Tradução autoral de Dirce Waltrick recria trechos de 'Por um fio', de James Joyce

Versão em português elaborada pela professora buscou valorizar a sonoridade do poema em prosa, traço marcante desta obra joycena cuja título original é 'Finnegans Wake'

por Márwio Câmara* 18/05/2018 12:37
Dirce iluminar a fruição dos leitores da enigmática obra-prima joyceana cujo título original é 'Finnegans wake'
(foto: Dirce iluminar a fruição dos leitores da enigmática obra-prima joyceana cujo título original é 'Finnegans wake')
Em 1939, o escritor irlandês James Joyce publica uma das obras mais enigmáticas da literatura de língua inglesa, Finnegans Wake. Se não bastasse a produção de Ulysses (1922), retrato primoroso do alto modernismo do século 20, Joyce revoluciona mais uma vez, radicalizando seu experimentalismo formal.

As tentativas de leitura são sempre infindáveis em Wake. Misto de lenda e fábula, traz comicidade, trocadilhos, prosopopeias e variadas línguas aglutinadas num inglês quase pré-fabricado, há quem diga que tal romance se trata do livro da noite (em virtude do anterior se passar ao longo de um único dia na vida de suas personagens) e, por isso, sua linguagem seria a do sonho.

O francês Jacques Lacan, um dos mais respeitados nomes da psicanálise, fascinado pela poética estranha e controversa do autor, dedicou-se a um estudo prodigioso sobre a prosa joyceana. De lá pra cá, pesquisadores do mundo inteiro lutam para decifrar as chaves em torno dos enigmas do caudaloso e híbrido poema em prosa.

Professora do curso de pós-graduação em estudos da tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Dirce Waltrick do Amarante é uma das principais pesquisadoras de James Joyce no Brasil, ao lado de seu marido, o professor, crítico e poeta Sérgio Medeiros. Com bibliografia cercada de traduções e ensaios sobre o pai do romance moderno, a tradutora lançou recentemente Finnegans Wake (por um fio), trabalho audacioso em que se dispôs a verter para a língua portuguesa parte da grande engenharia polissêmica da obra-prima joyceana, partindo por um dos fios narrativos do livro.

Em entrevista ao Pensar, Dirce Waltrick do Amarante conta detalhes sobre o novo trabalho, as dificuldades encontradas durante a tradução e o interesse apaixonado pela obra de um dos escritores mais cultuados e temidos da história da literatura.

Como surgiu a ideia de traduzir Finnegans wake a partir de um dos fios narrativos do romance?
Há quase duas décadas venho lendo e relendo Finnegans wake e, embora muitos estudiosos digam que não há história alguma no livro, que a linguagem é seu tema central, acredito que personagens e fatos emergem do turbilhão de imagens sobrepostas do livro. Claro que são personagens multifacetadas, que entram em constante metamorfose, ora uma, ora outra, ou todas ao mesmo tempo: pai e filhos se condensam, mãe e filha se confundem e todos se transformam em mitos, rios, nuvens... Tentei destacar um desses momentos, mostrar a personagem em uma ou apenas algumas de suas muitas metamorfoses. Minha intenção foi abrir uma trilha nessa mata fechada intitulada Finnegans wake, criar um atalho que o leitor pudesse percorrer sem muitos percalços do começo ao fim do livro.

Que tipo de procedimento você utilizou para trabalhar a tradução sob essa perspectiva condensada da obra?
Finnegans wake é um poema. Sua sonoridade e seu ritmo são tão importantes quanto o seu conteúdo. Joyce brinca com as palavras, cria neologismos, palavras-valise, brinca com trocadilhos. Procurei preservar essas características do livro, que só puderam ser mantidas porque foram recriadas em português. Por exemplo, traduzi espistolear – epístola mais orelha/ouvido, por “epistolírio” –, epístola mais lírio e algo como íris, de modo que transferi para os olhos e para o nariz, que cheira o lírio, o ouvido de Joyce. Outro exemplo: traduzi O here here how... (o som here (aqui) confunde-se com hear (escutar) por O is cute is cute como... (is cute, em inglês, significa “que gracinha”, mas, se lermos em voz alta, ouviremos a palavra “escute”. Esclareço que já havia traduzido o capítulo 8 do Finnegans wake, que foi publicado no livro de minha autoria, Para ler Finnegans wake de James Joyce (Iluminuras, 2008). De modo que tenho entrado no romance-poema aos poucos e sempre de forma diferente.

Quais foram os maiores problemas encontrados ao transpor para a língua portuguesa um dos textos mais complexos de James Joyce e da história da literatura?
Problemas de todas as ordens. Primeiro, antes de traduzir, me deparei com a imensa dificuldade de recortar o enredo, o que deixar para trás e o que ressaltar do livro. Cortar foi tão difícil quanto traduzir, pois o excesso faz parte do Wake. Escolhido o que ressaltar, veio a tradução, que nunca dá conta de todas as referências joycianas. Trabalhar com perdas e ganhos, ou mais com perdas do que ganhos, é a realidade do tradutor de Finnegans wake. A respeito da minha tradução, faço uma reflexão sobre ela quando traduzo a frase immerges a mirage in a mirror por “emerge numa miragem espelho”, lembrando que immerge significa imergir e não emergir. Mas a tradução faz sempre o texto emergir e traz à tona algo da ordem da interpretação, pois não há como traduzir sem interpretar. Além disso, a tradução faz o texto emergir sempre como uma miragem.

Em geral, Joyce ainda hoje é mais cultuado do que verdadeiramente lido e que há certa resistência à obra dele. Como você vê essa resistência dos leitores e esse status relacionado à figura do autor?
Resistimos à vanguarda de um modo geral, porque não a aprendemos a ler nem na escola nem em casa. Geralmente, procuramos um livro pelo tema e a vanguarda trabalha também com a linguagem, o que obscurece o tema e embaralha a cabeça dos leitores de primeira viagem, acostumados a receber, de mão-beijada, a “mensagem” do texto. Resistimos a Joyce e Joyce resiste a nós, e essa relação difícil é muito estimulante e enriquecedora.

Joyce escreveu esse último livro com a visão bastante comprometida, o que levou ao escritor Samuel Beckett ajudá-lo na transcrição de parte da obra para o papel. Existe um relato de que Joyce havia escutado um som ou alguém falar, durante a escrita e que acabou sendo registrado no livro. O que descobriu sobre a feitura de Finnegans wake?
Enquanto ditava o livro para Beckett, Joyce ouviu alguém bater à porta e disse “Pode entrar”. Horas mais tarde, pediu para Beckett reler o que ele havia ditado e Beckett, no meio de um emaranhado de frases, leu “pode entrar”. Joyce disse, “Eu não ditei isso”, Beckett disse que sim, Joyce insistiu que não e, ao final, decidiu deixa a frase ficar. Joyce acolhia assim o acaso em sua obra. Novidades sobre Joyce? muitas em suas cartas. É esperar para ver.

Você também está traduzindo cartas de Joyce. Do que se trata esse material?
Cartas a Weaver, uma antologia de cartas de Joyce para sua mecenas, Harriet Weaver, já está pronta. Sérgio e eu organizamos e traduzimos os textos. O livro deve ser publicado pela editora Iluminuras ainda este ano. A tradução das cartas de Joyce para o seu irmão Stanislaus Joyce é um work in progress, é mais um trabalho de tradução que assino com Sérgio. Outra novidade é que reuni um grupo de estudiosos de Joyce e, juntos, estamos traduzindo Finnegans wake na íntegra.

James Joyce é um dos escritores mais importantes para se entender o romance modernista do século 20. Para você, qual seria a característica mais interessante da obra joyceana?

A liberdade de fazer literatura. Esse é o grande legado de Joyce, que soube mesclar as reflexões mais eruditas aos temas mais banais, revelando o quão amplo é o universo da ficção.

O que os leitores podem esperar de Finnegans wake (por um fio)?
Queria que aqueles que nunca leram o livro o lessem agora, junto comigo. Queria que aqueles que conhecem o livro, o relessem de um outro ponto de vista. E queria que todos soubessem que há muitas maneiras de se aproximar de Finnegans wake. Queria mesmo que todos se divertissem. Queria... etc.


Márwio Câmara é escritor, jornalista, crítico literário, autor de Solidão e outras companhias (Editora Oito e Meio).



FINNEGANS WAKE (POR UM FIO)
• De James Joyce
• Tradução de Dirce Waltrick do Amarante
• Iluminuras
• 184 páginas
• R$ 48

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