírito de uma época do que um livro de história. Este tem sempre um recorte, uma linha de análise, uma opção temática e metodológica que costuma limitar seu alcance. As tentativas de se fazer a chamada “história total” nunca foram muito adiante. Mas quando você lê Guerra e paz, o espírito do tempo na Rússia do século 19 está lá; quando você lê a Montanha mágica, a Europa do início do século 20 está lá. Acontece que, para a literatura concretizar esse potencial, a meu ver, ela não deve ter um partido político/social/econômico específico. A literatura tem de ser capaz de mimetizar o máximo de vozes e vertentes e de colocá-las em interação, e de usar uma para questionar a outra, e isso não está acontecendo na literatura brasileira, pois não está acontecendo no país em geral. A maioria de nós está por demais atochada de ideologia para que a sensibilidade mais abrangente do tempo histórico possa se impor.

 


Reserva natural
. Contos de Rodrigo Lacerda
. Companhia das Letras
. 184 páginas
. R$ 44,90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outra vida
. Romance de Rodrigo Lacerda
. Companhia das Letras
. 160 páginas
. R$ 44,90

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